Em média, 30% a 40% dos casos de consultas em ambulatórios de reumatologia ocorrem por conta de artrose
A osteoartrose é uma doença degenerativa causada por múltiplas lesões nas articulações. Nela, a cartilagem que reveste as extremidades dos ossos, responsável por permitir movimentos suaves e sem atrito, vai se desgastando. Com o tempo, a superfície se torna áspera e irregular, aumentando a fricção até que os ossos passem a se mover em contato direto. Esse processo pode provocar dor, inflamação, rigidez e até limitar os movimentos.
Embora possa atingir qualquer articulação, a doença é mais comum nas mãos, joelhos, quadris, ombros e coluna vertebral. No Brasil, 30% a 40% das consultas em ambulatórios de reumatologia estão relacionadas à condição, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR). Também conhecida como artrite ou artrose, a doença figura entre as principais causas de afastamento do trabalho, sendo responsável por 7,5% dos casos registrados.
No cenário mundial, o crescimento é alarmante: em 1990, cerca de 256 milhões de pessoas conviviam com a doença. Agora, a projeção é de que, até 2050, quase 1 bilhão de indivíduos sejam afetados, de acordo com um amplo estudo publicado na revista The Lancet Rheumatology.
Uma futura epidemia?
Segundo o ortopedista Guilherme Falótico, especialista em cirurgia de quadril, a osteoartrose costuma surgir por volta dos 50 anos. No entanto, pesquisas indicam que a condição tem atingido cada vez mais pessoas jovens, especialmente mulheres. As causas são variadas.

“Entre os principais fatores de risco estão a predisposição genética, alterações mecânicas na anatomia do quadril e doenças metabólicas que favorecem a inflamação articular”.
Esse também foi o caso de Márcia Barbosa, de 56 anos. Sempre ativa e esportista, ela começou a sentir dores no quadril sem imaginar o que estava por trás. Acreditava ser apenas falta de alongamento ou consequência de exercícios, mas, na realidade, já era a artrose se manifestando.
“Nunca tinha sentido nada no quadril. Em 2022 surgiu um incômodo, que eu achei ser falta de alongamento, já que sempre fui esportista”, lembra Márcia. Para aliviar a dor, chegou a contratar um personal trainer, mas os exercícios não ajudaram. Foi então que decidiu procurar um médico. O diagnóstico veio rápido: o raio-x solicitado pelo ortopedista revelou a ausência de cartilagem, e a tomografia confirmou o avanço da degeneração no quadril.
Como confirma o ortopedista Guilherme, os sintomas podem passar despercebidos. “No início, aparece apenas durante esforços maiores e, com a evolução do quadro, pode estar presente até mesmo em repouso”.
Foi exatamente o que aconteceu com a Márcia. Em pouco tempo, já não conseguia entrar em carros baixos, amarrar os sapatos ou dormir sem dor. “Eu tomava remédio forte de seis em seis horas e mesmo assim mancava muito. Só conseguia dormir de barriga para cima. Comecei a depender dos outros até para colocar uma meia”, relembra.
O impacto não foi apenas físico. O medo de não conseguir a cirurgia pelo SUS a levou de volta à terapia. “Fiquei apavorada ao ver reportagens de pessoas que esperavam até dez anos na fila. Pensei que eu poderia ser uma delas”, diz.
O diagnóstico não é o fim
Em 2007, a revista The Lancet definiu a prótese de quadril como “a cirurgia do século”, graças aos seus resultados consistentes e duradouros. Embora existam tratamentos não cirúrgicos, a colocação da prótese é indicada quando a dor e a limitação de movimentos comprometem de forma significativa a qualidade de vida. Para o ortopedista Guilherme Falótico, a decisão sobre o momento certo deve partir do próprio paciente: “Só ele sabe a intensidade da sua dor”.
Márcia sabia exatamente onde estavam seus limites. As medicações já não davam conta, e a perspectiva de esperar quatro ou cinco anos na fila do SUS lhe causava medo. “Se eu tivesse que esperar todo esse tempo, acho que acabaria numa cadeira de rodas. No final, já estava muito difícil até sair de casa”, comenta.
Foi então que surgiu a ideia da vaquinha online. Com a ajuda de amigos e familiares, pesquisou médicos e hospitais. Em abril de 2024, colocou a prótese no quadril. Sua vida mudou completamente.
Na primeira semana, já voltou a caminhar com auxílio de um andador. Quarenta dias depois, não havia mais dor. Retomou os treinos e os exercícios que tanto gosta. Foi como ganhar vida novamente.
“Depois da cirurgia, foi uma outra realidade. Eu recuperei a vida que estava perdendo por não conseguir mais me movimentar”, resume.
De surpresa

A dor no quadril nem sempre é fácil de reconhecer. Muitas pessoas confundem os sinais iniciais com dor lombar ou muscular, o que pode atrasar o diagnóstico da osteoartrose. Como explica o ortopedista Guilherme Falótico, a dor típica da doença aparece na região inguinal (virilha) e se manifesta durante movimentos de rotação do quadril ou esforços maiores. “No início, o paciente pode sentir desconforto apenas durante a atividade física, mas com a evolução do quadro a dor pode aparecer até em repouso”, esclarece.
A distinção é importante: a dor muscular geralmente surge como fisgada ou após esforço, e a lombar acomete a região posterior, piorando ao dobrar o tronco para frente. Já a dor articular da osteoartrose é profunda e localizada na virilha.
Os fatores de risco incluem predisposição genética, alterações mecânicas na anatomia do quadril e condições metabólicas que favorecem inflamação articular. A doença é mais comum em pessoas acima dos 50 anos e atinge mais mulheres, mas casos em idades mais jovens vêm crescendo.
Para Márcia, os sinais passaram despercebidos no início. “Achei que era falta de alongamento, porque sempre fui esportista. Só procurei o médico quando a dor começou a atrapalhar minha rotina”, lembra. A experiência dela reforça a importância de procurar ajuda cedo: a detecção precoce aumenta as chances de tratamentos não cirúrgicos funcionarem e, se a cirurgia for necessária, permite que ela seja feita no momento certo.
O impacto da osteoartrose vai além da dor: limitações de movimentos simples, como cortar as unhas, calçar sapatos ou vestir meias, são comuns, e o impacto emocional pode aumentar a percepção de dor e frustração. Por isso, exercícios de baixo impacto, fortalecimento muscular, alimentação saudável e manutenção do peso são aliados importantes no controle da doença.
E quando os tratamentos conservadores deixam de bastar, a cirurgia de prótese de quadril surge como uma solução confiável. A experiência de Márcia mostra que o diagnóstico não é o fim. Ela prova que a qualidade de vida pode ser recuperada após a cirurgia. Sua rotina voltou completamente ao normal.
“Eu voltei a treinar sem dor, a ganhar massa muscular […] O quadril, a cirurgia, devolve a vida. Eu sou outra pessoa. Ficou excelente, excelente a cirurgia. Nem parece que tenho um corpo estranho dentro de mim. Graças a Deus, tenho uma qualidade de vida maravilhosa”.












