Sob a presidência brasileira, bloco deseja reposicionar países do Sul Global no cenário global e reforçar o multilateralismo.
A Cúpula do Brics terminou nesta segunda-feira (7), no Rio de Janeiro, em meio às constantes críticas de lideranças americanas. Veículos como The Economist e Washington Post têm publicado reportagens que questionam a popularidade do presidente brasileiro e a democracia do país. No mesmo tom, Trump, também tem declarado seu desprezo ao Brasil e reforçando sua oposição ao Brics, afirmando que os países que compõem o bloco possuem políticas anti-americanas.
Isso, porém, não é novidade. O presidente americano mantém, já há um tempo, uma postura critica em relação ao Brics, organização criada para impulsionar politicamente e economicamente a posição internacional do Sul Global. Contudo, seu descontentamento se intensificou com a entrada de adversários políticos dos EUA no bloco, como o Irã.
Do Bric ao Brics: ampliação e objetivo atual
Formado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o bloco expandiu sua lista de membros no ano passado, passando a incluir Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. A entrada de países do Oriente Médio, ricos em reservas de petróleo, acrescenta peso geopolítico ao grupo no cenário internacional.
O termo Brics foi criado por um economista do banco Goldman Sachs, que identificou Brasil, Rússia, Índia e China como países com potencial para crescer economicamente e se tornar potências globais. O primeiro encontro entre esses quatro países ocorreu durante a Assembleia Geral da ONU, em 2006, em Nova York, com o objetivo de dialogar sobre temas da agenda internacional.
A partir da crise financeira de 2008, os então quatro países passaram a atuar de forma articulada, apresentando propostas para reformar a ordem financeira internacional e aumentar a representatividade das economias emergentes.
Em 2009, os líderes desses países formalizaram a criação do bloco Bric, na primeira reunião oficial do grupo, realizada na Rússia. Dois anos depois, em 2011, a África do Sul foi incorporada, e o nome passou a ser Brics. Atualmente, o grupo atua em três eixos prioritários: política e segurança, economia e sociedade civil.
Brics sob críticas: entrada de novos países preocupa potências internacionais
Se, para o bloco, a ordem internacional precisa ser reformada para ampliar a representatividade dos países do Sul Global, para alguns essa proposta é vista como uma ameaça.
A invasão da Ucrânia pela Rússia, a guerra econômica entre Estados Unidos e China e, mais recentemente, os conflitos envolvendo o Irã são episódios que alimentam a narrativa de que os Brics formam um “bloco antiamericano”. E houve eventos que reforçam essa interpretação. A hesitação de países como China e Irã em condenar a ofensiva russa atraiu críticas internacionais.
Outro episódio que contribuiu para essa imagem foi a entrada do Irã no bloco, em 2024. O país, um dos mais sancionados do mundo, encontrou no Brics uma oportunidade de buscar apoio político.
Durante a Cúpula dos Brics no Rio de Janeiro, no último fim de semana, os líderes criticaram as tarifas impostas pelos EUA, afirmando que elas ameaçam a estabilidade econômica global. Além disso, o bloco condenou os ataques militares realizados por Israel e pelos EUA contra o Irã em junho. A tensão aumentou após o bloco defender reformas no FMI, maior valorização de moedas além do dólar e condenar as políticas tarifárias americanas.
Entre críticas e apoios, Brics se apresenta como multilateral e inclusivo
Em um artigo recente publicado na revista do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, refutou a ideia de que os Brics sejam um bloco antiocidental. “O absurdo do estereótipo, derivado de análises apressadas ou interessadas, não resiste ao fato de que nenhum bloco que reúna integrantes com a trajetória diplomática e o perfil de países como o Brasil, a África do Sul e a Índia pode ser considerado contrário ao Ocidente”, afirmou.
Na Cúpula dos Brics realizada em Kazan, na Rússia, em 2024, o presidente Vladimir Putin reforçou esse discurso ao citar uma declaração do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Segundo ele, “os Brics nunca foram sobre ser contra ninguém. O primeiro-ministro da Índia tem dito que o Brics não é um grupo antiocidental: ele é apenas um grupo não-ocidental”. Na ocasião, a agência Bloomberg também registrou a preocupação de Modi para que o bloco cuide de sua imagem e evite interpretações equivocadas sobre seus objetivos.
Apesar de a inclusão de países como Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Cuba preocupar economistas e lideranças políticas, alguns especialistas afirmam que a heterogeneidade dos Brics tende a aumentar com a entrada de novos membros e consequentemente seu poder geopolítico.
Medidas tarifárias dos EUA contra os Brics
Neste domingo (6), Trump anunciou que países alinhados às políticas dos Brics que contrariem os interesses americanos enfrentarão uma tarifa adicional de 10% sobre suas exportações. A medida, segundo ele, não terá exceções e começa a valer a partir de 1º de agosto, após meses de adiamentos.
Apesar das pressões, especialistas afirmam que romper laços comerciais com países como a China será difícil. “Afastar-se da China em setores como veículos elétricos, baterias e terras raras é muito mais complicado do que parece”, disse Andrew Wilson, da Câmara Internacional do Comércio.
Em 2024, Trump já havia ameaçado impor tarifas de até 100% se o bloco adotasse uma moeda própria rivalizando com o dólar.













5 Comentários
Uau, que matéria bem informada!
👏🏻👏🏻👏🏻
Excelente análise, clara e oportuna sobre os bastidores da cúpula do BRICS. Com uma abordagem equilibrada, o texto destaca não apenas as ausências estratégicas de líderes como Xi Jinping e Putin, mas também evidencia como a tensão com os Estados Unidos, especialmente após as declarações de Donald Trump, deu um novo peso político ao encontro. É louvável a forma como a matéria contextualiza o papel do Brasil nesse cenário delicado, mostrando o esforço do país em manter o equilíbrio diplomático diante de interesses globais conflitantes. Uma leitura informativa e bem construída, que contribui para o entendimento do momento geopolítico atual. Parabéns.
Sensacional 👏👏👏
Matéria bem elaborada e explorada! Muito boa notíciada!