Pesquisa da USP e da Universidade Estadual de Ohio detalha avanço do consumo, falhas na fiscalização e impactos dos dispositivos no país.
O uso de cigarros eletrônicos aumentou 600% no Brasil entre 2018 e 2023, segundo estudo divulgado nesta segunda-feira (10) na The Lancet Regional Health – Americas.
A pesquisa, conduzida por especialistas da USP e da Universidade Estadual de Ohio, mostra que 3,1 milhões de brasileiros utilizam exclusivamente os dispositivos e outros 8 milhões fazem uso combinado.
O levantamento indica que a proibição vigente desde 2009, somada à falta de fiscalização, favoreceu a formação de um mercado ilegal amplo, acessível e sem controle sanitário.
Crescimento acelerado e mercado irregular

A pesquisa descreve como a expansão dos cigarros eletrônicos ocorreu em meio a um cenário de vigilância limitada.
Segundo o estudo, a facilidade de compra em redes sociais e pontos de venda físicos ampliou a oferta de produtos falsificados. Esses itens não passam por controle sanitário e chegam aos consumidores sem qualquer garantia de segurança.
Investigações recentes identificaram mais de 1.800 anúncios irregulares desses produtos em plataformas digitais. Os dados reforçam que a proibição, sem fiscalização ampla, não impediu o acesso.
A Receita Federal registrou quase 2 milhões de unidades apreendidas em 2024, o que representa aumento de 57% em relação ao ano anterior.
Riscos emergentes à saúde pública
O estudo também alerta para concentrações de metais acima dos limites aceitáveis em vapes descartáveis vendidos no país.
As análises laboratoriais mostram substâncias como níquel, chumbo e cádmio em níveis que geram preocupação entre especialistas. Os pesquisadores relatam aumento de internações e complicações respiratórias vinculadas ao uso frequente dos dispositivos.
A Organização Mundial da Saúde afirma que os aerossóis de cigarros eletrônicos expõem usuários a materiais tóxicos e cancerígenos. Esses compostos incluem metais pesados e substâncias voláteis associadas ao câncer de pulmão.
A American Lung Association reforça o alerta ao destacar a presença de formaldeído e acroleína, que provocam inflamação pulmonar e danos ao DNA.
Especialistas reforçam preocupação com impactos

A oncologista Clarissa Baldotto, presidente eleita da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e integrante do board da International Association for the Study of Lung Cancer, afirma que os cigarros eletrônicos não representam alternativa segura. Segundo ela, os compostos presentes nesses dispositivos podem causar mutações genéticas ligadas ao câncer de pulmão.
“O vape não é inofensivo, nem representa uma alternativa segura ao cigarro convencional. Diversos estudos já demonstraram que os compostos presentes nos cigarros eletrônicos podem causar mutações genéticas associadas ao câncer de pulmão”, afirmou a médica.
A especialista considera preocupante o crescimento do uso entre jovens e adultos em um cenário de baixa regulamentação. “É preocupante ver jovens e adultos sendo expostos a um produto cuja toxicidade é evidente, mas cuja regulação ainda é negligenciada. O Brasil precisa tratar o vape como uma questão urgente de saúde pública”, comentou.
Dra. Clarissa, que atua na Rede D’Or, defende ações amplas inspiradas em políticas tradicionais de combate ao tabagismo. “A experiência internacional mostra que só políticas de prevenção, informação e controle rigoroso podem conter os danos à saúde e evitar uma nova geração de dependentes de nicotina.”
Debate sobre regulação e vigilância
Os autores do estudo argumentam que o país precisa revisar a atual abordagem. Para eles, políticas baseadas em evidências e monitoramento contínuo do consumo podem oferecer alternativas mais eficazes.
Segundo o artigo, a proibição isolada mostrou-se incapaz de conter a circulação de dispositivos ilegais e sua popularização.
A publicação recomenda que autoridades fortaleçam a fiscalização de redes sociais e estabelecimentos físicos. A ampliação de ações educativas também é vista como necessária para reduzir a desinformação sobre riscos associados ao uso dos cigarros eletrônicos.
Desafios para políticas públicas

A presença de um mercado ilegal estruturado impõe desafios adicionais. Produtos falsificados circulam sem rastreamento, o que dificulta qualquer tentativa de controle sanitário.
A compra por menores de idade se tornou mais acessível, especialmente em plataformas digitais. Esse ambiente cria obstáculos para ações preventivas e amplia a exposição a substâncias tóxicas.
Ao mesmo tempo, o crescimento de internações e complicações respiratórias relacionadas ao uso exige respostas rápidas do sistema de saúde, segundo especialistas citados no debate público.
O estudo destaca que, sem medidas articuladas, a tendência é de aumento de problemas associados aos dispositivos.
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