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Cidades Partidas, Estados Falidos: A distopia das periferias abandonadas

Periferias do Brasil, África, Ásia e Europa revelam um modelo urbano que exclui milhões e expõe o colapso do pacto social.

Um cenário alarmante se desenha nos grandes centros urbanos brasileiros: cidades divididas, estados incapazes de provar serviços básicos, e milhões de pessoas abandonadas à própria sorte nas periferias. A distopia que antes parecia ficção tornou-se realidade para quem vive fora do “centro expandido”.

Nas margens das metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife, cresce um Brasil invisível onde o estado não chega com segurança, saúde, educação ou transporte. O resultado é um cotidiano marcado por violência, falta de oportunidades e o domínio do crime organizado, que preenche o vácuo deixado pelo poder público.

“Vivemos em cidades partidas. De um lado, condomínios fechados, shoppings, tecnologia e conforto. Do outro, a lama, a ausência e o medo”, afirma o sociólogo Carlos Almeida, da Universidade Federal da Bahia “O estado não faliu apenas financeiramente, faliu eticamente, ao abandonar milhões de brasileiros”.

Um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) aponta que 78% da população de áreas periféricas não têm acesso contínuo a serviços essenciais. Em bairros como Jardim Ângela (SP), Complexo do Alemão (RJ) e Nordeste de Amaralina (Salvador – Bahia), moradores relatam que as ambulâncias evitam entrar à noite, e escolas funcionam com estrutura mínima.

A juventude, especialmente, paga o preço da omissão. Sem perspectivas, muitas vezes são aliciados por facções criminosas, que oferecem status, renda e um senso distorcido de pertencimento. A taxa de homicídios entre jovens de 15 e 29 anos nas periferias é quase quatro vezes maior que nos bairros centrais, segundo dados do Atlas da Violência 2024.

Enquanto isso, políticas públicas continuam concentradas em áreas economicamente mais produtivas, aprofundando a segregação. Especialistas alertam que, sem uma mudança estrutural urgente, o país pode caminhar para um colapso social.

“Não se trata mais de crise. É colapso”, resume a urbanista Letícia Monteiro. “E ele é seletivo, sempre atinge primeiro quem já viveu toda a vida na margem.”

A distopia das periferias abandonadas já é uma realidade. A pergunta que permanece é: o que ainda pode ser feito antes que o Estado perca definitivamente o pouco de controle que lhe resta?

Da América Latina às margens da Europa, das favelas africanas aos bairros esquecidos da Ásia: o abandono estrutural das periferias se torna uma crise global:

A imagem da periferia abandonada já não pertence mais ao sul global. Ela se espalha pelas franjas das grandes cidades em todos os continentes, revelando uma distopia global em escala planetária. De Lagos a Paris, de Mumbai ao Cairo, o que une milhões de pessoas é a vida em territórios onde o estado perdeu ou nunca teve o controle.

Europa: a periferia esquecida à sombra das capitais milionárias:

Apesar da imagem de progresso e bem-estar que a Europa projeta, suas margens estão longe desse ideal. Na França, os chamados banlieues – bairros periféricos localizados nos arredores de Paris, Marselha e Lyon, tornaram-se símbolos de desigualdade social, tensão racial e exclusão institucionalizada. A revolta de 2023 nos subúrbios parisienses, iniciada após mais um caso de violência policial contra um jovem negro, escancarou a falência do modelo de integração francês.

“O estado está presente, mas é repressivo. É polícia, não política pública”, resume Samira Bouzid, ativista e moradora de Seine-Saint-Denis. “O que falta aqui é dignidade.”

Em cidades como Madri, Roma e Atenas, populações imigrantes e descendentes de ex-colônias vivem em periferias marcadas por desemprego, habitação precária e xenofobia velada. Programas sociais cortados por políticas de austeridade desde a crise econômica de 2008 agravaram esse cenário. A juventude periférica europeia, muitas vezes sem acesso ao ensino superior ou a empregos formais, encontra refúgio na economia informal ou em movimentos de resistência social.

África: uma urbanização sem estado:

No continente africano, o crescimento populacional e urbano é um dos mais movimentados do planeta e também um dos mais desiguais. Cidades como Lagos (Nigéria), Nairóbi (Quênia) e Joanesburgo (África do Sul) crescem em um ritmo frenético, sem que a infraestrutura pública acompanhe.

As slums ou informal settlements, como Kibera (Nairóbi) ou Makoko (Lagos), abrigam milhares em situações precárias e mínimas, sem acesso regular à água potável, eletricidade ou coleta de lixo. Nessas áreas, a presença do estado é simbólica, substituída por ONG ‘s, redes religiosas e, em casos extremos, por grupos armados e milícias.

“A cidade moderna africana é, na prática, uma superposição de mundos: o centro corporativo-global e as periferias caóticas e autogeridas”, afirma o arquiteto ganês David Adjaye “É uma urbanização sem urbanismo, uma distopia naturalizada”.

Ásia: a desigualdade vertical das cidades:

Na Ásia, o contraste entre o hiperdesenvolvimento tecnológico e o abandono das periferias é ainda mais gritante. Megacidades como Mumbai (Índia), Manila (Filipinas), Jacarta (Indonésia) e Daca (Bangladesh) reúnem populações gigantescas em áreas que lembram verdadeiros campos de refugiados.

Na Índia, por exemplo, mais de 60 milhões de pessoas vivem em slums. Dharavi, o maior deles, abriga quase um milhão de habitantes em pouco mais de 2km’s². Ali, o estado é ausente, mas a economia pulsa, com oficinas, fábricas e comércios ilegais que movimentam bilhões de rúpias por ano.

Na China, embora tenha investido pesadamente em infraestrutura, as chamadas “cidades-fantasmas” convivem com cinturões de pobreza nas metrópoles como Guangzhou e Chongqing. Migrantes internos, os mingong, enfrentam dificuldades para acessar moradias, saúde e educação, presos em um sistema que os mantém como cidadãos de segunda classe.

O colapso é global, mas tem cor e CEP:

Apesar das diferenças culturais, políticas e econômicas, a lógica da exclusão periférica se repete: ausência de serviços básicos, militarização do espaço urbano, juventude sem perspectivas, criminalização da pobreza e o avanço de grupos alternativos no poder, sejam milícias, gangues, religiões ou crime organizado.

Essa crise global das periferias revela que o modelo de cidade neoliberal, centrado na valorização do capital imobiliário e na expulsão dos indesejáveis para as franjas urbanas, fracassou em incluir. E, onde o estado não chega com políticas públicas, chega com repressão, ou não chegam de forma nenhuma.

A pergunta que se impõe não é mais se estamos diante de uma distopia urbana, mas como ela se reproduziu globalmente e por que continuamos aceitando como inevitável.

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