Ato reuniu milhares de mulheres negras no dia 25 e reforçou denúncias sobre violência, desigualdade racial e a urgência de políticas públicas
Nesta terça feira (25), a Esplanada dos Ministérios se tornou o centro da mobilização nacional de mulheres negras durante a Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.
O ato reuniu representantes de todas as regiões do país quilombolas, lideranças comunitárias, coletivos feministas, organizações da sociedade civil, mulheres de religiões de matriz africana e jovens ativistas em defesa de justiça racial, equidade de gênero e políticas públicas eficazes.
Ao mesmo tempo que a mobilização ganha força, os números da violência contra mulheres negras seguem alarmantes no Brasil. De acordo com o Atlas da Violência 2024, mulheres negras representam 67% das vítimas de feminicídio no país. O estudo também mostra que mulheres negras têm 2,6 vezes mais chances de serem vítimas de violência letal do que mulheres brancas.
No campo institucional, a violência política de gênero e raça também apresenta crescimento. Dados do Observatório da Violência Política Contra Mulheres (TSE/ONU Mulheres) apontam que, nas eleições de 2024, quase 40% das candidatas negras relataram ameaças, ataques virtuais ou assédios relacionados à cor da pele e ao fato de serem mulheres.
Esses índices reforçam as pautas históricas da Marcha, que desde sua primeira edição em 2015 reivindica o enfrentamento ao racismo estrutural, ao sexismo, à violência policial e à desigualdade socioeconômica que afeta de forma desproporcional as mulheres negras.
O Instituto Marielle Franco (IMF) marcou presença com uma ala própria composta pelas chamadas sementes de Marielle. O bloco foi conduzido por três gerações da família Franco: a deputada federal Benedita da Silva, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e Luyara Franco, diretora executiva do Instituto e filha de Marielle, acompanhada da avó, Dona Marinette.

“Não há democracia sem mulheres negras. Estamos marchando por reparação e por bem viver”, afirmou Luyara Franco. “Cada passo aqui carrega a força das mulheres que nos antecederam. Esta Marcha é o nosso grito coletivo por justiça e dignidade, e a prova viva de que a memória da minha mãe segue florescendo em cada uma de nós.”
A ministra Anielle Franco reforçou a importância de transformar dor em mobilização coletiva e destacou a necessidade de políticas públicas que garantam proteção e segurança, sobretudo diante da violência que afeta mulheres negras em seus territórios.
Durante o ato, o Instituto apresentou o Memorial Vivo , As Rosas da Resistência Nascem do Asfalto, uma intervenção pública que reuniu histórias pessoais em um grande arquivo colaborativo. O destaque foi a Bike de Memórias, ação interativa que convidou participantes a registrar suas trajetórias por meio de objetos simbólicos.
Cada mulher escolheu um item representativo, identificou com nome e contato e o depositou na Bike de Memórias. O material reunido será transformado em uma futura exposição e em um minidocumentário sobre o ativismo das mulheres negras.
“A cada objeto recolhido, afirmamos que nossa memória não é descartável. É política, é resistência e precisa ser reconhecida pelo Brasil”, declarou Luyara Franco.
Após o percurso pela Esplanada, a programação continuou na área externa do Museu Nacional com apresentações de artistas negras. No fim do dia, uma comitiva da Marcha participou de audiência com o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, para apresentar demandas urgentes relacionadas à política de segurança pública e seus impactos sobre a vida das mulheres negras.
Por: Ana Paula Batista | 30 de Novembro de 2025












