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Quando a nostalgia vira terror: conheça o Analog Horror

Fita VHS com estética de Analog Horror

Foto de Swapnil Sharma

Saiba mais sobre o gênero que invadiu o canal da Record News e causa medo com sua estética retrô

Imagine o seguinte cenário: você encontra uma misteriosa fita VHS. O conteúdo é um vídeo institucional antigo que faz um alerta inquietante. Pessoas estão enlouquecendo e tendo seus rostos deformados; criaturas lovecraftianas vagam à solta; e, misteriosamente, a gravação pede para que você não olhe para a lua… em hipótese alguma.

Os cinéfilos podem assimilar esse tipo de terror ao Found Footage, popularizado por filmes como A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal. Quem já passou tempo demais na internet de madrugada, talvez se lembre das creepypastas, histórias de terror fictícias que se espalham pela web como lendas urbanas digitais.

Na verdade, se trata de uma junção dos dois: o Analog Horror, ou terror analógico. Considerado um subgênero do Found Footage, ele recria a estética e formato da mídia analógica do final do século XX, como fitas VHS, vídeos institucionais e programas de TV antigos.

Algumas produções também funcionam como ARGs (Alternative Reality Games ou jogos de realidade alternativa), um tipo de narrativa interativa que se estende para o mundo real e permite com que os jogadores desvendem mistérios por meio de pistas e quebra-cabeças.

O formato do terror analógico aposta na nostalgia e na ilusão de realidade, colocando você, o espectador, como o protagonista dessa experiência imersiva e perturbadora.

The Wyoming Incident e o caso da Record

No dia 29 de julho, a transmissão no Youtube do Record News foi interrompida para o anúncio de uma “apresentação especial”, seguido por imagens de cabeças em modelagem 3D e mensagens inquietantes como “Você verá coisas tão bonitas” e “Você não pode se esconder para sempre”.

O vídeo, porém, trata-se de uma creepypasta de 2006, chamada “The Wyoming Incident”. A série ARG de seis vídeos curtos vinham acompanhados de uma lenda sobre uma suposta invasão a um canal de notícias de Wyoming, que causou alucinações e náuseas aos telespectadores que assistiram à transmissão.

Embora tenha surgido antes da popularização do termo, a estética granulada e figuras perturbadoras fizeram com que os fãs do gênero considerassem The Wyoming Incident um dos primeiros exemplos de Analog Horror na internet. Até hoje, não se sabe a identidade do criador do projeto, e nem dos autores da invasão ao Record News.

Outras influências

O filme A Bruxa de Blair (1999), dirigido por Eduardo Sánchez e Daniel Myrick, foi um marco para o Found Footage. Ao mostrar as filmagens “em primeira mão” de três estudantes investigando uma lenda local, criou uma imersão que se tornaria marca registrada do Analog Horror anos mais tarde.

Além do cinema, o autor H.P. Lovecraft também é uma grande influência para o subgênero. Conhecido pelo “horror cósmico”, suas obras trazem criaturas e terrores que vão além da compreensão humana, inspirando os antagonistas principais de inúmeras séries de terror analógico.

Personagem The Locust, do criador de terror Doctor Nowhere
Vídeo “[CONCEPT] TOE1“, de Doctor Nowhere

O que torna o Analog Horror interessante?

No documentário “The History of Analog Horror“, de Alex Hera, diversos criadores descreveram o gênero com uma experiência similar: o sentimento de nostalgia. A estética traz a lembrança de uma tecnologia que esteve presente na infância, mas que não foi devidamente experienciada.

“A tecnologia analógica funciona bem em transmitir o terror porque ele deixa muito para a imaginação. Sua baixa resolução mostra apenas o suficiente para desconcertar o espectador, enquanto mantém ambiguidade o suficiente para estimular sua imaginação”, disse Alex Kansas, criador de The Monument Mythos.

Além disso, o formato simples torna o gênero acessível para pequenos criadores: com um programa de edição e muita criatividade, qualquer um pode produzir sua própria narrativa. No início, era comum que os criadores não assinassem suas obras para manter a imersão do público, mas hoje nomes como Kris Straub (Local 58) e Alex Kister (Mandela Catalogue) já aparecem nos créditos.

Conheça as principais obras

Local 58 (Kris Straub)

Considerado o “pai” do Analog Horror, simula um programa de TV local interrompido subitamente por transmissões misteriosas e assustadoras. Em entrevista ao documentário “The Hystory of Analog Horror” (2002), Staub descreve: “Eu quero que você sinta que está assistindo TV à noite e a programação foi interrompida. E agora o problema é seu, como telespectador, não o de um personagem da história. Você é o personagem principal”.

The Walten Files (Martin Walls)

Inspirado no jogo Five Nights at Freddy’s, acompanha as fitas da empresa Bunny Smiles Company, dona do restaurante animatrônico Bon’s Burgers. A série chama atenção por suas animações e visuais assustadores.

Gemini Home Entertainment (Remy Abode)

Ambientada nos anos 80 e 90, apresenta gravações de fitas VHS da empresa fictícia Gemini Home Entertainment. Juntos, os vídeos revelam a trama de uma invasão alienígena comandada pelo planeta Iris, o principal antagonista da série

The Mandela Catalogue (Alex Kister)

Um dos responsáveis por popularizar o gênero, a série se passa na região fictícia de Mandela County. Os vídeos apresentam seres chamados ‘Alternates”, criaturas farsantes que atormentam humanos até os levar ao suicídio.

Backrooms (Kane Pixels)

Inspirada em uma postagem no 4chan, retrata um espaço além da realidade, composto por labirintos vazios e infinitos, explorados pelo instituto Async. Criado por Kane Parsons aos 17 anos, a série ganhou popularidade no Youtube e chamou atenção do estúdio A24, que assinou um contrato para adaptar a história em um longa-metragem


O Analog Horror nos convida a revisitar tecnologias familiares com um toque de desconforto, criando uma experiência única e quase pessoal. No fim, assistir a um terror analógico é como voltar a ser uma criança tentando entender o mundo a sua volta, na época em que tudo era desconhecido e difícil de compreender.

Se você se interessou, vale a pena colocar aquela velha fita no aparelho… mas esteja preparado para o que pode aparecer na tela.

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