Entre brigas em campo, ex rancorosos e protestos, o torcedor segue sendo o único que ainda ama de verdade
Caros leitores, gostaria de me apropriar de uma frase já muito popular: “Eu avisei!” Avisei que a raiva voltaria assim que os campeonatos continentais e o nacional recomeçassem. Não foi um pressentimento, era, de fato, uma certeza. O futebol brasileiro proporciona sentimentos distintos aos seus torcedores e, em contrapartida, esses torcedores despejam todos esses sentimentos em jogadores, diretores, técnicos e dirigentes. E, por incrível que pareça, nesta rodada, quem menos levou xingamento foi o árbitro.
A ironia aumenta quando percebemos que, no sábado passado (19/07), foi o Dia Nacional do Futebol, e, no domingo (20/07), o Dia do Amigo — duas datas que não conversam em nada com a rodada vivenciada e muito menos com as eliminações brasileiras na sul-americana, ocorridas ontem. Coincidência ou provocação do destino, o protagonismo ficou justamente com os desafetos, os ex, as visitas nos CTs, as entrevistas atravessadas.
No Barradão, o Vitória venceu o Bragantino por 1 a 0, mas quem roubou a cena não foi o autor do gol, e sim a treta entre os próprios companheiros de time. Amizade? Só se for na China — aqui, os caras não conseguem conviver em harmonia. Carille, com toda a sua pompa, ainda tentou amenizar dizendo: “Se todas às vezes que eles brigarem a gente ganhar o jogo, que eles briguem todo jogo. Sai na porrada dentro de campo e depois a gente resolve”. Mas, no fundo, a gente sabe em que pé isso acaba chegando.
No Morumbi, teve reencontro entre Corinthians e Luciano. Ídolo do São Paulo, com história mal resolvida no rival, ele marcou contra o ex-time com tanta raiva que deixou logo dois gols. Comemorou estendendo e balançando a bandeirinha com o escudo do São Paulo, deixando bem claro de que lado ele está na história.
E por falar em treta…
Essa começou no CT de treinamento, foi parar em entrevista coletiva, nas redes sociais e, no fim, foi vingada em campo. Eu avisei que, no Brasil, raiva é combustível. Eu avisei! Pedro voltou a marcar após semanas de críticas e olhares tortos dentro do Flamengo. Nada bobo, guardou seu gol em um clássico e deixou todo mundo de calças curtas, pensando se é o caso de criticar o comportamento extracampo ou elogiar o potencial em campo. Ainda mais em um país que sente tanta falta de jogadores indomáveis como um dia foi Romário.
Na outra ponta do RJ, Pedrinho — ídolo em campo e atual presidente do Vasco — só não foi chamado de santo pela torcida, que há anos deposita esperança em soluções variadas para findar essa crise que dura tanto tempo. Mas, no fim, tudo acaba levando para o mesmo caminho: a desgraça.
E o que não falta nesta semana é torcedor puto. Torcedores do Corinthians têm protesto marcado para amanhã (24), no fim do dia. A torcida do Galo protestou ontem (22). No Recife, teve até torcedor batendo em jogador: Pablo levou um tapa e um puxão, o autor das agressões ainda disse, em alto e bom som: “Todo mundo aqui tem antecedente criminal.” Oi? Colega… isso é orgulho pra ti?
É tanta raiva que falta memória para lembrar tudo o que aconteceu nos últimos dez dias — e olha que estou me esforçando. O que me questiono é: o que tiramos de proveito disso tudo? O torcedor está aí, apaixonado, declarado, entregue, inteiro ao dispor de seu clube do coração, lutando com tudo que tem e sabe para alcançar a glória que almeja. Mas os clubes, o que fazem por seus torcedores?
Resultado em campo não dá para todo mundo ter — afinal, não teríamos campeões nunca. Contudo, sinto que não é esse o caminho que o apaixonado procura. Assim como as relações pessoais precisam de parceria e compreensão, pode ser que isso também seja o que o torcedor exige — de forma errada? Talvez… — por querer ter seu sentimento validado, por querer ver seu amor refletido no peito de quem gere essa razão.
Leandro Alvares, redator da Oh Us Cara, escreveu esses dias, justamente sobre o sentimento do torcedor, e aqui reaproveito: “Enquanto alguns dizem que não vale a pena viver assim, a gente segue acreditando que, não importa a fase, sempre vale a pena estar ao lado do nosso amor maior.”
Fica o debate: até que ponto tanta raiva vai ser mal canalizada pelos grandes cartolas do futebol? Como um esporte que gera tanta renda não é analisado do ponto de vista comercial, priorizando seus consumidores finais, leia-se: torcedores. A pausa para o Mundial deu fôlego pra gente gostar mais do que fazemos aqui, mas a impressão que fica é que a retomada tomou o fôlego, bateu na nossa cara e saiu rindo, debochando da nossa desilusão.
créditos imagem: @amoracamisape| Bela Azoubel












