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Caminhada do Silêncio reúne participantes em ato por vítimas da ditadura em SP

Evento saiu do antigo DOI-Codi e seguiu até o Ibirapuera com críticas à violência de Estado

A 6ª Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado reuniu participantes neste domingo (29), na capital paulista. O ato começou em frente ao antigo DOI-Codi, na Vila Mariana. e seguiu até o Parque Ibirapuera, em homenagem aos mortos e desaparecidos da ditadura militar (1964-1985).

Com o tema “Aprender com o passado para construir o futuro”, a concentração teve início às 16h, na rua Tutóia, onde funcionou um dos principais centros de repressão do regime.

O evento integra o calendário oficial da cidade. No local, foi montado um palco para a abertura, com falas de representantes das entidades organizadoras e apresentação musical de Raíssa Spada.

Por volta das 17h, os participantes iniciaram o cortejo até o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Ibirapuera. Em silêncio, caminharam com flores brancas e velas por cerca de 1 km, sob escolta da Polícia Militar.

Neste ano, mais de 30 organizações da sociedade civil, movimentos sociais e entidades de direitos humanos participaram do ato. A mobilização também abordou a possibilidade defendida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, de afastar a aplicação da Lei da Anistia em casos de crimes permanentes, como ocultação de cadáver.

Assim como no Brasil, manifestações em memória das vítimas de regimes autoritários também ocorreram na Argentina, onde atos como os organizados pelas Madres de Plaza de Mayo reuniu milhares de pessoas em defesa da memória, da verdade e da justiça em relação aos crimes da ditadura militar (1976-1983).

Homenagem aos mortos e desaparecidos pela ditadura – Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos (Foto: Paulo Santiago)

Local simbólico

A ativista de direitos humanos e ex-presa política Amelinha Teles defendeu a transformação de prédios ligados à repressão em espaços de memória.

“Esse local deveria ser um museu dedicado à memória, verdade e justiça. Fui estuprada; meus filhos, de 4 e 5 anos, foram sequestrados; minha irmã, grávida de oito meses, também foi presa e violentada aqui”, relata.

Segundo o historiador César Novelli, do Núcleo Memória, a escolha do ponto de partida reforça o caráter simbólico do ato. No local, há 50 anos, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado.

“Ao completar 60 anos do golpe, em 2024, a organização considerou simbólico iniciar o trajeto a partir do DOI-Codi, um dos locais mais violentos da ditadura. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, mais de 50 pessoas foram assassinadas ali”, afirma.

A coordenadora executiva de memória, verdade e justiça do Instituto Vladimir Herzog, Lorrane Rodrigues, disse que a violência de Estado ainda atinge parte da população.

Apesar de vivermos em um período democrático, ele não é pleno para uma parcela significativa da população brasileira, que ainda sofre com a violência de Estado, sobretudo jovens das periferias. Isso é um resquício da ditadura”, explica.

Filha do operário Santo Dias, morto em 1979 em ação da Polícia Militar, a pedagoga Luciana Dias da Silva destacou o caráter simbólico do ato. Ela lembra também que os tentáculos da ditadura foi nefasto com os negros e indígenas.

“A caminhada é um encontro com a história. É um silêncio contido, dolorido. Lembra a música Cálice, de Chico Buarque e Milton Nascimento”, diz, com os olhos marejados.

Confira na íntegra o manifesto da caminhada:

Aprender com o passado para construir o futuro

“Hoje, caminhamos em silêncio, mas não em ausência. Nosso silêncio é a presença viva, é memória que resiste, é a voz que ecoa nos passos de cada pessoa que se recusa a esquecer. Saímos de um lugar marcado pela dor, o antigo DOI-Codi, onde o Estado torturou, matou e tentou apagar histórias. E seguimos até um monumento que insiste em lembrar: as  histórias não foram apagadas.

Nossos mortos não estão no passado. Nossos desaparecidos não são ausência. Cada vítima de violência do Estado é permanência. Se a Caminhada do Silêncio nasceu da urgência de resistir, seguimos caminhando porque ainda é preciso. Este ato nasceu quando a democracia voltou a ser ameaçada de forma aberta, quando o autoritarismo deixou de ser lembrança e voltou a ser projeto.

Hoje, anos depois, seguimos aqui, porque a ameaça não desapareceu. Ele se transformou, se reorganizou e segue à espreita. Nunca foi tão importante defender a democracia. E nunca podemos esquecer: essa luta é contínua. Relembrar para não repetir. Ocupar a memória para não esquecer nossa história. Porque sem memória, a violência se naturaliza. Sem verdade, a mentira se institucionaliza. E sem justiça, a barbárie se repete.

A violência de Estado não ficou no passado. Lutar por memória, verdade e justiça é afirmar que não aceitamos a impunidade. É exigir a responsabilização de torturadores, de seus cúmplices e daqueles que financiaram o terror. É dizer, com todas as letras: ditadura nunca mais. Tortura nunca mais. Este manifesto não é apenas denúncia. É compromisso.

Ao final, os organizadores leram o manifesto da caminhada. O encerramento teve apresentação de João Suplicy, com repertório que incluiu canções de Chico Buarque e Cat Stevens.



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