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Mercado de trabalho é hostil para mães

Mulheres que trabalham em empresas formais relatam julgamento no emprego e sentimento de culpa por serem mães

Culpa. Este é o sentimento que Rejane e Karine Valgas possuem em comum. A outra semelhança entre as irmãs é que as duas são mães que trabalham formalmente. Além disso, segundo o blog Vagas for business, no mercado de trabalho, possuem menores probabilidades de serem contratadas, negociações mais baixas e são julgadas como menos comprometidas que homens e mulheres sem filhos.
A rotina de Karine Valgas, mãe de Mariana, de 9 anos, inclui acordar às cinco horas da manhã e ir dormir às dez da noite, se revezando entre cumprir sua jornada de trabalho diariamente, fazer almoço e jantar e cuidar da filha e da cachorrinha Sol. As atividades da família parecem uma dança sincronizada: Karine, o marido Sérgio e Mariana já sabem exatamente o que fazer quando chegam em casa no horário de almoço, por exemplo – esquentar a refeição, lavar a louça, pegar a mochila da segunda escola do dia, garantir o almoço de Sol, arrumar os lanches da tarde e sair rápido para a mãe não se atrasar. De acordo com Karine, trabalhar formalmente e ser mãe “é um desafio constante, pois temos que conciliar as atividades e horários, distribuir o tempo buscando um equilíbrio”.
Para Rejane, que trabalha em home-office, a realidade é um pouco diferente. Além de possuir ajuda de uma funcionária em casa, as filhas Júlia e Bárbara possuem 19 e 14 anos, respectivamente. A mãe, que por muito tempo foi funcionária pública e sempre se revezou entre promoções de reuniões, viagens a trabalho, rotina agitada e os cuidados com as crianças, hoje intercala seu horário de trabalho com as demandas de Bárbara, visto que Júlia decidiu morar fora. Segundo ela, a decisão de continuar a trabalhar após o nascimento das filhas foi: “quando chegou o momento de voltar ao trabalho, pensei em desistir, mas ouvir o conselho de outras pessoas, achei melhor pelo menos tentar, e foi a melhor coisa que fiz, pois vi que era possível conciliar [maternidade e emprego formal]”.
Rejane afirma sempre se sentir culpada por pensar que poderia ter feito mais pelas filhas, mas pondera: “acho também que se tivesse que abrir mão dos meus objetivos por elas não seria bom”. Enquanto isso, segundo Karine, “os maiores desafios [da maternidade] são conciliar os horários e atividades, driblar o cansaço e ter tempo de qualidade”.
O trabalho é importante
Criadas pela mãe costureira e professora e pelo pai dentista, as irmãs sempre foram incentivadas a trabalhar e conquistar sua independência financeira e até hoje valorizam essa característica. Karine conta: “comecei a trabalhar com 17 anos por meio de um concurso. Passei por várias áreas em uma empresa onde poderia ir construindo uma carreira. Conquistei minha autonomia financeira. Tive minha filha com 40 anos. Não cogitava sair do trabalho já que tinha minha independência e não gostaria de abrir a mão do que já tinha conquistado”. Rejane também valorizou a construção de sua carreira: aos 53 anos, acaba de terminar o mestrado enquanto conciliou o trabalho, maternidade e os estudos.
Conseguir um emprego é um desafio
Ainda que as irmãs tenham trabalhos lucrativos, muitas mulheres enfrentam desafios para conseguir ingressar no mercado de trabalho com crianças em casa. A discriminação com as mulheres que são ou pretendem ser mães começa nas entrevistas de emprego: as empresas se preocupam desde com os atestados médicos dos filhos à licença maternidade. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em março de 2021 apenas 54,6% das mães de 25 a 49 anos que possuem filhos de até três anos são empregadas. As estatísticas são ainda piores para as mães negras.
Como alternativa para facilitar o acesso e a permanência das mães no mundo laboral, as duas concordam: “no núcleo familiar, acho fundamental o apoio do parceiro colaborando com todos os afazeres, tanto com os filhos como com os afazeres domésticos”, diz Rejane. Karine, por sua vez, defende a flexibilização do horário de trabalho, a possibilidade de home-office, a nova proposta de 4 dias úteis por semana e a igualdade de oportunidades na carreira em relação aos homens, assim como equidade salarial.
Embora o Brasil ainda tenha um longo caminho no que diz respeito à segurança dos empregos formais para mulheres, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) garante licença maternidade de 120 dias sem prejuízo ao trabalho; 20 dias de licença maternidade para as mulheres que adotam filhos; dois descansos diários de 30 minutos para amamentação até os seis meses de vida da criança; garantia do direito à não demissão por justa causa desde a confirmação da gravidez até os cinco meses da criança; direito de dispensa para consultas e exames médicos; e direito à mudança de setor durante o período da gravidez com a carga antiga assegurada.

Imagem: Divulgação/Revista Crescer

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