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Ato inter-religioso celebra 50 anos do assassinato de Vladimir Herzog

Cerimônia ecumênica na Catedral da Sé reúne familiares, autoridades e representantes religiosos em homenagem às vítimas da ditadura

Assim como há 50 anos, a Catedral da Sé, no centro de São Paulo, voltou a ser palco de um momento histórico. No sábado (25), familiares, amigos, representantes da sociedade civil e autoridades participaram de um ato inter-religioso em memória do jornalista Vladimir Herzog e das vítimas do regime militar que governou o Brasil por duas décadas.

O evento recriou o clima de 1975, quando uma missa ecumênica no mesmo local desafiou o autoritarismo ao denunciar o assassinato de Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura. À época, a celebração foi conduzida pelo cardeal Dom Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor presbiteriano James Wright, tornando-se um marco na luta pela redemocratização do país.

Cinco décadas depois, o culto reuniu Dom Odilo Scherer, o rabino Rav Uri Lam e a prebítera Anita Wright, filha do pastor James Wright.

Entre os presentes estavam o presidente em exercício, Geraldo Alckmin e sua esposa, Lú Alckmin, o ministro Paulo Teixeira, além de figuras da política brasileira como José Dirceu e José Genoíno. Também compareceram familiares de mortos e desaparecidos, a procuradora Eugênia Gonzaga, presidenta da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), Jurema Werneck, diretora da Anistia Internacional no Brasil e diversas entidades de direitos humanos.

A igreja ficou lotada. A pedido da família Herzog, o público foi convidado a levar uma flor branca, símbolo de paz. Telões foram instalados para que todos acompanhassem a cerimônia, que exibiu imagens e vídeos sobre a repressão e a violência do período conhecido com “anos de chumbo”. Em diversos momentos, ecoaram os gritos de “sem anistia” e faixas com os dizeres “ditadura nunca mais” e “punição de todos os crimes da ditadura!”.

Uma passagem marcante da noite foi a leitura, pela atriz Fernanda Montenegro, de uma carta escrita em 1978 por Zora Herzog, mãe do jornalista, e endereçada ao juiz Márcio José de Moraes, responsável pela decisão que condenou o Estado brasileiro pela prisão, tortura e morte de Vladimir Herzog. A leitura emocionou o magistrado, que estava entre os presentes.

A trilha sonora da cerimônia intensificou a carga simbólica do ato. Clássicos como O bêbado e a equilibrista (Aldir Blanc e João Bosco), Cálice e Angélica (Chico Buarque) foram interpretados pela atriz e pianista Cida Moreira, acompanhada pelo Coro Luther King. As canções, imortalizadas por vozes como a de Elis Regina, remeteram à esperança e à resistência.

Durante a celebração, Dom Odilo Scherer ressaltou o sacrifício dos que lutaram pela liberdade e condenou as novas formas de intolerância, autoritarismo, guerras e injustiças sociais. “Se estamos aqui sem medo de repressão, com as liberdades democráticas consolidadas e a sociedade organizada podendo se manifestar e assumir o seu destino, devemos isso também àqueles que pagaram um alto preço, não raramente com seu sangue e sua vida, para proclamar, defender e testemunhar esses valores que constituem a base da vida social com dignidade”, afirmou o cardeal.

André e Ivo Herzog – (Foto: Reprodução/Internet)

O filho mais velho de Vladimir, Ivo Herzog, acompanhado do irmão André, falou sobre o papel do Estado na defesa da democracia.

Há 50 anos, quando viemos a esta catedral, tínhamos medo do Estado. O Estado queria nos matar, esperava um ato de rebeldia para justificar um massacre. Nesta noite, presidente Alckimim, a presença do senhor faz com que esse ato seja um ato de Estado, com o Estado ao nosso lado”,
declarou.

Memória, esperança e reparação

O cantor e apresentador Ernesto José de Carvalho, conhecido como Don Ernesto, filho do sindicalista Devanir José de Carvalho, morto durante o regime militar, afirmou ser impensável, nos dias atuais, que as pessoas precisem novamente assumir o papel de defesa da democracia. Os tios do cantor Joel José e Daniel, permanecem desaparecidos.

“A gente não imaginava que nossa geração teria que defender a democracia de novo. O país se tornou um exemplo para o mundo em defesa da democracia, sobretudo aqui no continente americano”, afirmou o apresentador.

A jornalista Vanira Kunc, viúva do também jornalista Audálio Dantas, recordou o papel do marido e dos colegas de sindicato na resistência.

“Audálio teve muito medo, mas empunhou sua voz contra os militares, com outros companheiros que estiveram ao lado dele, Fernando Pacheco Jordão, Gastãozinho e tantos outros. Audálio Dantas tem sim o nome escrito na história da reorganização política deste país”, disse Vanira.

O presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Thiago Tanji, reforçou o valor da união da categoria e da sociedade civil na preservação da memória.

“Este 25 de outubro de 2025 é um dia histórico. Foi um ato lindíssimo, que faz a gente relembrar o culto de 1975. Nossa luta tem história, e estamos aqui para honrar essas memórias.”

O escritor e jornalista Camilo Vannuchi, primo de Alexandre Vannuchi Leme, estudante morto durante a ditadura, afirmou que o país só avançará plenamente quando houver responsabilização pelos crimes cometidos.

“Ainda hoje carregamos heranças de violência e impunidade, uma polícia que mata, torturas no sistema prisional e desaparecimentos forçados. Nunca ninguém foi preso por tortura. Para virar a página, é preciso antes ler o que está escrito nela e aprender com isso. Se generais forem condenados e cumprirem pena, será um marco civilizatório e um exemplo para o futuro do Brasil.”

A presidente do Superior Tribunal Militar (STM), Maria Elizabeth Rocha, pediu perdão às famílias das vítimas e reconheceu as falhas históricas do Estado.

“Estou aqui, na qualidade de presidente da Justiça Militar da União, para pedir perdão a todos que tombaram e sofreram lutando pela liberdade. Peço perdão pelos erros e omissões judiciais cometidos durante a ditadura. Peço, enfim, perdão à sociedade brasileira e à história do país pelos equívocos judiciários cometidos pela Justiça Militar Federal em detrimento da democracia e favoráveis ao regime autoritário.”, afirmou.

Quem foi Vladimir Herzog

Vladimir Herzog foi um jornalista, professor e cineasta brasileiro de origem judaica, nascido em 1937, na então Iugoslávia, e naturalizado brasileiro. Trabalhou em importantes veículos de comunicação, como a TV Cultura, onde atuava como diretor de jornalismo.

Em 25 de outubro de 1975, durante a ditadura militar no Brasil (1964–1985), Herzog foi convocado para depor no DOI-CODI, órgão de repressão do Exército em São Paulo, acusado de ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Horas depois de se apresentar voluntariamente, foi encontrado morto em sua cela. O regime afirmou que ele havia cometido suicídio, mas as evidências, como marcas de tortura e a forma forjada da cena, demonstraram que ele havia sido assassinado sob tortura.

A morte de Vladimir Herzog teve enorme repercussão nacional e internacional. O culto ecumênico em sua homenagem, realizado na Catedral da Sé, em outubro de 1975, em São Paulo, reuniu milhares de pessoas e marcou um ponto de virada na resistência civil contra o regime militar. O caso revelou ao público a violência do Estado e ajudou a mobilizar setores da sociedade, jornalistas, artistas, intelectuais e religiosos, em defesa dos direitos humanos e da redemocratização.

Assim, a morte de Herzog se tornou símbolo da luta pela liberdade, pela verdade e pelo fim da ditadura no Brasil, representando uma das mais importantes rupturas na legitimidade moral do regime autoritário.

Ao final alunos da escola EMEF – Escola Municipal de Ensino Fundamental, que tem como patrono Vladimir Herzog, recolheream as flores e foi feito um cordão como símbolo pela paz.

A cerimônia, foi gravada na íntegra e está disponível no canal do Instituto Vladimir Herzog no YouTube.

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