Com a ascensão da Internet e das plataformas digitais, o que se pode esperar dos movimentos sociais? Seria a Internet no fim das mobilizações nas ruas?
Editorial por Júlia Valgas
Em 15 de Maio de 2019, as poderosas ondas do Tsunami da Educação inundaram o Brasil de reivindicações contra os cortes na pasta realizados durante o Governo Bolsonaro. O sentimento que tomava conta do país era a revolta. Da educação básica às universidades, o descaso era generalizado — mas os atos em defesa da educação foram também. Em todo o território nacional, de norte a sul, mais de 250 cidades registraram movimentos populares e centenas de milhares de pessoas estiveram nas ruas reunidas pela premissa da educação pública, gratuita e de qualidade.
Enquanto isso, nos Trending Topics do Twitter, atual X, em primeiro e segundo lugar estavam as hashtags #TiraAMaoDaFederal e #TiraAMaoDoMeuIF. Os perfis da União Nacional dos Estudantes (UNE) e de figuras públicas de oposição ao governo, como a ativista e doutora em Políticas Públicas Manuela D’Ávila, realizavam uma cobertura completa das manifestações e divulgavam fotos dos atos nas 27 unidades federais do país. Mas será que essa conquista das redes por parte dos movimentos sociais de fato fortalece as pautas populares ou é apenas uma concessão de um sistema que lucra tanto com a nossa felicidade, quanto com nossa indignação?
Em primeiro plano, é necessário considerar que desde a Revolução Francesa, movidos pelos ideais de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, grupos de pessoas ocupam as ruas na defesa de direitos e fazem pressão para que suas demandas sejam atendidas. Desde então, a modernidade foi marcada por diferentes protestos, sejam eles trabalhistas, políticos, sociais ou culturais, que inauguraram uma nova forma de participação nas instâncias de poder institucional. A ascensão das redes sociais e da Internet como um todo, embora tenham facilitado a difusão das informações e a mobilização da população para reivindicar seus direitos, não foi marcada por uma maior adesão aos movimentos populares — ou, pelo menos, essa adesão não resultou em mais gente nas ruas.
É possível que alguém diga: “mas as discussões nas redes sociais sobre os direitos coletivos tornaram-se mais capilarizadas e inclusivas”. Também não é possível comprovar que esses meios aumentaram o engajamento da população com temas políticos, já que é impossível medir a ênfase que medidas governamentais possuem na vida privada de diferentes cidadãos, ainda que tenham aumentado sua possibilidade de alcance. Todavia, me parece que o advento das plataformas radicaliza a opinião pública sobre temas contemporâneos: em relações mediadas pelos algoritmos, os indivíduos encontram-se cada vez menos expostos a opiniões divergentes que podem agregar no debate. Torna-se uma espécie de “bolha social” que apenas reafirma posições já definidas.
Por fim, é imprescindível considerar que as plataformas, isto é, as redes sociais, não são ferramentas neutras. Além de representarem os interesses dos seus proprietários capitalistas, vide o vazamento de dados da Cambridge Algoritmics que influenciou a opinião pública dos estadunidenses nas vésperas das eleições de Donald Trump, as próprias Big Techs lucram com cada interação que os usuários têm nas redes sociais — desde uma simples curtida até a própria criação de um novo perfil. Dessa forma, mesmo que os movimentos populares se valham das ferramentas digitais para difundir uma reivindicação pública, um sistema capitalista, exploratório e opressor continua se beneficiando com as dores das pessoas.
Em uma ordem covardemente articulada para minar a participação popular, articular estratégias para resistir às pressões capitalistas é urgente na busca do poder para todos. Seja através das redes sociais ou dos jornais independentes de oposição, o importante é resgatar o coração que pulsa por um mundo mais justo e ocupar as ruas em prol de um Brasil que tenha cara de povo. Que o tsunami da educação inspire um mar de gente revoltada com a falta de acesso aos direitos básicos no Brasil, que se rebela contra as concessões e luta para que as novas conquistas sejam adquiridas e inegociáveis.
Imagem: Manifestações do Tsunami da Educação – Divulgação: Andes – SN












