No Dia da Prevenção de Acidentes de Trabalho, Sobrasp aponta riscos psicossociais como principal ameaça no ambiente de trabalho
Entre 2022 e 2024, o número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais no Brasil cresceu 134%, segundo dados do Ministério Público do Trabalho. Só em 2024, quase meio milhão de casos foram registrados. O estado de São Paulo lidera o ranking, com 133.184 afastamentos. Na sequência, aparecem Minas Gerais (mais de 70 mil), Rio Grande do Sul (39.250), Rio de Janeiro (33.596) e Paraná (26.877).
De acordo com o Ministério da Previdência, mais de 470 mil pedidos de licença foram solicitados ao INSS em 2024 por motivos relacionados a transtornos mentais. Entre as principais causas estão reações ao estresse (28,6%), transtornos de ansiedade (27,4%), episódios depressivos (25,1%) e depressão recorrente (8,46%).
Uma ameaça silenciosa
Celebrado em 27 de julho, o Dia Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho foi criado para reforçar a proteção à saúde física e mental dos trabalhadores brasileiros. A data remete ao ano de 1972, quando foram publicadas as Portarias nº 3.236 e 3.237, que instituíram o Plano Nacional de Valorização do Trabalhador e estabeleceram normas de segurança e saúde no trabalho. Mas, apesar do objetivo ser proteger o trabalhador como um todo, o cuidado com a saúde mental parece ter ficado em segundo plano.
Para Alessandra Roscani, diretora de comunicação da Sobrasp (Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente), o aumento dos afastamentos por transtornos mentais expõe um cenário de adoecimento silencioso dentro das empresas. “A gente está falando de milhares de pessoas afastadas por ansiedade, depressão, estresse. Isso mostra que o sofrimento psíquico virou parte da rotina de muitos trabalhadores — especialmente nas profissões mais expostas à pressão constante, como os profissionais de saúde”.
A pesquisa do Ministério da Previdência concorda com a fala de Roscani. Segundo os dados encontrados, em 2024, foram solicitados 3,5 milhões de pedidos de licença no INSS por diferentes doenças. Desse total, 472.328 mil pessoas foram afastadas do trabalho devido a transtornos mentais. Entre os principais motivos de afastamento estão reações ao estresse (28,6%), ansiedade (27,4%), episódios depressivos (25,1%) e depressão recorrente (8.46%).
Na linha de frente do cuidado, mas sem proteção
Sob jornadas exaustivas, sobrecarga emocional e pouca ou nenhuma assistência psicológica, profissionais da saúde têm enfrentado uma realidade alarmante. Segundo levantamento da Fiocruz publicado em 2023, 59% desses trabalhadores relataram sintomas de ansiedade e depressão.
Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab) reforçam esse cenário preocupante. Entre 2012 e 2024, os setores de atendimento hospitalar e atenção à saúde registraram índices elevados de afastamentos por transtornos mentais. Os técnicos de enfermagem lideram o ranking, representando 30,4% dos casos de afastamento acidentário. Em seguida, aparecem os auxiliares de enfermagem, com 9,98%.
A situação dos médicos também é semelhante. Um estudo da Afya, publicado em 2024 sob o título Qualidade de Vida dos Médicos, mapeou a saúde mental de profissionais em atuação no país. Apesar de uma leve melhora em relação ao levantamento anterior, feito em 2022, doenças como ansiedade e depressão continuam afetando uma parcela significativa da categoria, principalmente mulheres e profissionais mais jovens.
De acordo com a pesquisa, 39,8% dos médicos convivem com algum tipo de transtorno mental. O impacto é ainda mais evidente entre as mulheres: dois em cada três profissionais afetados são do gênero feminino. Na faixa etária de 25 a 35 anos, quase metade (49,6%) dos profissionais sofre com algum tipo de adoecimento psíquico.
A ansiedade aparece como o transtorno mais comum: 33,5% dos médicos já receberam esse diagnóstico, e 21,1% apresentaram sintomas nos últimos 12 meses. Entre as mulheres, o número é ainda mais expressivo: quatro em cada dez médicas convivem com o transtorno. Entre os homens, o percentual é de 25,1%. Em segundo lugar aparece a depressão: 22,1% dos profissionais já foram diagnosticados, enquanto 17,1% relatam sintomas, mas nunca buscaram diagnóstico ou tratamento. A gravidade da situação também se reflete em outro dado: 3,6% dos médicos já precisaram de internação psiquiátrica, com uma média de afastamento de 5,1 semanas ao longo dos últimos 12 meses.
Para Alessandra Roscani, o problema se agravou no pós-pandemia. “Antes da pandemia, o cenário já era preocupante, mas a situação se agravou ainda mais. Esperamos que a revisão da NR-1 possa trazer luz às necessidades de reconhecer e agir sobre os riscos psicossociais, muitas vezes invisíveis”, afirma.
Prevenir é cuidar
Mudar esse cenário exige mais do que campanhas de conscientização. Políticas reais de bem-estar emocional, como apoio psicológico contínuo e ambientes de trabalho mais seguros, precisam ser implementadas.
Uma das iniciativas mais relevantes nesse sentido é a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), feita pelo Ministério do Trabalho. A nova versão, que estabelece diretrizes sobre saúde e segurança no ambiente de trabalho, determina que fatores antes ignorados, como estresse, assédio e sobrecarga, passem a ser reconhecidos oficialmente como riscos ocupacionais.
A norma também orienta que as empresas desenvolvam políticas e estratégias de prevenção, como melhoria da comunicação interna, oferta de suporte psicológico, incentivo ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e realização de simulações periódicas para identificar falhas e corrigir processos inseguros. As empresas têm até 26 de maio de 2026 para se adequar às novas exigências, segundo o Ministério da Saúde.
Para Roscani, a nova atualização da NR-01 é um avanço importante, porque reconhece oficialmente os riscos psicossociais, como o assédio e a sobrecarga.
“Agora, esses fatores precisam ser prevenidos e fiscalizados. O Dia Nacional da Prevenção de Acidentes de Trabalho, celebrado dia 27 de julho, é mais do que uma data simbólica. Ele lembra que prevenir acidentes não é só evitar quedas ou lesões físicas, é também cuidar da saúde mental, promover a dignidade e a segurança integral no trabalho”.













Um comentário
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