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HQ Daruma aborda desafios da juventude brasileira através de protagonistas amarelos

Ilustração: Monge Han

Além da identidade racial, quadrinho retrata a complexidade da realidade brasileira por meio de personagens marcados pela resistência

Lançado em 2024 pela Editora Pitaya, selo da HarperCollins Brasil, o quadrinho Daruma – Perseverança marca de forma positiva e representativa a carreira do autor e ilustrador Monge Han. A obra retrata as dores e desafios enfrentados por jovens, com o protagonismo de personagens amarelos-brasileiros, e aborda temas como identidade, ancestralidade e perseverança.

A narrativa gira em torno de Yumi Santos Gushiken, uma jovem de 24 anos, torcedora do Corinthians e moradora da periferia de São Paulo. Após perder os pais, Yumi assume a responsabilidade pelos irmãos mais novos e enfrenta dificuldades para conciliar o trabalho com a vida pessoal. Em determinado momento da trama, Yumi recorre ao tradicional boneco japonês Daruma, símbolo de perseverança e realização de desejos. A partir desse gesto simbólico, a protagonista é levada a uma jornada que mistura fantasia com realidade, revisitando memórias e esperanças.

A ideia inicial do quadrinho surgiu a partir de uma busca por desenhos de tatuagem baseados em figuras do leste asiático. Nesse processo, veio à mente do autor a lembrança do Daruma, que já fazia parte da sua vida pessoal e, como consequência, a figura ganhou espaço para discutir temas importantes vivenciados na sociedade brasileira. “Eu imaginei uma menina com a máscara do Daruma e meio guerreira, que eu inicialmente desenhei para tatuagem. Quando eu fiz o primeiro desenho, vi que ficou um pouco diferente do que eu pensei inicialmente, mas, por fim, achei a figura muito marcante. Depois de ter desenhado a personagem com a máscara, fiquei pensando sobre a história dela. Pensei que ela poderia ser uma amarela-brasileira, que coloca essa máscara e tem alguns tipos de poderes. Também lembrei que nunca tinha visto uma história de ação com personagens amarelos-brasileiros”, explica Monge Han.

Yumi, além de protagonizar o quadrinho, representa também a luta de mulheres próximas da vida do autor, já que carrega vivências e experiências de algumas de suas amigas. “Tem muita coisa que eu escrevi sobre ela que é baseada em relatos e coisas que eu ouço de amigas, principalmente das que trabalham com atendimento ao público. Porque, nesses casos, muita gente se sente na liberdade de ser preconceituosa, violenta ou falar coisas constrangedoras para quem está em posição de pequeno poder”, afirma o autor.

Além das amigas, uma figura importante para a construção da trama foi a mãe de Monge Han, que inspirou parte da trajetória de Yumi. “Daruma mostra a experiência brasileira no geral. E a Yumi representa um pouco disso tudo. Tem muita coisa nela que é inspirada na minha mãe. Ela me criou como mãe solo e é uma das principais referências de perseverança que já vi. Foi muito trabalhadora e se colocou em segundo plano muitas vezes para conseguir me dar oportunidades e acesso aos estudos. Isso é algo que vivi em casa, mas que também é uma experiência muito brasileira. A maior parte das famílias brasileiras é composta por mães solo que trabalham muito”, destaca o autor.

Daruma traz em sua essência camadas da sociedade brasileira, com dilemas e dificuldades que refletem a realidade do país. É um quadrinho que vai além dos debates sobre identidade racial, retratando a vida de diversos brasileiros que, todos os dias, saem de casa para lutar por seus sonhos. O objetivo do autor é que não apenas a comunidade amarela-brasileira se veja refletida na narrativa, mas todo e qualquer brasileiro, independentemente de sua origem.

“Em Daruma, apresento personagens amarelos-brasileiros tão complexos e completos quanto pessoas reais. Tem um aspecto racial que reflete minha vivência e a vivência dessas amigas, mas eles também são apresentados como personagens brasileiros, com elementos da vida cotidiana que qualquer pessoa, sendo racializada ou não, vai reconhecer na Yumi. Minha tentativa com Daruma é essa também”, reforça Monge Han.

Nos quadrinhos, o símbolo que impulsiona essa esperança é o Daruma, mas ele não é representado como um gênio da lâmpada. Trata-se de um recurso simbólico que ajuda a personagem a manter viva a motivação em busca de seus objetivos. “Você faz um pedido, pinta um olhinho e coloca ele num lugar visível, para olhar e lembrar do seu desejo. De certa forma, aquilo fica na sua mente e te ajuda a criar essa perseverança para realizar o que você quer. Isso tem a ver com o próprio povo amarelo-brasileiro, especialmente as gerações que vieram para cá e precisaram perseverar em uma realidade difícil, enfrentando preconceito e barreiras linguísticas. E também com a figura do brasileiro em geral, que persevera muito”, explica.

Com 224 páginas, Daruma – Perseverança já é considerada uma das obras mais relevantes sobre a experiência amarela no Brasil. Em entrevista, Monge Han revelou que a HQ terá continuidade. A obra não apenas amplia o espaço para discussões sobre diversidade no cenário dos quadrinhos, como também oferece um retrato potente de uma juventude que, por muito tempo, foi silenciada.

SOBRE O AUTOR

Monge Han é designer e ilustrador amarelo-brasileiro, criador de histórias em quadrinhos, ilustrações, capas de livros e tirinhas. Descendente de coreanos, nasceu em Manaus e foi criado entre o Rio de Janeiro e Curitiba. Estudou Belas Artes – Artes Impressas na Royal Academy of Art, na Holanda, e formou-se em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde recebeu o apelido “Monge Han” por conta de sua personalidade tranquila e do cabelo raspado, nome que mais tarde se tornaria sua assinatura artística.

Desde 2016, transforma o cotidiano e as nuances da existência humana em tirinhas autorais que misturam humor e crítica social. Publicou duas obras: Vozes Amarelas (HarperCollins) e Daruma – Perseverança (Pitaya), ambas com forte presença de temas identitários e sociais.

Em 2024, foi reconhecido pelo projeto VOZES30 como uma das 30 vozes mais influentes do ano, por seu trabalho com narrativas reais que abordam discriminação e representatividade. Monge Han já expôs seu trabalho em eventos como a Comic Con Experience Brasil (CCXP), da qual participou em cinco edições como artista, e colaborou com marcas como Universal Music (ilustrando o quadrinho oficial da música Modo Turbo, de Anitta, Pabllo Vittar e Luísa Sonza), Cartoon Network e São Paulo FC (ilustrações comemorativas para os dez anos do Mundial do clube).

Foto: Breno da Matta

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