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COP30: especialistas alertam para a necessidade de soluções para pessoas expostas às alterações climáticas

Cidade de Rio Rio Bonito do Iguaçu-PR destruída após tornado. Imagem: Itatiaia/AFP

A real urgência é revelada: antes de salvar o planeta, é preciso salvar as pessoas

Durante debates sobre metas de descarbonização na COP30 (30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), especialistas lembram que a verdadeira transição climática começa nas cidades. Para o engenheiro e filósofo Pedro de Medeiros, antes de iniciar medidas e investir fundos bilionários para a transição energética, é preciso tirar as pessoas das áreas de risco, garantir moradia, saneamento básico e dignidade para quem sente, na pele, os efeitos do colapso ambiental.

“Enquanto chefes de Estado debatem metas para 2050, milhões de brasileiros enfrentam enchentes, deslizamentos e a falta de saneamento. Fala-se muito em salvar o planeta, mas pouco em salvar as pessoas que estão sendo engolidas por ele”, afirma Medeiros.

Importância da reurbanização

Segundo dados do Serviço Geológico do Brasil, mais de 13 mil áreas no país estão classificadas como de risco alto ou muito alto para deslizamentos, inundações ou instabilidades, e cerca de 3,9 milhões de pessoas vivem nessas áreas.

O especialista chama atenção para o fato de que a mudança climática mais urgente é social e urbana. Para ele, o Brasil precisa investir em reurbanização e remoção de famílias das áreas de risco, medidas já adotadas com sucesso em outros países, mas que seguem ausentes na agenda nacional.

Eventos que antes eram de menor frequência e considerados “raros” tornaram-se cada vez mais comuns no Brasil. Sendo assim, fatores como a mudança climática e a maior vulnerabilidade urbana devem ser priorizados, segundo o especialista.

“Existem experiências internacionais de realocação digna e reconstrução urbana com infraestrutura. No Brasil, essa pauta é invisível. Falamos de carros elétricos e créditos de carbono, mas esquecemos das pessoas que vivem sobre o esgoto a céu aberto”, pontua.

Aumento de desastres naturais no Brasil

O estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostrou que, nos anos de 1991, o número de desastres ambientais era de aproximadamente 725 eventos/ano, enquanto entre 2020 e 2023 a média foi de cerca de 4.077 eventos/ano, representando um crescimento de 463% no número de catástrofes no Brasil. Além disso, ao longo desse período, mais de 219 milhões de pessoas foram afetadas (mortos, desabrigados, desalojados, enfermos).

Como exemplo recente que reforça os fatos apresentados pelo especialista, está o tornado que atingiu o município de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná. Segundo informações da CNN Brasil, o desastre provocou ventos superiores a 250 km/h, devastou cerca de 90% dos edifícios da cidade, danificou ou destruiu cerca de 1.500 casas e afetou mais de 80% da população (13,6 mil habitantes).

Outro exemplo, em janeiro deste ano, foram as chuvas fortes que atingiram o Vale do Aço, em Minas Gerais, que provocou enchentes e deslizamentos de terra que deixaram dez mortos em Ipatinga e centenas de desabrigados. As áreas mais afetadas foram encostas e margens de rios ocupadas irregularmente. Esse episódio expôs, mais uma vez, a vulnerabilidade das pessoas que vivem em áreas de risco ambiental, que, combinada com eventos climáticos extremos, resulta em tragédias cada vez mais frequentes no país.

Segundo Medeiros, o debate climático só fará sentido se colocar o ser humano no centro das decisões. A transição verde, diz ele, precisa começar pelo básico: moradia segura, saneamento, educação e inclusão social.

“A transição que realmente importa começa no chão das periferias. Antes de plantar árvores, precisamos reconstruir bairros. Antes de falar em neutralidade de carbono, precisamos garantir que todos tenham o direito básico de respirar”, conclui.

Pedro de Medeiros é filósofo formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, engenheiro mecânico pela PUC e pós-graduado em Gestão de Pessoas. Imagem: Divulgação

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