Home / Saúde / TDAH: desafios, avanços e tratamentos em todas as fases da vida

TDAH: desafios, avanços e tratamentos em todas as fases da vida


Com impacto desde a infância até a vida adulta, o transtorno ainda é cercado por mitos e diagnósticos tardios; especialistas reforçam a importância de informação e acompanhamento adequado.

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é conhecido por afetar crianças em fase escolar, mas a condição também acompanha muitos adultos – e ainda é pouco diagnosticada nessa fase da vida. Impulsividade, desatenção e dificuldades para organizar tarefas são alguns dos sinais que podem comprometer relacionamentos, desempenho profissional e saúde emocional.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 2,5% dos adultos vivem com TDAH, mas no Brasil apenas uma pequena parcela recebe diagnóstico e tratamento adequados. “Mesmo quando os sintomas parecem sutis, eles continuam trazendo desafios importantes”, explica o pesquisador Russell Barkley.

O psicólogo Luti Christóforo reforça que o transtorno não é fruto de má criação ou modismo. “O TDAH é uma condição real, que interfere na forma como a pessoa se organiza, se concentra e toma decisões.” Entre os impactos mais comuns estão dificuldades financeiras, perda de prazos, impulsividade em relacionamentos e maior risco para comportamentos de risco, como direção imprudente ou uso de substâncias.

Créditos: Bruno Soares

O diagnóstico é clínico e deve ser feito por profissionais qualificados, com base em critérios internacionais. O tratamento costuma combinar medicação, terapia e mudanças no estilo de vida, como prática de exercícios e rotinas bem estruturadas. O apoio da família e do ambiente de trabalho é decisivo para o sucesso do processo.

Para aprofundar esse debate e esclarecer dúvidas, psicólogos especializados participam de um bate-papo aberto ao público, trazendo informações, estratégias de manejo e caminhos para quem busca qualidade de vida mesmo convivendo com o TDAH.

1. Para começar, o que é o TDAH e como ele impacta a vida de crianças, adolescentes e adultos?

(Luti Christóforo) – O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é um transtorno do neurodesenvolvimento que envolve dificuldades em manter a atenção, controlar impulsos e, em alguns casos, excesso de atividade motora. Em crianças, isso se reflete em distrações frequentes, dificuldade em acompanhar tarefas escolares e comportamentos impulsivos. Já em adolescentes, os impactos aparecem na dificuldade de organização, baixa tolerância à frustração e conflitos nas relações sociais. Em adultos, o TDAH pode comprometer produtividade no trabalho, cumprimento de prazos e até mesmo relações afetivas. No consultório, acompanho casos em que a pessoa relata sensação de “mente acelerada” e culpa por não corresponder às expectativas, gerando sofrimento emocional.

(Bárbara Torres Silva) – O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta a atenção, a impulsividade e a hiperatividade. Ele pode impactar crianças, adolescentes e adultos na escola, no trabalho, nos relacionamentos e na autoestima, mas com acompanhamento adequado é possível desenvolver estratégias e levar uma vida equilibrada.

(Larissa Fonseca) – O TDAH é um transtorno neurobiológico caracterizado por desatenção, impulsividade e hiperatividade. No cérebro, envolve alterações em áreas como córtex pré-frontal e sistema dopaminérgico, responsáveis por atenção, controle de impulsos e motivação. Nas crianças, afeta o aprendizado e a socialização. Nos adolescentes, pode gerar baixa autoestima e dificuldades acadêmicas. Já nos adultos, compromete organização, gestão do tempo e relações pessoais. O TDAH não é falta de vontade, é um cérebro que funciona em outra frequência.

(Bárbara Niero) – O TDAH é um transtorno neurobiológico do desenvolvimento que impacta na sustentação da atenção voluntária em atividades diversas. Ele não afeta apenas a vida acadêmica ou o trabalho, mas as relações interpessoais e a vida diária, porque impacta no desenvolvimento de funções executivas importantes para as atividades cotidianas.

(Luis Carlos da Silva) – O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, ou TDAH, é uma condição do neurodesenvolvimento, de base genética, que se inicia na infância e frequentemente nos acompanha pela vida. Ele é caracterizado por um padrão persistente de desatenção, inquietude e impulsividade. O termo “transtorno” é usado justamente porque esses sintomas não são apenas traços de personalidade, mas causam impactos reais e significativos na rotina, nas relações sociais, no desempenho escolar e na vida profissional.

Em crianças, vemos com frequência a dificuldade de acompanhar as aulas, de se organizar com os materiais e de interagir com os colegas, o que pode gerar frustração e rótulos inadequados.

Em adolescentes, a agitação motora pode diminuir, mas a inquietude interna e a dificuldade de planejamento persistem. Isso pode levar a uma baixa autoestima, dificuldades acadêmicas e comportamentos de risco.

Em adultos, os desafios se manifestam na gestão do tempo, no cumprimento de prazos, na organização de tarefas e na manutenção de relacionamentos estáveis, tanto pessoais quanto profissionais.

É fundamental entender que as pessoas com TDAH têm uma inteligência normal ou até acima da média, mas seu cérebro funciona de uma maneira diferente, o que exige estratégias e suportes específicos.

2. Muitas pessoas ainda acreditam que o TDAH é apenas “falta de disciplina” ou “má criação”. Quais são os principais mitos que cercam o transtorno e por que eles são tão prejudiciais?

(Luti Christóforo) – Um dos mitos mais nocivos é acreditar que o TDAH é “falta de disciplina” ou resultado de “má criação”. Outro mito é dizer que a criança com TDAH é preguiçosa, quando na verdade ela enfrenta limitações reais na autorregulação. Essas crenças geram estigmas, atrasam o diagnóstico e podem reforçar sentimentos de incapacidade. Já atendi adolescentes que carregavam a culpa de “não serem bons o suficiente”, quando na realidade precisavam de compreensão e suporte adequados.

(Bárbara Torres Silva) – O TDAH não é falta de disciplina, preguiça ou má criação. É um transtorno do neurodesenvolvimento. Esses mitos atrasam o diagnóstico, aumentam o estigma e dificultam o tratamento adequado.

(Larissa Fonseca) – O mito mais comum é associar o TDAH à preguiça ou à má educação. Isso não só estigmatiza, mas também atrasa o diagnóstico. A ciência mostra que há disfunções em neurotransmissores como dopamina e noradrenalina. Quando dizemos “é só falta de disciplina”, estamos invalidando um quadro clínico real. Muito prejudicial gera culpa, tanto no paciente quanto na família.

(Bárbara Niero) – Os principais mitos costumam ser de que o TDAH é falta de disciplina da família; que é preguiça, desorganização ou irresponsabilidade das pessoas que possuem esse quadro. Essas falas são prejudiciais porque podem impedir as pessoas de buscarem uma avaliação psicológica e o acompanhamento necessário para trabalhar os desafios do TDAH, além de gerar vergonha e desconforto para as pessoas que fazem tratamento para o transtorno.

(Luis Carlos da Silva) – Esses mitos são extremamente prejudiciais e, infelizmente, muito comuns. O principal deles é justamente a ideia de que o TDAH é resultado de “má criação”, “falta de disciplina” ou até mesmo “preguiça”. A ciência já demonstrou que o TDAH é uma condição neurobiológica, com alterações na estrutura e no funcionamento do cérebro, especialmente na região frontal, responsável pelo controle de impulsos, atenção e planejamento.

Outro mito é que o TDAH não é uma condição real. Ele é reconhecido oficialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por toda a comunidade científica global. 

Também há o mito de que pessoas com TDAH são menos inteligentes, o que é uma inverdade; a dificuldade não está na capacidade intelectual, mas na forma de processar e executar tarefas.

Esses estigmas são danosos porque atrasam a busca por um diagnóstico correto, geram culpa e vergonha nos pais e nos próprios indivíduos, e impedem o acesso ao tratamento adequado. A desinformação cria uma barreira que isola e invalida o sofrimento de quem convive com o transtorno, dificultando que recebam o acolhimento e o suporte de que tanto precisam.

3. O diagnóstico é clínico e segue critérios específicos. Quais sinais devem ser observados em crianças e em adultos para identificar a possibilidade de TDAH?

(Luti Christóforo) – Em crianças, sinais comuns incluem dificuldade em permanecer concentrado nas aulas, esquecer materiais escolares, falar ou agir sem pensar e não conseguir esperar sua vez. Em adultos, a queixa mais frequente é a desorganização, a procrastinação, dificuldades com foco em reuniões e lapsos de memória no dia a dia. É importante lembrar que o diagnóstico é clínico e baseado em critérios específicos do DSM-5, sempre realizado por profissionais habilitados.

(Bárbara Torres Silva) – Em crianças: dificuldade em manter atenção, esquecer tarefas, erros por descuido, inquietação, falar demais, dificuldade em esperar a vez, comportamento impulsivo.

Em adultos: desorganização, dificuldade de concentração, esquecimentos frequentes, problemas para gerenciar tempo e prazos, impulsividade, impaciência e sensação constante de estar sobrecarregado.

O diagnóstico é sempre clínico, feito por profissional habilitado, considerando a persistência e o impacto desses sinais na vida da pessoa.

(Larissa Fonseca) – Em crianças: dificuldade em se concentrar, esquecer tarefas simples, inquietação e impulsividade. Em adultos: procrastinação crônica, desorganização, dificuldades em manter rotinas, além de sensação de “mente caótica”. Não é desatenção porque não liga, é porque o cérebro não consegue desligar.

(Bárbara Niero) – Nas crianças, o diagnóstico pode ser feito apenas a partir dos seis anos, porque antes disso a atenção e o controle do comportamento ainda está em desenvolvimento e é natural que a criança tenha limitações em permanecer na mesma atividade por períodos mais extensos ou tenha pouco controle do próprio comportamento. Os sinais iniciais costumam ser a dificuldade em transição de tarefas, parecer estar desconectado das situações ao redor, dificuldades em acompanhar os conteúdos escolares, permanecer períodos mais longos na mesma atividade, ainda que seja prazerosa, dificuldade para adormecer e “desacelerar” no final do dia. Nos adultos, os sinais costumam ser mais vinculados à desatenção do que a hipercinese (agitação física), e envolvem dificuldades no cumprimento de prazos, perda rápida do interesse nas atividades diárias, má gestão de tempo, perder objetos e esquecer informações relevantes com frequência. É essencial que a desatenção apareça em mais de um contexto porque quando existe apenas na escola/trabalho, podem ser melhor explicadas por outras questões, como baixa motivação para aprender ou um ambiente aversivo.

(Luis Carlos da Silva) – O diagnóstico é um processo cuidadoso, clínico, que não se baseia em um único sintoma. É preciso observar um padrão persistente de comportamentos que se manifestam em diferentes ambientes, como em casa e na escola ou trabalho.

Em crianças, os sinais mais evidentes costumam ser: 

Desatenção: Parece não ouvir quando chamado, distrai-se com facilidade, tem dificuldade em terminar tarefas, perde objetos com frequência.

     Hiperatividade/Impulsividade: Inquietação constante, não consegue ficar sentado, fala excessivamente, interrompe os outros e tem dificuldade em esperar sua vez.

Em adultos, os sintomas podem se manifestar de forma diferente:

      Desatenção: Dificuldade de organização e planejamento, procrastinação crônica, esquecimento de compromissos e prazos, sensação de estar sobrecarregado.

      Inquietude interna: A hiperatividade física pode dar lugar a uma sensação constante de agitação mental.

      Impulsividade: Pode se manifestar em decisões financeiras precipitadas, mudanças abruptas de emprego ou dificuldade em controlar as reações emocionais.

É importante ressaltar que a presença de alguns desses sinais não fecha um diagnóstico. A avaliação de um profissional qualificado é indispensável para diferenciar o TDAH de outras condições ou de comportamentos típicos de cada fase da vida.

4. Ainda hoje, no Brasil, a maior parte dos casos não é diagnosticada ou tratada corretamente. O que dificulta esse processo de diagnóstico precoce?

(Luti Christóforo) – Há falta de informação tanto entre pais quanto entre professores, além da escassez de profissionais especializados em algumas regiões. Outro fator é a resistência de famílias em aceitar o diagnóstico, muitas vezes por medo da medicalização. Em meu consultório, já recebi pacientes adultos que só descobriram o TDAH após uma investigação iniciada quando buscavam ajuda para ansiedade ou depressão.

(Bárbara Torres Silva) – O diagnóstico precoce do TDAH ainda é dificultado pela falta de informação, pelos mitos que cercam o transtorno, pela semelhança dos sintomas com outros quadros (como ansiedade e depressão) e pela escassez de profissionais capacitados. Isso faz com que muitas pessoas só recebam diagnóstico na vida adulta.

(Larissa Fonseca) – Faltam informação, capacitação profissional e acesso à saúde. Muitas escolas ainda atribuem sintomas à má educação. O problema é cultural: confundimos comportamento com caráter. A falta de diagnóstico leva à frustração e ao risco de desenvolver ansiedade ou depressão associados.

(Bárbara Niero) – A desinformação da população e dos profissionais de Saúde e educação sobre o quadro, além do mito de que é algo que deve passar sozinho.

(Luis Carlos da Silva) – Essa é uma realidade preocupante. Vários fatores contribuem para essa dificuldade. Primeiramente, muitos sintomas do TDAH, especialmente na infância, podem ser confundidos com comportamentos considerados “normais” da idade, como agitação ou distração.

Além disso, a falta de informação de qualidade e o estigma que ainda cerca os transtornos mentais fazem com que muitos pais hesitem em procurar ajuda, por medo de que o filho seja rotulado. Há também uma carência de profissionais especializados e de fácil acesso, principalmente no sistema público de saúde. Por fim, o diagnóstico em adultos é ainda mais complexo, pois os sintomas podem ser mascarados por outras condições, como ansiedade e depressão, que muitas vezes se desenvolvem como consequência de um TDAH não tratado.

5. Existe a ideia de que o TDAH “desaparece” na fase adulta. O que a ciência já comprova em relação à persistência do transtorno ao longo da vida?

(Luti Christóforo) – A ciência mostra que, em muitos casos, o transtorno persiste ao longo da vida. Estima-se que cerca de 50% a 60% das crianças diagnosticadas continuem apresentando sintomas na fase adulta. A intensidade pode variar, mas os impactos na organização, atenção e impulsividade geralmente permanecem.

(Bárbara Torres Silva) – O TDAH não desaparece na vida adulta. Estudos mostram que cerca de 60% das crianças com TDAH continuam apresentando sintomas na adolescência e na fase adulta, mesmo que eles se manifestem de forma diferente. O transtorno pode impactar trabalho, relacionamentos e vida cotidiana, mas com acompanhamento adequado é possível desenvolver estratégias de manejo eficazes.

(Larissa Fonseca) – Não. Em cerca de 60 a 70% dos casos, os sintomas persistem, embora mudem de forma. A hiperatividade pode dar lugar à inquietação interna, como a dificuldade de relaxar ou “desligar a mente”. Persistência é regra, não exceção.

(Bárbara Niero) – Para alguns casos, os desafios do TDAH são quase totalmente superados com a intervenção psicológica na infância, mas existem casos nos quais o diagnóstico é feito tardiamente na vida adulta e a pessoa ainda apresenta bastantes desafios. O que ocorre é que os prejuízos e comportamentos mudam de acordo com os diferentes momentos da vida, mas não que ele desaparece completamente para todos.

(Luis Carlos da Silva) – Esse é outro mito que precisa ser desfeito. A ciência comprova que o TDAH não “desaparece”. Estudos de longo prazo mostram que cerca de 60% a 70% das crianças diagnosticadas continuam a apresentar sintomas significativos na vida adulta.

O que acontece é uma mudança na forma como os sintomas se manifestam. A hiperatividade motora evidente da criança pode se transformar em uma inquietude interna, uma sensação de que a “mente não para”. A desatenção e a impulsividade, no entanto, tendem a persistir e a gerar grandes desafios na vida profissional, social e afetiva. Estudos, como o que você mencionou, são importantes por mostrarem que indivíduos com sintomas combinados (desatenção e hiperatividade) na infância têm um risco ainda maior de persistência do transtorno.

6. Muitas vezes o TDAH vem acompanhado de outras condições, como ansiedade ou depressão. Como o psicólogo deve olhar para esse paciente de forma integral?

(Luti Christóforo) – É comum o TDAH vir acompanhado de ansiedade, depressão ou baixa autoestima. Por isso, o psicólogo deve ter uma visão integral, compreendendo não só os sintomas centrais, mas também os prejuízos emocionais e sociais. Já acompanhei adultos que desenvolveram transtornos ansiosos por anos de tentativas frustradas de “se encaixar” em padrões de produtividade.

(Bárbara Torres Silva) – O psicólogo deve avaliar o paciente de forma integral, considerando não só os sintomas do TDAH, mas também possíveis condições associadas, como ansiedade, depressão ou dificuldades de autoestima. O objetivo é entender o impacto do transtorno na vida da pessoa e desenvolver estratégias personalizadas que contemplem todos os aspectos emocionais, cognitivos e comportamentais.

(Larissa Fonseca) – Ansiedade e depressão são frequentes, porque o esforço constante para lidar com sintomas gera sobrecarga emocional. O psicólogo precisa olhar o paciente de forma integral, entendendo não só o transtorno, mas também a autoestima, os vínculos e as estratégias de enfrentamento.

(Bárbara Niero) – Por meio do diagnóstico diferencial dos sintomas e identificando possíveis comorbidades, de forma a intervir de maneira adequada sobre cada demanda.

(Luis Carlos da Silva) – É fundamental. O TDAH raramente vem sozinho. Estima-se que até 85% dos adultos com TDAH tenham pelo menos uma comorbidade, sendo as mais comuns os transtornos de ansiedade, a depressão e o abuso de substâncias. Muitas vezes, a ansiedade e a depressão surgem como consequência das frustrações e dificuldades crônicas impostas pelo TDAH não tratado.

Como psicólogo, meu papel é olhar para o indivíduo em sua totalidade, considerando seu contexto biopsicossocial. Isso começa com um acolhimento empático ao paciente e sua família, validando suas lutas. A partir daí, realizamos uma avaliação detalhada para entender não apenas os sintomas do TDAH, mas também como eles interagem com outras condições e com a história de vida da pessoa. O plano terapêutico deve ser personalizado e, quase sempre, multidisciplinar, envolvendo médicos, psicopedagogos e outros profissionais para oferecer um cuidado verdadeiramente integrativo.

7. Quando falamos em tratamento, muito se discute sobre a medicação. Qual o papel dos psicólogos no tratamento multimodal e como a psicoterapia pode auxiliar no dia a dia do paciente?

(Luti Christóforo) – O tratamento do TDAH é multimodal, envolvendo medicação em muitos casos, mas também psicoterapia, orientações familiares e adaptações escolares ou laborais. O psicólogo atua oferecendo estratégias para organização, regulação emocional e autoconhecimento. Muitas vezes, a psicoterapia ajuda o paciente a desenvolver novas formas de lidar com a rotina e a recuperar a autoestima.

(Bárbara Torres Silva) – No tratamento do TDAH, a medicação ajuda a controlar os sintomas, mas a psicoterapia é essencial para o manejo diário. O psicólogo trabalha estratégias de organização, controle da impulsividade, habilidades sociais, regulação emocional e apoio à autoestima, promovendo um tratamento multimodal mais eficaz e duradouro.

(Larissa Fonseca) – A medicação regula os neurotransmissores, mas não ensina a lidar com as demandas do dia a dia. A psicoterapia ajuda a criar estratégias de organização, manejo de emoções e autocontrole. É no consultório que o paciente aprende a transformar o diagnóstico em possibilidade de vida funcional. O remédio ajusta o volume, a terapia ensina a dançar com a música.

(Bárbara Niero) – Por meio de estratégias de intervenção psicológica, o tratamento pode auxiliar na modificação comportamental, aceitação do diagnóstico e autoconhecimento, auxiliando na qualidade de vida e na superação das dificuldades. Vale lembrar que não existem evidências científicas de que somente o tratamento medicamentoso surta efeitos nos casos de TDAH. É preciso um conjunto de intervenções.

(Luis Carlos da Silva) – O tratamento mais eficaz para o TDAH é o multimodal, que combina diferentes abordagens. A medicação, quando indicada por um médico, é uma ferramenta importante para regular os neurotransmissores e melhorar a atenção e o controle de impulsos. No entanto, ela não ensina habilidades.

É aí que entra o papel fundamental da psicoterapia. Através de abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), ajudamos o paciente a compreender seu funcionamento e a desenvolver estratégias práticas para o dia a dia. Isso inclui aprender a se organizar, gerenciar o tempo, controlar a impulsividade, regular as emoções e melhorar as habilidades sociais. A terapia oferece um espaço seguro para o paciente trabalhar a autoestima, lidar com as frustrações e reconstruir uma narrativa mais positiva sobre si mesmo.

8. O vínculo entre terapeuta e paciente é essencial no processo terapêutico. Como esse vínculo influencia na adesão e nos resultados do tratamento?

(Luti Christóforo) – O vínculo de confiança entre paciente e psicólogo é essencial. Quando o paciente se sente compreendido, tende a aderir melhor às estratégias propostas e a se engajar no processo. Em consultório, vejo a transformação de crianças que antes se sentiam “incapazes”, mas ao encontrarem acolhimento passam a acreditar em seu próprio potencial.

(Bárbara Torres Silva) – Um vínculo seguro e de confiança entre terapeuta e paciente é fundamental. Ele aumenta a adesão ao tratamento, motiva a prática das estratégias sugeridas e potencializa os resultados, ajudando o paciente a se sentir acolhido, compreendido e apoiado durante todo o processo.

(Larissa Fonseca) – Sem vínculo, não há adesão. O paciente com TDAH precisa sentir-se compreendido e acolhido, porque já acumulou uma vida de críticas. O vínculo é o espaço seguro que permite enfrentar os desafios sem medo de julgamento.

(Bárbara Niero) – Da mesma forma que em outros quadros clínicos, se o vínculo não está bem estruturado e seguro, o paciente terá maior resistência e dificuldade em aderir às propostas do terapeuta, trazer relatos sinceros das dificuldades e sentimentos, o que compromete a eficácia terapêutica.

(Luis Carlos da Silva) – Sua observação é perfeita: a influência é total. O vínculo terapêutico, ou a aliança terapêutica, é o alicerce de todo o processo. Sem um “encontro” genuíno, baseado em empatia, confiança e respeito mútuo, a terapia não acontece. Para uma pessoa que cresceu ouvindo que era “preguiçosa” ou “desinteressada”, encontrar um espaço onde se sinta compreendida e acolhida sem julgamentos é transformador.

Quando esse vínculo é estabelecido, o paciente e sua família se sentem seguros para compartilhar suas vulnerabilidades, se engajar nas tarefas propostas e se permitir experimentar novas formas de ser e de se relacionar. Essa confiança é o que motiva a adesão ao tratamento e permite que juntos, terapeuta e paciente, possam traçar novas rotas, ressignificando não apenas as dificuldades, mas também as potencialidades que o TDAH pode trazer.

9. Família e escola são fundamentais no suporte a crianças e adolescentes com TDAH. Quais orientações você daria para pais e professores nesse acompanhamento?

(Luti Christóforo) – Pais e professores devem compreender que o TDAH não é preguiça nem desobediência. É fundamental criar rotinas previsíveis, oferecer instruções claras e reconhecer os avanços. A valorização dos pequenos progressos ajuda muito na motivação da criança. Já orientei famílias a utilizarem quadros visuais de rotina em casa, o que trouxe grande melhora na organização da criança.

(Bárbara Torres Silva) – Pais e professores devem oferecer rotina, organização e reforço positivo, além de compreender que o comportamento não é intencional. A comunicação aberta entre família, escola e profissional de saúde é essencial para apoiar a criança ou adolescente, ajudando no aprendizado, na autoestima e no desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais.

(Larissa Fonseca) – A criança com TDAH precisa de rotina clara, reforço positivo e compreensão. Pais e educadores devem evitar comparações e críticas excessivas. Orientar é mais eficaz que punir. O TDAH não melhora com bronca, melhora com estrutura e afeto.

(Bárbara Niero) – Busque ajuda profissional para o diagnóstico, não por meio da internet ou redes sociais. O profissional capacitado saberá orientar a família e a escola sobre as acomodações necessárias e mudanças na vida cotidiana para trabalhar os desafios e buscar melhorias significativas.

(Luis Carlos da Silva) – Pais e professores são os pilares da rede de apoio. A orientação que eu daria é baseada em três palavras: informação, parceria e paciência.

Para os pais: Busquem informação de qualidade para entender o que é o TDAH. Criem rotinas estruturadas e previsíveis, pois isso ajuda a organizar o cérebro da criança. Reforcem as conquistas, por menores que pareçam, e mantenham um diálogo aberto e amoroso. Participaram ativamente do tratamento e são os maiores defensores dos direitos e das necessidades de seus filhos na escola.

Para os professores: É crucial buscar conhecimento sobre o TDAH e solicitar adaptações pedagógicas. Coisas simples como sentar o aluno perto do professor, longe de distrações, dividir tarefas longas em etapas menores, usar estímulos visuais e permitir pequenas pausas para movimento podem fazer uma enorme diferença. O foco deve ser em reconhecer e apoiar o desenvolvimento das potencialidades do aluno, e não apenas em suas dificuldades. É preciso olhar os resultados de forma global e não apenas as notas.

Para ambos, a chave é a comunicação constante e a construção de uma abordagem integrada com os profissionais de saúde, formando uma verdadeira equipe em prol do bem-estar da criança e do adolescentes.

10. E no ambiente de trabalho, quais estratégias podem ajudar o adulto com TDAH a lidar melhor com organização, prazos e produtividade?

(Luti Christóforo) – Adultos com TDAH podem se beneficiar do uso de agendas digitais, listas de tarefas curtas, pausas programadas e ambientes com menos distrações. Também é útil dividir tarefas grandes em etapas menores, estabelecendo prazos realistas. Tenho pacientes que, ao adotar essas estratégias, relatam um salto significativo na produtividade e na sensação de controle.

(Bárbara Torres Silva) – No trabalho, adultos com TDAH se beneficiam de estratégias como: dividir tarefas em etapas, usar lembretes e agendas, criar rotinas, priorizar atividades e fazer pausas programadas. O objetivo é aumentar a organização, cumprir prazos e melhorar a produtividade sem sobrecarga.

(Bárbara Niero) – O uso de ferramentas variadas para analisar qual funciona melhor: lembretes físicos como post-its, alarmes no celular, dividir o acompanhamento das tarefas com outro colega que possa auxiliar na gestão de tempo, além do diálogo aberto com a gestão sobre os desafios e potencialidades do profissional, de forma a ajustar a rotina de trabalho.

(Larissa Fonseca) – Ferramentas de organização visual, divisão de tarefas em blocos menores, uso de lembretes e pausas programadas. O ambiente precisa ser adaptado para minimizar distrações. É sobre aprender a usar o cérebro a favor, não contra.

(Luis Carlos da Silva) – Para o adulto, o primeiro passo é o autoconhecimento: entender seus próprios padrões, desafios e, principalmente, seus pontos fortes. A partir daí, é possível desenvolver estratégias personalizadas. Algumas que costumam funcionar bem são:

Gestão de Tarefas: Utilizar ferramentas como agendas, aplicativos ou listas para externalizar o planejamento. Dividir grandes projetos em tarefas menores e mais gerenciáveis.

Gestão do Tempo: Usar técnicas como a do “timer” para manter o foco em blocos de tempo e programar alarmes para lembrar de compromissos. Identificar o período do dia de maior produtividade e reservar esse tempo para as tarefas mais exigentes.

Organização do Ambiente: Manter a mesa de trabalho limpa e organizada, com um lugar designado para cada coisa, para minimizar as distrações.

Autocuidado: Praticar exercícios físicos, ter uma boa higiene do sono e fazer pausas regulares são fundamentais para regular a energia e o estresse.

11. Para encerrarmos: qual a importância da conscientização pública sobre o TDAH e como a informação pode transformar a vida de quem convive com o transtorno?

(Luti Christóforo) – A informação é uma das maiores ferramentas de transformação. Quanto mais a sociedade compreender que o TDAH é um transtorno real e que existem tratamentos eficazes, menor será o preconceito e maior será a chance de diagnóstico precoce. Isso pode mudar radicalmente a vida de quem convive com o transtorno, permitindo que essas pessoas desenvolvam seu potencial de forma saudável e produtiva.

(Bárbara Torres Silva) – A conscientização sobre o TDAH é fundamental para reduzir o estigma, promover diagnósticos precoces e garantir apoio adequado. Informação correta ajuda famílias, escolas e sociedade a entenderem o transtorno, oferecendo estratégias que transformam a vida de quem convive com ele, melhorando a auto estima, desempenho e qualidade de vida.

(Larissa Fonseca) – Informação combate preconceito. Quando falamos abertamente sobre o TDAH, permitimos que crianças, adolescentes e adultos deixem de carregar culpa e busquem tratamento adequado. A conscientização salva futuros. O diagnóstico não define quem você é, mas pode libertar quem você sempre quis ser.

(Bárbara Niero) – A conscientização é essencial para promover o acolhimento e cuidado com pessoas que sofrem deste transtorno, além da criação e implementação de políticas públicas de saúde e na escola para inclusão, acompanhamento e superação dos desafios em todas as faixas etárias.

(Luis Carlos da Silva) – A conscientização é a chave que abre todas as portas. Informação correta e acessível tem o poder de transformar vidas porque combate o estigma, que é a maior barreira. Quando a sociedade entende que o TDAH não é uma falha de caráter, mas uma condição neurobiológica, substituímos o julgamento pela empatia.

A informação ilumina as sombras do medo e da culpa, encorajando as pessoas a buscarem um diagnóstico precoce e o tratamento adequado. Ela promove a aceitação nas famílias, a inclusão nas escolas e a adaptação nos locais de trabalho. Precisamos de mais políticas públicas de esclarecimento e apoio, para que aqueles que não vivem essa realidade possam conhecer, acolher e colaborar. Porque, no fim das contas, ao criarmos um mundo mais inclusivo para quem tem TDAH, estamos criando um mundo melhor e mais humano para todos.

Fonte: 

ANDRADE, Alline Schineider Ribeiro de; SILVA, Marcos Pereira da. Impactos dos sintomas do TDAH na vida adulta: desafios e a contribuição da Terapia Cognitivo-Comportamental. [S. l.: s. n.], 2025. Disponível em: https://unifasc.edu.br/wp-content/uploads/2025/02/26-ARTIGO-PSICOLOGIA-IMPACTOS-DOS-SINTOMAS-DO-TDAH-NA-VIDA-ADULTA-DESAFIOS-E-A-CONTRIBUICAO-DA-TERAPIA-COGNITIVO-COMP.pdf. Acesso em: 12 set. 2025.

BARKLEY, R. Vencendo o TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade. Artmed: 2011. 244 p

Agradecimentos

  • Aroldo Glomb da Agência Toda Comunicação
  • Veronica Pacheco – Jornalista
  • Leonardo Carvalho – Jornalista
  • Luti Christóforo

Psicólogo clínico

WhatsApp: (41) 99809-8887

Instagram: @luti.psicologo

e-mail: lutipsicologo@gmail.com

YouTube: YouTube.com/@lutipsicologo

Larissa Fonseca – Psicóloga Clínica 

WhatsApp:  (11) 97225-5555

Bárbara Torres Silva – Psicóloga Clínica 

WhatsApp:  (31) 9748-3933

@psicologabarbaratorressilva

Bárbara Niero, coordenadora do curso de psicologia da FMU

Instagram: @psicofmu

FMU – (Instagram: https://www.instagram.com/fmu_oficial?igsh=dnhkZDBxaGR5anQy)

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *