Home / Geek e Games / O que são fanfics? Uma introdução ao universo onde fãs reescrevem as histórias que amam

O que são fanfics? Uma introdução ao universo onde fãs reescrevem as histórias que amam

Entenda o universo onde fãs escrevem, recriam e reimaginam histórias já conhecidas

Imagine se Jack Dawson tivesse sobrevivido no final de Titanic. Se Bella Swan escolhesse Jacob. Se os Vingadores virassem alunos adolescentes em Hogwarts. Ou se um romance improvável surgisse entre dois personagens que mal se olham nos filmes, mas que os fãs juram que têm química. Tudo isso existe, e é escrito por pessoas comuns e apaixonadas por histórias. Estamos falando de fanfiction, ou simplesmente: fanfic.

As fanfics são histórias criadas por fãs, utilizando universos e personagens já existentes, sejam eles de livros, filmes, séries, novelas, animes, jogos ou até celebridades. O objetivo pode variar entre expandir o universo, consertar um final mal desenvolvido ou realizar um ship nunca canonizado.

Muito além de um passatempo online, o universo das fanfics é um espaço criativo muito rico, com milhões de autores e leitores no mundo todo. E apesar do crescimento e impacto dessa produção, ainda há muita desinformação e preconceito em torno desse tipo de escrita.

Fanfic é literatura?

Logo do site “Spirit Fanfics” | Imagem: Reprodução

Essa é uma pergunta super válida e talvez uma das mais polêmicas.

A resposta mais honesta é: sim, mas não no sentido tradicional. As fanfics geralmente não passam por editoras, nem seguem regras formais do mercado editorial. São feitas por fãs, muitas vezes amadores, que escrevem por paixão, sem pretensões comerciais. Mas isso não as torna menos relevantes.

Fanfic é literatura no sentido de ser uma narrativa escrita, compartilhada e lida com personagens, enredos, estilos e reflexões. Em muitos casos, a liberdade que existe nesse universo permite que temas difíceis, representações queer e experimentações narrativas floresçam com mais autenticidade do que na literatura publicada.

Como toda forma literária, fanfics têm níveis variados de qualidade. Há histórias mais simples ou mal trabalhadas, e outras que poderiam muito bem estar nas livrarias do mundo todo. O que muda é o formato, mas não o valor criativo.

Fanfics como porta de entrada para escritores e leitores

Logo do site “Wattpad” | Imagem: Reprodução

Para muita gente, escrever fanfics é o primeiro passo no mundo da escrita criativa. A familiaridade com os personagens e universos já conhecidos facilita o processo, porque não é preciso criar tudo do zero, e isso dá mais liberdade para experimentar narrativas, estilos e temas.

Fanfics também são um espaço seguro para explorar identidade, sexualidade, sentimentos e dúvidas. É por isso que tantas pessoas LGBTQIA+ escrevem e leem fanfics: porque ali encontram o que nem sempre está presente na mídia tradicional.

Além disso, o universo das fanfics é profundamente colaborativo. Plataformas como Wattpad, AO3 (Archive of Our Own), Spirit Fanfics e Tumblr possibilitam a troca direta entre autores e leitores, com comentários, recomendações e comunidades inteiras dedicadas a debater o material canon. Para muitos jovens, fanfics são o primeiro contato com a leitura por prazer também, e isso não deve ser subestimado.

Fanfics famosas

Crowley e Aziraphale da série “Good Omens” | Imagem: Reprodução

Você pode até não saber, mas algumas obras que estouraram mundialmente nasceram como fanfic. O exemplo mais conhecido é Cinquenta Tons de Cinza, originalmente uma fanfic de Crepúsculo. A autora mudou nomes e contextos, e a história virou um fenômeno editorial, ainda que polêmico.

After, série de livros e filmes, começou como fanfic de uma banda (One Direction). Outras fanfics ganharam prêmios, editoras e adaptações, e isso abriu as portas para que o mainstream enxergasse esse universo com outros olhos.

Mas há também os exemplos menos convencionais, que brincam com o conceito de fanfic de forma mais livre. A própria série Good Omens (da Amazon Prime), com seu romance subtextual entre o anjo Aziraphale e o demônio Crowley, é muitas vezes chamada de “fanfic da Bíblia” por ser uma reinterpretação queer e romântica dos seres celestiais.

Até obras canônicas, como Orgulho e Preconceito e Zumbis ou Sherlock (BBC), podem ser vistas como fanfics que reinterpretam clássicos sob uma nova perspectiva.

Por que ainda existe preconceito com fanfics?

Logo do site “Archive of Our Own” | Imagem: Reprodução

Apesar da força cultural que têm, fanfics ainda enfrentam preconceito, muitas vezes por não fazerem parte do mercado editorial tradicional, ou por serem associadas ao público jovem e feminino.

Há quem veja as fanfics como “menos sérias”, “sem valor literário” ou “coisa de adolescente”. Essa visão ignora o potencial criativo, a complexidade e a habilidade de escrita de muitos autores, e também revela o machismo e elitismo que ainda rondam a literatura.

Além disso, existe um estigma antigo de que fanfics são apenas histórias sexuais escritas por adolescentes, especialmente meninas. É verdade que o conteúdo adulto está presente nas plataformas de fanfic, mas ele é apenas uma parte de um universo muito mais amplo, que inclui romances lentos (slow burn), dramas familiares, fantasia, ficção científica e muitos outros. Reduzir o mundo das fanfics ao erotismo é ignorar sua diversidade e profundidade e, mais uma vez, desvalorizar produções criadas majoritariamente por mulheres e pessoas queer.

Além disso, a liberdade temática das fanfics incomoda. Já que os romances não convencionais e finais felizes para personagens marginalizados costumavam ser mais fáceis de encontrar nas fanfics do que nos livros das grandes editoras. 

E talvez seja justamente isso que torna esse universo tão necessário.

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *