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Conheça a Coligay, torcida organizada do Grêmio que terá história contada em série protagonizada por Irandhir Santos

Coligay se tornou símbolo de resistência LGBTQIAPN+ no futebol brasileiro | Foto: Ricardo Chaves/Acervo Grêmio

Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1977.

Antes de conhecer a Coligay, é necessário entender o contexto social da época. A capital gaúcha vivia de contrastes em plena Ditadura Militar (1964-1985). Com censura e autoritarismo, a cidade emergia uma cena cultural efervescente. Universidades, escolas, teatros e bares se tornaram espaços de resistência e debates a respeito de cultura e política. Nessa mesma época, houve crescimento da cena LGBTQIAPN+ de Porto Alegre. Festas e bares viraram espaços de livre existência e começaram a romper o silêncio imposto pela censura e pelo medo. 

Movimentos pioneiros da comunidade LGBTQIAPN+ se fortaleceram na cena cultural do sul do Brasil. Neste contexto, existia a boate Coliseu, em Porto Alegre, um espaço libertador para a comunidade LGBTQIAPN+ frequentado por artistas, músicos, transformistas, travestis e intelectuais. Além de gerente do local, Volmar Santos era torcedor fanático do Grêmio. Assim, ele decidiu criar a Coligay. A alcunha é uma mistura de Coliseu com a palavra “gay”. 

Para compor o grupo, Volmar convidou frequentadores da casa noturna. Em entrevista ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em maio de 1977, ele afirmou que a ideia já era trabalhada há tempos e que percebia a desanimação nas arquibancadas do Estádio Olímpico Monumental. E não era para menos. Naquele ano, o Grêmio estava há quase uma década sem ganhar títulos, e via o Internacional, seu rival histórico, vencer o Campeonato Gaúcho consecutivamente.

“A Coligay era uma ideia muito antiga, eu já pensava nisso há muito tempo. Eu sou gremista fanático desde que nasci e sempre tive vontade de organizar uma torcida. Achava que os torcedores do Grêmio eram muito parados, que não sabiam incentivar o time. Então, no início deste ano, quando eu senti que o Grêmio realmente iria ser o campeão, decidi formar o grupo”, disse Volmar em entrevista à Zero Hora, em 1977.

A Coligay ocupava o Olímpico com músicas e coreografias | Foto: Reprodução
A Coligay ocupava o Olímpico com músicas e coreografias | Foto: Reprodução

O primeiro jogo em que o grupo torceu para o Grêmio foi contra o Santa Cruz, em 10 de abril de 1977, no Estádio Olímpico Monumental, em partida válida pelo Campeonato Gaúcho. Na época, havia registro de apenas duas torcidas organizadas do Tricolor: Eurico Lara, oficial, com nome em homenagem ao lendário goleiro gremista; e a Força Azul, que era independente. De fato, era raro existir torcidas desvinculadas de clubes em Porto Alegre. 

A Coligay ensaiava todos os sábados, à tarde, na boate Coliseu, e se preparava para qualquer tipo de agressão possível, pois os membros sentiam-se ameaçados no estádio, onde havia torcedores machistas e homofóbicos – além de que, na época, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda listava a homossexualidade como doença -. Assim, Volmar incentivou os integrantes a fazerem aulas de karatê para defesa pessoal.

A torcida era fiel, e acompanhava o Grêmio por todo o Rio Grande do Sul. Eles criaram seu próprio jeito de torcer para o time, ocupando o Olímpico com músicas e coreografias. Por conta dessa forma irreverente e incomum de torcer na época, no jogo contra o Santa Cruz os integrantes foram vaiados e ameaçados de agressão. Volmar conversou com policiais presentes no estádio, que garantiram a segurança da torcida. Alguns jogos depois, a Coligay foi aceita e respeitada pelo resto dos torcedores. 

A torcida era fiel, e acompanhava o Grêmio por todo o Rio Grande do Sul | Foto: Reprodução
A torcida era fiel, e acompanhava o Grêmio por todo o Rio Grande do Sul | Foto: Reprodução

Com o tempo, a torcida se tornou um amuleto de sorte do Grêmio. Naquele mesmo ano de 1977, após um jejum de quase dez anos sem títulos, o Tricolor voltou a ser campeão. A fama da Coligay de ser pé quente era tão grande que o próprio presidente do Corinthians na época, Vicente Matheus, convidou os integrantes para que fossem à São Paulo romper um jejum corintiano de mais de vinte anos. O presidente do clube paulista arcou com os custos da viagem. O ato deu certo: na ocasião, o Corinthians venceu a Ponte Preta por 2 a 1 e conquistou o campeonato estadual.

A atuação do grupo também era política. Em 1978, a torcida apoiou a reeleição de Hélio Dourado à presidência do Grêmio, além de participar de campanhas para a conclusão das obras no Olímpico. O grupo também atuava em eventos beneficentes de diversas causas e chegou a reunir mais de 150 pessoas, o que para a época era um número alto em uma torcida organizada.

Com o tempo, a Coligay se tornou um amuleto de sorte do Grêmio | Foto: Reprodução
Com o tempo, a Coligay se tornou um amuleto de sorte do Grêmio | Foto: Reprodução

A conquista do Gauchão de 1977 e a fama da Coligay abriram um novo caminho que culminaria na Libertadores e no Mundial em 1983, consagrando o Grêmio campeão da América e do mundo. No entanto, apesar do triunfo do time e do crescimento da torcida, Volmar precisou ir embora de Porto Alegre e voltar para Passo Fundo, sua cidade natal. Assim, a torcida se dispersou, pois bancar o grupo era muito caro e eles não aceitavam ajuda financeira do Grêmio.

A Coligay encerrou suas atividades em 1983, mas até hoje é lembrada por torcedores gremistas, e é celebrada como pioneira para muitas torcidas organizadas e barras-bravas, além de ser símbolo de resistência e coragem para a comunidade LGBTQIAPN+.

Atualmente, o grupo tem um espaço de memória no Museu do Grêmio – Hermínio Bittencourt, localizado na Arena do Grêmio, em Porto Alegre.

Série “Coligay”, do Canal Brasil

No dia 5 de outubro, as gravações da série “Coligay” começaram em Porto Alegre (RS). Ambientada na capital gaúcha, a trama irá retratar a história da primeira torcida organizada LGBTQIAPN+ do Brasil: a Coligay, do Grêmio.

Nesta semana, foi divulgada a primeira imagem oficial da série protagonizada por Irandhir Santos. Na trama, o ator interpreta Ramon, um cabeleireiro que vive no Brasil dos anos 1970 dominado pela ditadura militar, e que “transforma as arquibancadas hostis em palco de resistência, desafiando o preconceito e colorindo o futebol brasileiro”, segundo a sinopse divulgada.

Trama irá retratar a história da primeira torcida organizada LGBTQIAPN+ do Brasil | Foto: Ventre Studio/Casa de Cinema de Porto Alegre/Divulgação
Trama irá retratar a história da primeira torcida organizada LGBTQIAPN+ do Brasil | Foto: Ventre Studio/Casa de Cinema de Porto Alegre/Divulgação

Uma das fontes de pesquisa para a criação da série e do filme foi o livro “Coligay: Tricolor e Todas as cores” (editora Libretos, 2014), do jornalista Léo Gerchmann.

As filmagens foram realizadas em diversos locais de Porto Alegre, entre eles o lendário Estádio Olímpico Monumental. Ao todo, serão quatro episódios. A história também será contada em um longa-metragem. Ambas as produções são dirigidas por Paulo Machline, que foi indicado ao Oscar de melhor curta-metragem em 2001, por “Uma História de Futebol”, e que em 2023 comandou “Meu Sangue Ferve por Você”, cinebiografia de Sidney Magal.

Com roteiro de Patricia Corso, Raul Perez, Fernando Américo e Luiz Filipe Noé, a série também conta com Zé Adão Barbosa, Vini Meneguzzi, Julia Soares, Bruno Fernandes, Edu D’Ávila, Duda Cardoso, Fred Vittola, Edu Mendas e Jana Pellizon no elenco. Ainda não há data de estreia definida.

Confira a sinopse oficial:

“Inspirado em uma história real, COLIGAY retrata a criação da primeira torcida 100% gay do Brasil, formada por torcedores do Grêmio durante os anos 1970, em plena ditadura militar. A trama acompanha Ramon, um cabeleireiro gremista que, ao lado dos amigos, transforma as arquibancadas hostis em palco de resistência, desafiando o preconceito e colorindo o futebol brasileiro”.


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