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População em situação de rua sofre em mais de 50 dias de inverno no Brasil

população em situação de rua

Divulgação: Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo

Com algumas cidades registrando temperaturas abaixo dos 6ºC, ONGs e entidades reforçam a necessidade de acolhimento da população em situação de rua.

As baixas temperaturas têm atingido diversas regiões do Brasil nas últimas semanas. Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), o inverno de 2025 já é considerado o mais frio dos últimos 30 anos. A preocupação com o clima e as condições de saúde e de vida da população são tópicos em discussões recorrentes. E este assunto traz luz sobre uma problemática social: a vulnerabilidade da população em situação de rua. Não é raro encontrar pessoas dormindo em praças, pontos de ônibus, embaixo de marquises e pontes, cobertas dos pés à cabeça, expostas ao frio, às violências e largadas à própria sorte.

Com a falta de abrigo para essas pessoas, já que em muitas instituições há superlotação, é frequente a exposição delas ao frio, o que pode provocar hipotermia e doenças respiratórias. Isto torna esta questão um caso de saúde pública também. Grupos como ORES (Organização de Reintegração e Estímulo à Socialização) da Iha do Governador RJ e GT Rua (Grupo de Trabalho em Prol da Pessoas em Situação de Rua) fazem a diferença ao defender o direito de acesso à saúde, educação, alimentação e segurança para pessoas em situação de rua.

Em um vídeo feito pela ONG “É Por Amor” e publicado na página da organização no Instagram, é possível ver que agentes do Choque de Ordem da Prefeitura do Rio de Janeiro retiram papelões de homens que dormiam sobre eles em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro. A ação da prefeitura busca promover a ordem pública, mas em contrapartida deixa a população em situação de rua desamparada.

De acordo com o parágrafo 4, art.8º, do Decreto nº 7.053 de 23 de dezembro de 2009, “a rede de acolhimento temporário existente deve ser reestruturada e ampliada para incentivar sua utilização pelas pessoas em situação de rua, inclusive pela sua articulação com programas de moradia popular promovidos pelos Governos Federal, estaduais e municipais e do Distrito Federal”. Apesar da Política Nacional para a população de rua assegurar proteção, é perceptível, na prática, o descaso com esse grupo social. Homens, mulheres, crianças e idosos utilizam sacos de plásticos, pedaços de cortinas, lonas e papelões para se protegerem do frio.

Segundo o Climatempo, o Rio de Janeiro está vivendo um dos invernos mais frios dos últimos 18 anos. Em pouco mais de 50 dias da estação, em 24 deles a temperatura chegou a no máximo 25ºC. Esse cenário contrasta com o do ano passado, quando no mesmo período (entre 20 de junho e 12 de agosto), as temperaturas ficaram acima dos 30ºC.

Em outras cidades como São Paulo, Goiânia, Brasília, os termômetros têm registrado temperaturas abaixo dos 10ºC e no Sul do país, abaixo do 0º, mesmo não havendo influência dos fenômenos El Niño ou La Niña.

Conforme levantamento do OBPopRua/UFMG (Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais), até março deste ano, 335.151 pessoas que vivem em situação de rua em todo Brasil estão cadastradas no CADúnico para programas sociais do governo federal. Este número é superior ao registrado em dezembro de 2023, que alcançava a marca de 22,9 mil pessoas vivendo em situação de rua no país. Em março de 2025 são:

  • 9.993 crianças e adolescentes em situação de rua (3%);
  • 294.467 pessoas em situação de rua entre 18 a 59 anos (88%);
  • 30.751 idosos em situação de rua (9%).
População em situação de rua

Divulgação: Pedro Vinícius

Robson do Espírito Santo faz parte desta estatística. Ele está em situação de rua há anos e relata a dificuldade para ser aceito em algum abrigo da prefeitura do Rio de Janeiro. “Eu já passei pelo abrigo quando eu era mais novo e agora eu sou idoso e estou com dificuldade de arranjar vaga. Cadê a minha vaga ? Eles (os assistentes sociais) já tiraram fotos minhas, já me entrevistaram no Largo da Carioca. Eu estou há dois meses esperando a vaga e a vaga não vem. Então isso me entristece”, diz ele.

Robson denuncia o etarismo e desabafa sobre o desconforto de viver nas ruas. “Eu fico triste, porquê há uma discriminação[…] há uma burocracia muito grande, porque a oferta das vagas para idosos nos abrigos deveria ser ampliada. Os mais novos não querem sair da rua. Por que há tantas vagas para pessoas mais novas e poucas vagas para pessoas idosas nos abrigos ? Tá muito frio na rua. Às vezes, eu não quero nem beber, mas sou obrigado a beber para esquentar o organismo. Eu me alimento pouco, pois a bebida tira a minha apetite. E às vezes, até me sinto mal e não consigo dormir. Eu tenho 62 anos de idade e estou há 50 anos na rua”.

O Sudeste do Brasil concentra o maior número de pessoas em situação de rua (63%), seguido do Nordeste (14%), Sul (13%), Centro-Oeste (6%) e Norte (4%). De acordo com a análise do OBPopRua/UFMG, quatro em cada dez pessoas que vivem na rua no Brasil se encontram no estado de São Paulo (42,82% do total). O segundo estado é o Rio de Janeiro.

Fundada em 28 de outubro de 2020, a ONG “É Por Amor” realiza um trabalho de acolhimento com pessoas em situação de rua e famílias em extrema vulnerabilidade social e financeira da favela de Manguinhos, Zona Norte do Rio de Janeiro. Para ajudar, acesse o site da associação: https://www.eporamor.org.br/institucional/quem-somos.html

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