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O amor que resiste: saúde emocional, maternidade solo e a força das mulheres que sustentam o invisível

Foto: Daniele Caetano/ Acervo pessoal

Mulheres que cuidam do mundo precisam, antes de tudo, aprender a cuidar de si.

Entre o afeto e a exaustão, milhões de mulheres brasileiras enfrentam o desafio de cuidar, trabalhar, maternar e ainda manter a própria saúde emocional. A jornada é silenciosa, mas profundamente transformadora.

Ser mulher no Brasil de hoje é viver em estado de atenção constante. Ser mãe solo, então, é resistir em meio ao caos. Segundo dados do IBGE, mais de 11,4 milhões de mulheres criam seus filhos sozinhas no país. São histórias de amor e luta, mas também de sobrecarga, solidão e invisibilidade. Elas são o eixo invisível que mantém famílias inteiras em pé, e, ao mesmo tempo, representam um dos grupos mais afetados pela exaustão emocional.

A Organização Mundial da Saúde aponta o Brasil como o país mais ansioso do mundo e o segundo com maior número de mulheres em burnout. As estatísticas são o retrato de uma realidade que se estende da casa ao trabalho, e do trabalho ao corpo. A mulher moderna, que aprendeu a se dividir entre múltiplos papéis, muitas vezes se perde no esforço de corresponder às expectativas. A cobrança é constante: ser boa mãe, boa profissional, boa companheira, boa filha. O cansaço que vem desse ideal de perfeição é imenso e, frequentemente, negligenciado.

Um levantamento realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 2024 mostrou que 62% das mulheres brasileiras relataram sintomas de ansiedade ou depressão. Entre as mães solo, esse número sobe para 71%. O motivo principal, segundo o estudo, é a sobrecarga emocional e a falta de apoio familiar e social. O corpo, muitas vezes, fala quando a mente não consegue mais pedir ajuda.

A saúde mental e emocional das mulheres precisa, portanto, ser tratada como uma pauta pública e não apenas individual. Quando uma mulher adoece emocionalmente, tudo ao seu redor adoece junto: filhos, vínculos, produtividade, afetos. O autocuidado não é um luxo, é uma necessidade básica. E o empoderamento feminino, antes de ser um discurso, é uma forma de sobrevivência.

Mas empoderar-se não é endurecer. É o oposto. É ter coragem de reconhecer a própria vulnerabilidade, de pedir ajuda, de construir redes de apoio. É compreender que a força feminina não está em suportar tudo, e sim em não precisar suportar sozinha.

Em meio a tantas histórias anônimas, a da psicoterapeuta Daniele Caetano ilustra de forma profunda como saúde emocional e resiliência podem caminhar juntas. Mãe solo de duas meninas, Daniele teve a vida interrompida em 2023 por um diagnóstico de doença autoimune rara que a fez perder temporariamente a visão de um dos olhos. Durante o tratamento no Hospital das Clínicas, foi obrigada a fechar os consultórios e interromper a rotina profissional. O medo da perda, a insegurança financeira e o peso de maternar sozinha enquanto o corpo pedia repouso se transformaram em um ponto de ruptura e reflexão.

“Eu vi o trabalho de anos escorrendo pelos meus dedos e não podia fazer nada além de esperar meu corpo se recuperar. Foi desesperador, mas também um chamado”, relembra. “Como psicoterapeuta, sempre estive disponível para ouvir os outros, mas precisei aprender a me escutar.”

O recomeço de Daniele veio pela adaptação. Ao migrar para o atendimento online, ela encontrou uma nova forma de exercer seu propósito e, de quebra, levou acolhimento a pessoas em diferentes países. Hoje, atende pacientes no Brasil e no exterior, conduz palestras e atua como voluntária no CVV – Centro de Valorização da Vida, organização que oferece apoio emocional e trabalha na prevenção do suicídio. O CVV recebe cerca de três milhões de ligações por ano, e grande parte das chamadas vem de mulheres entre 25 e 45 anos, faixa etária em que o esgotamento emocional é mais evidente.

Daniele é uma entre tantas profissionais que mostram que saúde emocional e empatia caminham lado a lado. Sua história ecoa a de milhões de mulheres que não aparecem nas estatísticas, mas enfrentam diariamente o desafio de manter o equilíbrio entre o que precisam ser e o que desejam ser. Ela aprendeu que a vulnerabilidade pode ser força e que o corpo é um mensageiro da alma. Sua experiência, longe de ser exceção, revela a urgência de se falar sobre o cuidado com a mulher para além do físico, o cuidado que começa dentro e se expande para fora.

Psicoterapeuta Daniele Caetano. Foto: Divulgação/ Acervo pessoal

O olhar para a saúde da mulher precisa ser ampliado. As doenças autoimunes, por exemplo, são muito mais comuns nelas: representam cerca de 80% dos diagnósticos, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia. Estresse emocional e sobrecarga são fatores diretamente associados ao surgimento e agravamento dessas condições. É o corpo dizendo o que o cotidiano insiste em silenciar.

O mesmo vale para a saúde mental. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde, uma em cada cinco mulheres vai apresentar algum transtorno psicológico ao longo da vida. A falta de políticas públicas de apoio e o estigma sobre adoecimento emocional ainda são barreiras que dificultam o acesso a tratamentos adequados.

Em contrapartida, cresce no país uma nova forma de olhar para o feminino: um olhar de sororidade, que entende que nenhuma mulher é ilha. Nas redes, nas rodas de conversa e nos grupos de apoio, mães, filhas e profissionais se encontram para compartilhar dores, estratégias e acolhimento. Esse movimento é silencioso, mas revolucionário. É o empoderamento que nasce do afeto e da partilha, não da performance.

Ser mulher é um ato de reconstrução diária. É cair e se levantar. É enfrentar o cansaço, o medo, a culpa e ainda assim continuar. É reconhecer-se não como super-heroína, mas como humana. A maternidade solo evidencia esse paradoxo com clareza: o amor incondicional convive com a solidão, e o cuidado com os outros só é possível quando há cuidado consigo mesma.

A jornada de mulheres como Daniele Caetano não é uma história isolada de superação, mas um espelho de muitas outras. São mulheres que transformam dor em consciência e vulnerabilidade em força. São elas que, mesmo esgotadas, constroem o futuro com afeto e coragem.

Em um mundo que ainda romantiza o sacrifício feminino, é urgente falar sobre descanso, autocuidado e saúde emocional como direitos. A força da mulher não está em aguentar tudo, mas em saber quando parar. E a verdadeira revolução começa quando o cuidado deixa de ser solitário e se torna coletivo.

O amor que essas mulheres oferecem ao mundo é o mesmo que tantas vezes falta a elas. Talvez o primeiro passo seja devolver-lhes esse amor em forma de escuta, empatia e políticas que as vejam não apenas como mães, mas como pessoas inteiras. Porque quando uma mulher se cuida, toda uma geração floresce junto.

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