Série reacende debate sobre limites da ficção e levanta questionamentos sobre separar obra e autor
A estreia de Dias Perfeitos no Globoplay, adaptação do best-seller de Raphael Montes, trouxe de volta não apenas a trama perturbadora criada pelo escritor carioca, mas também um debate acalorado nas redes sociais. Após a exibição dos primeiros episódios, que foram ao ar entre 14 e 28 de agosto, parte do público passou a criticar duramente o autor, chegando a associá-lo aos comportamentos psicopatas de seu protagonista. O episódio levantou novamente a discussão: até onde a ficção pode ser confundida com a vida real?
Publicado em 2014, Dias Perfeitos tornou-se um dos romances mais marcantes de Raphael Montes, traduzido para mais de uma dezena de países. A trama acompanha Téo, um estudante de medicina solitário e aparentemente comum, que se revela um psicopata obcecado por Clarice, uma aspirante a roteirista. O relacionamento entre os dois se transforma em um sequestro violento, com abuso psicológico, manipulação e um desfecho moralmente controverso.
O final do livro considerado macabro por muitos leitores, mostra Clarice paraplégica e sem memória, passando a acreditar que Téo é seu noivo e até engravidando dele. Já a série, roteirizada por Claudia Jouvin, optou por alterações significativas, inclusive no desfecho, para suavizar o impacto e oferecer uma nova interpretação da narrativa.
Se, por um lado, a adaptação ampliou o alcance da história, por outro, reacendeu críticas ao autor. Nas redes sociais, não faltaram comentários responsabilizando Montes pela violência retratada em sua ficção. Uma internauta chegou a afirmar: “Uma pessoa que escreve um fim desses para uma mulher é um nojento.”
Esse tipo de reação gerou a impressão de um “cancelamento” do escritor, com críticas que não se restringiram à obra, mas passaram a questionar seu caráter pessoal. Ao mesmo tempo, surgiram vozes defendendo a liberdade criativa: “Imagine um autor de terror não poder escrever coisas aterrorizantes… isso é limitar a arte.”
Ciente da repercussão, Raphael Montes ironizou as acusações. Em vídeo publicado nas redes, afirmou: “Eu sei o que andam dizendo por aí sobre mim… Eu não sou uma pessoa horrorosa.” Em tom de deboche, completou: “Não vou mais escrever histórias de suspense, de crimes… agora só vou escrever histórias edificantes.”
A reação do autor reforça o caráter ficcional de suas obras e provoca reflexão sobre como a sociedade lida com narrativas perturbadoras.
O caso expõe um dilema recorrente: a dificuldade que parte do público tem em distinguir autor e personagem. Atribuir ao escritor a moralidade de seus protagonistas é um equívoco que pode restringir a produção artística, sobretudo em gêneros como o suspense e o terror psicológico, que justamente exploram os aspectos mais sombrios da condição humana.
É curioso notar que, quando se trata de cineastas ou escritores estrangeiros, como Stephen King, a abordagem de temas como assassinato, estupro ou obsessão é muitas vezes vista como genialidade criativa. Já no Brasil, Raphael Montes se tornou alvo de ataques pessoais por utilizar recursos semelhantes.
No fundo, a controvérsia em torno de Dias Perfeitos revela algo maior do que a rejeição a um final trágico: mostra a tensão entre sensibilidade do público e liberdade criativa. Ao transformar o horror em ficção, Montes levanta questões que incomodam e talvez esse seja justamente o papel da arte.
Imagens: Reprodução | Instagram @RaphaelMontes













