O trabalho dos intérpretes de Libras na construção de uma sociedade mais inclusiva
No Brasil, onde mais de 10 milhões de pessoas possuem algum grau de deficiência auditiva, o Tradutor e Intérprete de Libras (TILS) surge como a ponte entre o silêncio imposto pela exclusão e o pleno exercício da cidadania. Muito além de gestos, esse profissional traduz mundos, garantindo que o direito constitucional à informação e à educação não seja interrompido por barreiras linguísticas.
Viver em uma sociedade que não compreende as dores do outro é manter a exclusão em evidência. É permitir que milhares de cidadãos caiam na invisibilidade por não terem quem fale por eles — ou, mais precisamente, quem traduz sua voz. A pessoa surda, caracterizada pela perda auditiva severa ou profunda, utiliza a visão como principal canal de comunicação. No Brasil, essa interação ganha vida por meio da Libras (Língua Brasileira de Sinais).
Para viabilizar essa comunicação, a figura do intérprete e tradutor de Libras é fundamental. Esse profissional atua como uma extensão do mundo, permitindo que a pessoa surda interaja, compreenda e seja compreendida. Sua dedicação foca na superação de barreiras linguísticas, promovendo a igualdade de oportunidades e a justiça social.

A Importância do Profissional TILS
A relevância desse trabalho se sustenta em pilares fundamentais para a democracia:
- Acessibilidade comunicativa: Garantia de fluxo de informação em tempo real;
- Educação: Suporte indispensável em salas de aula e ambientes acadêmicos;
- Cidadania: Acesso a serviços públicos, saúde e justiça;
- Inclusão Profissional: Inserção e permanência do surdo no mercado de trabalho.

As mãos desse profissional são a voz daqueles que precisam ser ouvidos. Ele atua como um catalisador da comunicação efetiva, combatendo o que a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) define como barreiras nas comunicações: “qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens e de informações”.
O Cenário Brasileiro em Números
A urgência desse debate é reforçada pelos dados. Segundo o IBGE (Censo 2010 e atualizações da PNAD), cerca de 5% da população brasileira possui algum grau de surdez, o que totaliza mais de 10 milhões de pessoas. Destas, aproximadamente 2,7 milhões possuem surdez profunda.
Entretanto, há um abismo educacional: estima-se que apenas uma pequena parcela dessa população tenha domínio completo da Libras, muitas vezes por falta de acesso precoce à língua. O reconhecimento da Libras como língua oficial (através da Lei nº 10.436/2002) foi um marco, mas a prática cotidiana ainda caminha a passos lentos.

A professora de Libras, Delma Roberta de Oliveira, enfatiza que a língua representa a quebra de um estigma histórico:
“As línguas de sinais vieram para mostrar que os surdos têm vez e voz. Essa voz que sai das mãos. Aprender Libras é mergulhar num mundo visual onde aqueles que não ouvem têm muito a nos falar. Basta apenas aprender”, pontua a educadora.
O papel do intérprete, portanto, deve ser compreendido como uma mediação entre duas culturas e duas línguas: o Português e a Libras. Ele não serve apenas à comunidade surda, mas a toda a sociedade, permitindo que o diálogo flua entre ouvintes e não ouvintes.

Entrevista Especial: A Perspectiva de quem Atua na Área
Para entender os desafios práticos, as nuances éticas e a realidade técnica dessa profissão, conversamos com a intérprete Kívia Marinho, que detalha sua trajetória e as dificuldades de um mercado que ainda confunde profissionalismo com voluntariado.
Formação e Trajetória
O caminho para se tornar um intérprete profissional exige mais do que apenas conhecer os sinais; demanda sensibilidade e formação contínua.
Minha trajetória começou no âmbito religioso. Eu já tinha o domínio da Libras, mas voltado para o contexto acadêmico, enquanto era discente da graduação em Letras Libras. Na faculdade, conheci uma pessoa que me apresentou o ministério com surdos e comecei a atuar. Profissionalmente, iniciei no ensino superior e na pós-graduação dois anos após minha formação. No âmbito religioso, continuo atuando desde 2018, comenta.
Desafios da Prática Profissional
A atuação do intérprete enfrenta obstáculos que vão desde o desrespeito técnico em transmissões de vídeo até a falta de materiais prévios para estudo.
Os desafios são vários. O primeiro é a valorização. Infelizmente, a sociedade ainda rotula o TILS como algo “voluntário”. Pensam que nosso papel é de caridade, e não profissional. Outro ponto é o desrespeito durante a ação: em transmissões, colocam legendas ou logotipos na frente da janela do intérprete, ou não respeitam o espaço mínimo de 25% da tela, o que prejudica o surdo. Além disso, palestrantes raramente enviam materiais com antecedência. Sem esse estudo prévio de terminologias técnicas, a qualidade da tradução é comprometida, afirma.
Papel Social e Transformação
A presença de um intérprete em um recinto muda a dinâmica do poder e garante que o direito à informação seja equânime.
“O intérprete desempenha um papel essencial porque rompe barreiras que historicamente excluíram surdos de espaços educacionais e profissionais. Não somos apenas mediadores linguísticos, somos agentes que garantem direitos e autonomia. Nossa presença transforma ambientes antes inacessíveis em locais de equidade, fazendo com que a inclusão deixe de ser apenas um discurso e se torne prática cotidiana”, comentou.
Reconhecimento e Futuro
A regulamentação da carreira e a conscientização pública são os próximos passos para uma profissão que é pilar da acessibilidade.
“Embora haja mais visibilidade hoje, a valorização está muito aquém da importância real da função. É uma profissão altamente especializada, que exige ética e formação contínua. Muitos ainda enfrentam precarização laboral e baixa remuneração. É urgente avançar em políticas públicas, concursos e na regulamentação efetiva da carreira. Valorizar o intérprete é, acima de tudo, valorizar o direito da pessoa surda à comunicação plena”, relata.













Um comentário
O descaso começa quando há falta de obrigatoriedade legal no currículo comum (embora obrigatória como acessibilidade), escassez de professores qualificados, desafios na formação docente e falta de materiais didáticos adequados. Tornando o foco atual em garantir intérpretes e o aprendizado de Libras como primeira língua para alunos surdos, ausentando o ensino de libras na educação básica brasileira!