De Sherlock a Squid Game, entenda como a promessa de representatividade LGBTQIA+ muitas vezes não passa de uma provocação sem entrega
Você já assistiu a uma série em que dois personagens do mesmo gênero têm uma forte tensão e química, onde trocam olhares e dividem momentos íntimos, mas nada acontece? Nenhum romance é confirmado, nenhuma relação é assumida e, no fim, tudo parece ter sido só uma provocação que nunca se realiza? Isso tem nome: queerbaiting.
O termo, que se popularizou a partir dos anos 2010, é usado para descrever uma estratégia comum em filmes, séries e até livros que insinuam uma relação queer para atrair o público LGBTQIA+, mas sem desenvolver essa relação de fato. O objetivo? Gerar engajamento sem se comprometer a representatividade ou provocar negativamente a audiência heterossexual e conservadora, trazendo assim mais lucro para a emissora.
Mas por que isso ainda acontece em 2025? E quais são os casos mais emblemáticos dessa prática na cultura pop?
O que é queerbaiting, afinal?

Finn e Poe em “Guerra nas Estrelas: A Ascensão Skywalker” | Imagem: Reprodução
O termo vem da junção das palavras queer (termo para identidades LGBTQIA+) e bait (isca). Ou seja: uma isca queer. É quando uma narrativa sugere intenções românticas, sexuais ou afetivas entre personagens do mesmo gênero, mas recua antes de qualquer confirmação.
O queerbaiting muitas vezes aparece em olhares prolongados, toques simbólicos, diálogos ambíguos e interações que parecem flertar com o romance, mas nunca o concretizam. O resultado é um tipo de jogo com o público, especialmente com os fãs LGBTQIA+ que anseiam por se ver representados na tela.
É importante diferenciar queerbaiting de representações queer mal escritas, ou de relações de amizade intensa. O problema aqui é a intenção de provocar e explorar expectativa sem entrega real.
Casos marcantes da cultura pop

Beca e Chloe em “A Escolha Perfeita” | Imagem: Reprodução
Um dos exemplos mais lembrados é a série Sherlock, da emissora BBC, onde o relacionamento entre Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) e John Watson (Martin Freeman) foi tratado com uma ambiguidade constante. O roteiro jogava com o flerte, os silêncios, o ciúme e as brincadeiras sobre sexualidade, mas nunca desenvolvia uma relação romântica entre os dois. Isso gerou frustração em parte do público e a sensação de ter sido enganado, já que muitos fãs realmente acreditaram que existia uma chance dos dois se tornarem um casal canon, ou seja: um casal de verdade.
Outro caso emblemático é Supernatural, onde a relação entre Dean Winchester (Jensen Ackles) e Castiel (Misha Collins) acumulou anos de insinuações. A comoção foi tanta que, ao final da série, Castiel chega a declarar seu amor por Dean… mas a cena é logo encerrada e a trama nunca avança nesse sentido com um final concreto para os dois. Para muitos fãs, foi o ápice do queerbaiting.
Em Pitch Perfect, a relação entre Beca (Anna Kendrick) e Chloe (Brittany Snow) também ganhou destaque nos fandoms, especialmente na comunidade sáfica e lésbica. O roteiro flertava com o casal em diversas cenas, mas usava esse vínculo apenas como fanservice, e nunca como representação legítima.
Essas obras não são isoladas: o queerbaiting se tornou quase um “recurso narrativo” de muitas produções ao longo dos anos 2010, e é comum em universos com grandes fandoms, como os das séries adolescentes, fantasia, super-heróis e ficção científica.
Nas produções mais recentes

Gi-hun e In-ho na segunda temporada de “Round 6” | Imagem: Reprodução
Apesar de avanços na representatividade, o queerbaiting ainda não desapareceu, ele apenas mudou de forma.
Em Succession, por exemplo, a relação entre Tom Wambsgans (Matthew Macfadyen) e Greg Hirsch (Nicholas Braun) despertou discussões sobre a tensão homoafetiva entre os dois. Há uma carga emocional, trocas intensas, e frases ambíguas (“Eu te castraria e casaria com você num piscar de olhos”), mas a série nunca aborda o romance de forma direta. Embora não seja um caso clássico de queerbaiting, muitos fãs se sentiram provocados nesse sentido.
Um caso curioso também é o de Cobra Kai, série que desenvolve a rivalidade entre Daniel LaRusso (Ralph Macchio) e Johnny Lawrence (William Zabka) após os acontecimentos do filme de 1984, mas com uma nova camada emocional. Ao longo das temporadas, a relação entre os dois é construída ao redor de mágoas do passado, confiança crescente (principalmente nas últimas temporadas) e momentos de intimidade emocional inesperada. Muitos fãs passaram a enxergar ali uma tensão queer não assumida, alimentada por cenas de brigas e lutas que flertam com o homoerotismo, mas que nunca se concretiza.
Outro exemplo recente é Round 6 (Squid Game), com a relação ambígua entre Gi-hun (Lee Jung-jae) e o Frontman (Lee Byung-hun), que chamou a atenção do público queer. A dinâmica entre os dois se intensifica na segunda temporada, marcada por olhares longos, tensão psicológica e uma obsessão quase codependente que parece ultrapassar os limites do confronto entre vilão e protagonista. Embora não haja nenhuma confirmação sobre uma possível natureza romântica desse vínculo, a sugestão constante de algo mais íntimo gerou discussões nas redes sociais. Para muitos fãs, é mais um caso de queerbaiting disfarçado de complexidade narrativa.
O que essa prática revela sobre a indústria do entretenimento?

Emma e Regina em “Era uma Vez” | Imagem: Reprodução
O queerbaiting é um reflexo de uma era em que insinuar era mais seguro que representar. Mas em 2025, a audiência é mais crítica, mais conectada e menos tolerante a “iscas” sem entrega. Para o público LGBTQIA+, é preciso construir com intenção, respeito e verdade. Afinal, quem consome histórias quer se ver nelas de forma clara, honesta e sem joguinhos narrativos.
Plataformas como X (ex-Twitter), TikTok e o próprio AO3 (site de fanfics) têm sido espaços onde fãs discutem, expõem e protestam contra esse tipo de prática. Ao mesmo tempo, criadores e roteiristas enfrentam o desafio de incluir personagens queer com profundidade, sem cair em fórmulas fáceis e estereotipadas para “preencher cotas”.












