Ato organizado por padre Júlio Lancelotti mistura encenação e denúncia sobre população em situação de rua
Centenas de pessoas participaram na sexta-feira (3) da Via Sacra do Povo de Rua, no centro de São Paulo. O ato, organizado pelo padre Júlio Lancelotti, percorreu ruas da região central até a catedral da Sé, com encenações e críticas à exclusão social.
A concentração começou por volta das 8h30, na praça do Patriarca. De lá, os participantes seguiram pela rua Líbero Badaró em direção à igreja.
Organizada pela Pastoral do Povo de Rua em parceria com movimentos sociais e religiosos, a manifestação reuniu entidades como Sefras (Ação Social Franciscana), Recifran, União Nacional por Moradia Popular e Movimento dos Trabalhadores Sem Terra da Leste 1.
O ato incluiu encenações inspiradas na via-sacra cristã. A primeira ocorreu em frente à Igreja São Francisco e representou a crucificação de Jesus. O papel de Cristo foi interpretado por um participante negro, em referência à discussão sobre racismo e à realidade da população em situação de vulnerabilidade.
Em um dos momentos, a personagem Maria Madalena usou um espelho para refletir o rosto dos participantes, em alusão à identificação com a figura de Cristo.
Durante o trajeto, houve parada na ocupação Eunice Paiva, no largo São Francisco, onde foram distribuídas cestas básicas e frutas à população em situação de rua.
Encenação e participação
O segundo ato ocorreu em frente às escadarias da catedral metropolitana e retratou o conflito entre moradores de rua e setores da sociedade. A personagem que rejeita a presença dessas pessoas foi interpretada pela psicóloga Beatris Guarita Dotta, voluntária da pastoral.
“Eu os conheci desde a época que os atendia em um dos grupos terapêuticos da pastoral”, explica, ao comentar a participação de pessoas em situação de vulnerabilidade nas encenações.
Segundo os organizadores, os atores foram selecionados em centros de acolhida e participaram de ensaios ao longo de um mês.
Marcelo Augusto, voluntário da Pastoral de Rua, diz que a preparação envolveu diferentes instituições.
“Nós articulamos com os centros de convivência e identificamos alguns irmãos que queriam participar da encenação. Foi um pouco difícil pela vergonha, ainda assim, eles participam”, afirma.
Dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais, indicam que a maioria dessa população é formada por homens (82%), negros (65,57%) e com ensino fundamental incompleto (cerca de 36%).
O ato foi encerrado na catedral da Sé. O padre Luiz Eduardo Baronto, Cura da catedral, citou o papa Francisco ao defender os direitos básicos. “Não deixar um ser humano sem terra, sem trabalho e sem moradia.”
Ao final, os participantes tocaram um crucifixo levado por frades franciscanos e fizeram orações.











