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Quem é Ana Maria Gonçalvez? A  primeira mulher negra eleita “Imortal” pela ABL 

Uma conquista histórica para a literatura afro-brasileira e um marco na centenária Academia Brasileira de Letras.  

A escritora, dramaturga e roteirista Ana Maria Gonçalves, nasceu em 1970, na cidade de Ibiá (MG), mas foi em São Paulo que deu inicio na sua carreira como publicitária. Em 2002, deixou a profissão e partiu para a Ilha de Itaparica, na Bahia, onde encontrou inspiração e descobriu vocação para a escrita. Sua estreia na literatura foi com o livro “Ao Lado e à Margem do Que Sentes Por Mim” (2002) ,uma ficção autobiográfica, lançado de forma independente.   

Após cinco anos de pesquisa e escrita, publicou o romance “Um Defeito de Cor”(2006),vencedor do Prêmio Casa de las Américas (2007), em Cuba, e eleito como melhor livro de literatura brasileira do século 21 por júri da Folha de S.Paulo. 

Além dos prêmios, o livro serviu de inspiração para o enredo da escola de samba Portela no carnaval de 2024, que na época liderou a lista de livros mais vendidos no site da Amazon. 

Em suas 951 páginas, “Um Defeito de Cor” narra a história de Kehinde, com detalhes da sua captura, a vida como escravizada, amores, desilusões, sofrimentos, viagens em busca de um de seus filhos e de sua religiosidade; além de sua luta pela alforria e, na volta para a África. A trama é inspirada na figura de Luísa Mahin, liderança da Revolta dos Malês (1835), e mãe do poeta Luís Gama.  

Ao longo da carreira, publicou contos em Portugal, Itália, nos EUA e ministrou cursos e palestras sobre questões raciais. Foi escritora residente em universidades dos Estados Unidos – Tulane (2007), Stanford (2008) e Middlebury College (2009). Em 2013 ganhou uma homenagem  pelo governo brasileiro com a comenda da Ordem de Rio Branco, em reconhecimento à sua atuação na causa antirracista. Também se aventurou no teatro, com peças como Tchau, Querida!, de 2016, e Chão de Pequenos, de 2017.   

Atualmente, Ana Maria atua como roteirista (Rio Vermelho) e professora de escrita criativa, além de ser co-curadora da exposição “Um defeito de cor” (MAR – Museu de Arte do Rio de Janeiro; MUNCAB – Salvador e SESC Pinheiros – SP), eleita como a melhor exposição de 2022, possui um grande impacto na literatura por trazer um texto profundo sobre temas como escravização de pessoas negras, racismo, ancestralidade e resistência.

A eleição  

Na última quinta-feira,10, Ana Maria Gonçalvez, um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea ,se tornou a primeira mulher negra a integrar a respeitada Academia Brasileira de Letras (ABL), fundada em 1986.A mais jovem entre os “imortais” ocupará a Cadeira nº 33, que pertencia ao professor, filólogo e gramático, Evanildo Bechara, falecido em maio.  

A mineira, de 55 anos, recebeu 30 dos 31 votos possíveis. O outro voto foi para Eliane Potiguara, escritora de “Conhori e as icamiabas: Guerreiras da Amazônia” (2025). Ruy da Penha Lobo, Wander Lourenço de Oliveira, José Antônio Spencer Hartmann Júnior, Remilson Soares Candeia, João Calazans Filho, Célia Prado, Denilson Marques da Silva, Gilmar Cardoso, Roberto Numeriano, Aurea Domenech e Martinho Ramalho de Melo eram os outros escritores que concorriam a vaga.   

A cerimônia oficial de posse, ainda não teve data definida pela ABL. Em sua atuação como acadêmica, ela pretende contribuir para o fortalecimento das literaturas africanas e afro-brasileiras no cânone nacional.   

Mulheres na ABL  

A entrada da escritora na ABL, mostra a abertura da instituição para escutar e prestigiar diversas literaturas. Em seus 127 anos de existência, Ana Maria é a 13ª mulher eleita e uma das cinco em exercício na atual formação. As 12 mulheres que já se tornaram “imortais” são; Rachel de Queiroz; Nélida Piñon; Lygia Fagundes Telles; Dinah Silveira de Queiroz; Zélia Gatai; Ana Maria Machado; Rosiska Darcy de Oliveira; Fernanda Montenegro; Heloisa Teixeira; Lilia Schwarcz; Cleonice Berardinelli; e Míriam Leitão.   

“Vem uma grande historia na cabeça até aqui, de pensar na menininha leitora que eu fui e pensar o que ela diria se tivesse vendo essa história de hoje acontecer. Eu acho que eu não venho sozinha, venho a partir de uma tradição em que a gente louva, respeita e traz junto toda uma ancestralidade, toda… É uma honra e uma responsabilidade, e é uma alegria de estar lá junto com todo mundo que vem junto comigo”, expressou emocionada, Ana Maria Gonçalves em entrevista ao Jornal Nacional (Rede Globo).  

Celebrações   

“Quem é que tem um livro que desfila na Sapucaí? Quem tem um livro que foi eleito o livro mais importante desse primeiro quartel do século 21? Enfim, uma intelectual ativa, atuante, diversa, plural e que vai mostrar como uma instituição como a ABL é aberta ao passado, de olho nesse nosso presente mas que quer mesmo é abocanhar o futuro. E o futuro no Brasil só pode ser diverso”, destacou a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, em entrevista ao Jornal Nacional (Rede Globo).  

“Acredito, no caso específico dela, dessa extraordinária literata que foi eleita hoje, uma ampliação muito grande da presença da Academia na vida brasileira. Junto aos leitores, junto aos apreciadores da literatura, aos apreciadores das discussões sobre integração”, afirma o cantor e compositor Gilberto Gil, em entrevista ao Jornal Nacional (Rede Globo).   

“A Academia Brasileira de Letras acertou em cheio ao eleger Ana Maria Gonçalves como sua nova imortal. Trata-se de uma homenagem merecida, de um justo reconhecimento a uma das melhores escritoras que temos hoje .A obra de Ana Maria Gonçalves nos ajuda a compreender a história brasileira, infelizmente marcada pelas mazelas do racismo e da opressão. O livro Um Defeito de Cor foi meu companheiro durante o período em que estive injustamente preso em Curitiba, e sempre faço questão de recomendar a todos a sua leitura. Meus parabéns, grande escritora!”, parabenizou o presidente, Luiz Inácio Lula da Silva.  

“Ana Maria Gonçalves foi eleita imortal pela Academia Brasileira de Letras (ABL). A primeira mulher negra a ter esse reconhecimento. Que a chegada de Ana Maria inaugure um tempo de valorização de escritoras negras nesse espaço!”, celebrou a ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo.  

“Histórico! Ana Maria Gonçalves, autora de Um Defeito de Cor, é a primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras. Uma conquista para a literatura, para a memória do nosso povo e para esse Brasil que já está mudando: mais justo, mais plural e com a nossa cara!”, comentou a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco

Fonte : Academia Brasileira de Letras

Foto: Tânia Rego/Agência Brasil 

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