Presidente Lula à esquerda e governador do RJ Cláudio Castro, à direita [Reprodução/ Evaristo Sá/AFP e Fernando Frazão/Agência Brasil]
Governador fluminense rebate críticas e ostenta operação como “sucesso”, enquanto governo Lula busca administrar a crise
A operação mais letal da história do Rio de Janeiro deixou a capital carioca em estado de guerra nessa terça-feira (29). Ruas e avenidas travadas com ônibus abandonados e carros destruídos forçaram a paralisação de algumas atividades no bairro da Penha, na Zona Norte.
Com mais de 400 agentes da Polícia Civil e Militar mobilizados, a megaoperação para conter o Comando Vermelho (CV) pegou o Brasil de surpresa, em especial o Governo Federal, segundo o vice-presidente, Geraldo Alckmin.
A alta cúpula do executivo teceu críticas à atuação isolada encabeçada pelo governador Cláudio Castro (PL), que classifica a ação como “sucesso”. Castro ainda afirmou que pediu ajuda com equipamento militar para o governo, mas que não obteve retorno.
Com 132 mortos confirmados pela Defensoria Pública, a operação no morro do Alemão, na Penha, ultrapassou o registrado no massacre do Carandiru, em 1992.
Estratégias políticas em Brasília
Nessa madrugada, Lula retornou de viagem diplomática da Malásia com a notícia do morticínio para participar de uma reunião emergencial. No momento de sua chegada, eram menos de 80 mortos confirmados, que aumentaram conforme o trabalho da sociedade civil de retirada dos corpos da mata da Vacaria, na Serra da Misericórdia.
O presidente afirmou estar “estarrecido” com a quantidade de mortos. A reunião com os ministros contou os líderes dos ministérios da Justiça (Ricardo Lewandowski), Igualdade Racial (Anielle Franco), Direitos Humanos (Macaé Evaristo), Casa Civil (Rui Costa), Relações Exteriores (Gleisi Hoffmann), Comunicação Social (Sidônio Palmeira) e o vice-presidente (Geraldo Alckmin).
A reunião levantou a possibilidade de aplicar a GLO (Garantia da Lei e da Ordem), que, na prática, validaria uma intervenção federal com os militares por um período restrito. Porém, é preciso que o governo estadual mande um ofício dizendo que as suas forças policiais não teriam forças para controlar a situação, o que segundo o ministro da justiça, não foi endereçado ao governo Federal.
Lewandowski afirmou que uma operação dessa magnitude deveria ter sido notificada com antecedência e oficialidade para os chefes do executivo. Segundo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, a PF foi avisada a nível operacional e local, com um pedido de apoio em uma “grande operação”. Porém, Andrei não considerou a atuação “razoável”, e afirma ainda que não houve nenhuma comunicação formal.
Em entrevista, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que seu ministério está “atuando fortemente contra o crime organizado”, focando em gargalos fiscais do Comando Vermelho. “O governador deveria acordar para esse problema e nos ajudar a combater o andar de cima [do crime organizado]”.
“Ou soma ou some”
O governador do Rio, Cláudio Castro, reafirmou em coletiva de imprensa que a operação foi um “sucesso”, e citou que “as únicas vítimas foram os policiais que morreram em combate”. Das mais de 130 mortes, quatro delas eram policiais, um deles com menos de dois meses na corporação.
Castro usou o termo “narcoterrorista” para identificar os assassinos dos policiais, e oficializou uma promoção póstuma a eles, afirmando que o Rio está de luto. O governador ainda disse à CNN Brasil que a operação foi planejada há mais de 60 dias: um “muro do BOPE foi efetuado para levar o conflito para a mata”, completa.
O conflito entre o estado do RJ e o Governo Federal foi exposto na coletiva. Castro afirma que “ninguém do seu governo vai responder, seja ministro ou autoridade, que queira transformar esse momento numa batalha política”. O político do PL conclui com dureza: “Quem vier para ajudar será bem-vindo; os outros, que querem fazer confusão ou politicagem, não. Ou soma ou suma” completa.
Brasília x Rio de Janeiro

Castro retomou a discussão de um pedido que havia feito para o governo ainda em janeiro, quando pediu carros blindados para colaborar com as operações. Porém, na ocasião, Lewandowski afirma que o pedido deve passar pelo acionamento da GLO, com um requerimento de incapacidade da força policial local. “Esse pedido [de GLO] nunca chegou na minha mesa”, completou o ministro. Além disso, o presidente Lula já afirmou ser contra o acionamento da Garantia da Lei e da Ordem em outras oportunidades, o que impediria o envio do equipamento militar.
Governadores de direita de outros estados, como Eduardo Leite (PSD), do Rio Grande do Sul, Jorginho Mello (PL), de Santa Catarina, Mauro Mendes (União), do Mato Grosso, Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, Ratinho Junior (PSD), do Paraná; e Eduardo Riedel (PP), do Mato Grosso do Sul, organizaram uma comitiva para demonstrar apoio à Cláudio Castro.
As tensões entre o Governo Lula e os governadores do Centro-Sul realçam dificuldades políticas claras que o petista enfrentará para as eleições de 2026. Até lá, a contenção dos danos causados pelo morticínio deverá englobar ações divergentes entre o executivo federal e a Unidade fluminense.












