Entre o sofrimento que nunca termina e a felicidade que só chega no fim, personagens negros seguem presos a papéis que não libertam
foto capa: Globo/Divulgação
Na teledramaturgia brasileira, personagens negros raramente vivem histórias leves ou felizes. Mesmo quando alcançam o protagonismo, suas trajetórias são quase sempre atravessadas por dor, exclusão e violência. Quando finalmente conquistam o sucesso, esse triunfo costuma vir apenas nos últimos capítulos, como uma recompensa tardia após uma trajetória carregada de sofrimento. A alegria negra, nesses roteiros, aparece como exceção e nunca como direito.
Durante décadas, atores e atrizes negros foram escalados para papéis de submissão. Babás, cozinheiras, motoristas, seguranças, capangas e criminosos preencheram o imaginário coletivo com a ideia de que a presença negra existe apenas para servir ou ameaçar. Essa representação limitada se repete com tanta frequência que muitos artistas acabam presos a estereótipos, com seus talentos reduzidos a funções de apoio nas tramas.
A atriz Zezé Motta é um exemplo marcante dessa lógica. Uma das maiores intérpretes do país, consagrada no teatro e no cinema, teve sua presença na televisão sistematicamente associada ao papel de empregada doméstica. Mesmo com todo o seu talento inegável, foi frequentemente colocada em segundo plano, vestindo o avental de personagens sem profundidade ou espaço para desenvolvimento dramático. Sua trajetória nas novelas evidencia como a televisão brasileira não soube valorizar a potência de uma artista negra completa, preferindo restringi-la a papéis de servidão.

Zezé Motta e Débora Falabella em ‘Sinhá Moça – 2ª versão’, 2006 — Foto: Márcio de Souza/Globo
Além de sua contribuição artística, Zezé Motta também é uma militante do movimento negro. Durante a celebração do Dia Mundial do Teatro, ela declarou “A trajetória do negro é uma trajetória de luta. De luta e resistência. Mas os negros têm muita coisa para falar, que vão além de nossas pedras no caminho… Vida, família, arte, amigos, filhos, música! Nosso outro lado que o público precisa conhecer. A nossa trajetória de conhecimento e de vida”.
A atriz Jéssica Ellen, que interpretou Camila em Amor de Mãe, viveu uma sucessão de tragédias: rejeição materna, racismo, violência policial e tentativa de assassinato. Apesar de ocupar posição central na história, sua personagem foi construída dentro do mesmo padrão que marca tantos outros corpos negros na ficção, em que o sofrimento é constante e a felicidade quase inexistente. O ator Juan Paiva, em Um Lugar ao Sol, interpretou Ravi, um jovem órfão e humilde, sempre à margem da trama principal. Mesmo sendo sensível, íntegro e empático, Ravi enfrentou abandono, exploração emocional e injustiças, chegando a morrer em uma das versões gravadas para o final da novela.
Já Taís Araújo, pioneira ao protagonizar a novela das sete Da Cor do Pecado, deu vida à personagem Preta, que enfrentava racismo explícito, pobreza, rejeição familiar e perseguições. Embora tenha sido um marco para a representatividade negra, a trama reforçou estereótipos ao vincular a personagem à dor constante e à erotização de seu corpo e cultura. Até o nome da novela foi criticado por associar a cor da pele ao pecado, num contexto carregado de simbologia negativa.

Raí (Sérgio Malheiros) e Preta (Thaís Araújo) na novela Da Cor do Pecado. Foto: Reprodução/Globo
Mesmo em produções mais recentes, personagens negros continuam carregando um peso simbólico que personagens brancos não enfrentam. São frequentemente definidos pela dor, pela luta ou pela superação. Dificilmente vivem histórias centradas em amor, humor ou dilemas cotidianos. O enredo parece exigir que personagens negros passem por inúmeras provações antes de experimentar qualquer traço de felicidade. E quando ela aparece, é geralmente breve, condicionada ou reservada para os minutos finais do último capítulo.
A ausência de personagens negros vivendo histórias comuns, com afeto, leveza e conflitos humanos que não estejam ligados à marginalização ou ao racismo, mostra que a televisão brasileira ainda não rompeu com a lógica narrativa colonial. A ideia de que pessoas negras existem apenas para resistir ou sofrer é limitadora. Ao manter esse padrão, a teledramaturgia reforça desigualdades históricas e naturaliza a exclusão da população negra dos espaços de poder, prestígio e plenitude.
É verdade que houve avanços. Novelas como Vai na Fé buscaram construir um universo com protagonismo negro mais complexo, com personagens que ocupam cargos importantes, vivem histórias de amor, enfrentam dilemas familiares e têm ambições profissionais. No entanto, essas iniciativas ainda são isoladas diante de um histórico profundamente marcado por estereótipos e apagamentos.
A televisão brasileira precisa reescrever seus roteiros. Há uma necessidade de que atores e atrizes negros possam habitar histórias em que não sejam definidos apenas pela dor. É preciso vê-los vivendo amores possíveis, cometendo erros comuns, construindo famílias, experimentando fracassos bobos e conquistas não heróicas. Quando a felicidade preta continua sendo adiada para o último capítulo, o país falha em se enxergar com verdade. E sem verdade, a ficção deixa de cumprir seu papel essencial, que é refletir e transformar a realidade.












