“Ele tem que ter medo de ser preso e de ser colocado como um espancador de mulher”, afirma Dr Zema, jurista e criminalista responsável pela Teoria.
O Brasil amanheceu mais uma vez em choque. No dia 27 de julho, as imagens de um elevador na Zona Sul de Natal revelaram um crime tão brutal quanto comum: em menos de 60 segundos, a administradora Juliana Garcia, de 35 anos, foi espancada com 61 socos pelo ex-companheiro, o personal trainer Igor Cabral. O vídeo, que rapidamente circulou nas redes, mostra uma violência mecânica, fria mas nada impulsiva. Foi um ataque com método, intenção e assinatura.
Diante da barbárie, a pergunta que permanece é: o que leva um homem a esse ponto? A resposta talvez não esteja apenas no Código Penal. Para o advogado criminalista e pesquisador Dr. Zema, o comportamento violento precisa ser lido sob uma ótica mais complexa. Ele propõe a chamada Teoria Tríplice da Delinquência, que observa o crime como resultado da falência simultânea de três freios comportamentais: a moral, a vergonha e o medo. Quando esses pilares colapsam, a violência deixa de ser uma exceção e se torna quase inevitável.
No caso de Juliana, os três eixos pareciam completamente destruídos. Igor não agiu escondido, não tentou apagar rastros, não se mostrou arrependido ao se apresentar à polícia dois dias depois. Segundo especialistas, esse tipo de agressor carrega uma convicção interna de que não errou e é aí que a moral se revela disforme.
Homens como ele, aponta Dr. Zema, muitas vezes enxergam as mulheres como propriedade: “Existe muitos homens como o Igor que tem uma masculinidade doente e distorcida que acredita que mulheres devem ser punidas em certos casos. esse tipo de homem acha que elas são suas propriedades e não podem se separar deles e não sentem remorso por seus atos, eles tem uma moral disforme”. Um dado que chama atenção na análise do especialista é o esvaziamento do medo como elemento de dissuasão. “Um homem normal antes de cometer um crime pensa na pena e na lei, esses homens (da moral distorcida) não tem medo, eles não fazem esses crimes na calada da noite, fazem na frente da família, a luz do dia e deixam uma assinatura que foram eles […] eles tem uma resistência muito grande ao medo da pena e da lei, eles não temem a lei. Eu nunca vi um agressor de uma mulher entrar na delegacia arrependido do que aconteceu, eles entram com cara de mau, com cara de que “eu fiz mesmo”, isso é fruto desse processo”, complementa o jurista.

Se o medo da consequência já não funciona, o que resta? O problema se agrava quando o próprio Estado falha em ser símbolo de justiça. A confiança na punição efetiva se esvazia diante da morosidade, da revitimização e da ausência de acolhimento. A violência, nesse cenário, ganha mais espaço não apenas pela ausência de repressão, mas pelo colapso dos limites simbólicos.
Se o medo não vem da lei, deveria vir da vergonha. Mas ela também parece em extinção. A cultura digital, marcada por hiperviolência, memes misóginos e impunidade nas caixas de comentários, ajuda a dessensibilizar — ou até romantizar — condutas violentas. E o silêncio masculino diante da violência também se tornou cúmplice.
O agressor não age sozinho. Ele é moldado por olhares desviados, piadas reforçadas, amizades que se calam.
Para Dr. Zema, o antídoto passa por um deslocamento de discurso: homens devem ser educados não apenas para não bater, mas para condenar e confrontar outros homens que batem. A responsabilidade não é só individual, mas cultural e precisa ser ensinada nas escolas, nos lares e nas rodas de conversa.
O papel do Estado
Na raiz da violência, está uma ausência profunda: de educação emocional, de políticas públicas contínuas e de um Estado que funcione como limite simbólico real. A naturalização da brutalidade é sintoma de um pacto social falido.
Se a Teoria Tríplice da Delinquência parte da ideia de que a moral, a vergonha e o medo operam como travas, talvez estejamos diante de uma geração de homens sem freios e de um sistema que não sabe onde apertar os cintos.
Não há resposta. Mas há sinais. E enquanto o Brasil seguir contando mulheres espancadas em vídeos virais, talvez o país precise admitir: o problema não está apenas nos criminosos. Está em tudo que os forma e tudo que falha em detê-los.












