Pressão sobre empresas como Visa e Mastercard leva à exclusão de títulos de terror em plataformas como Steam e Itch.io

Mais uma polêmica tomou conta do mundo dos games nos últimos dias: as plataformas de venda de jogos Steam e Itch.io iniciaram uma onda de remoções de títulos com conteúdo adulto e de terror. A medida teria sido motivada por pressões de empresas de pagamento como Visa e Mastercard, influenciadas pela atuação do grupo religioso australiano Collective Shout.
Algo que de início era apenas para excluir conteúdos pornográficos e pedófilos, acabou se expandindo para jogos de ação e terror. Isso afeta diretamente os consumidores que não receberam reembolso e as empresas que tiveram seu conteúdo removido sem aviso prévio.
O grupo Collective Shout se trata de uma organização religiosa australiana que faz campanhas contra a objetificação da mulher e da sexualização na cultura pop.
A organização diz ter enviado mais de três mil e-mails para empresas como a Steam solicitando a exclusão de jogos que contivessem conteúdo violento e ofensivo.
Após não ter sucesso ao entrar em contato com as empresas provedoras dos jogos, os ativistas buscaram conversar com as processadoras de pagamentos, para assim solicitar a remoção dos jogos.
Pronunciamento das empresas
Até o momento, nem Mastercard nem Visa emitiram comunicados públicos detalhando sua posição oficial sobre os banimentos.
A Valve, proprietária da Steam, também não esclareceu os critérios exatos usados para a remoção dos jogos, o que gerou críticas sobre falta de transparência.
A norte-americana Itch.io desindexou cerca de 20.000 jogos NSFW (conteúdo adulto) para realizar uma auditoria e evitar perder o suporte das empresas de pagamento.
Riscos e precedentes
A censura via cartão pode se tornar um precedente perigoso para outras indústrias criativas como cinema, literatura e música.
Se empresas de pagamento forem pressionadas por grupos ativistas em diferentes países, o conteúdo global pode ser moldado por interesses ideológicos locais.
O Japão, lar de muitas visual novels e jogos com estética e narrativa mais ousadas, foi diretamente afetado pela remoção de mais de 500 títulos da Steam.
Segundo análises da Visa, países como Brasil, Argentina e Colômbia têm alta frequência de pagamentos com cartão em plataformas de jogos.
Se as restrições forem ampliadas, jogadores latino-americanos podem perder acesso a títulos que não violam leis locais, mas que são bloqueados por políticas globais de pagamento.
Desenvolvedores que se pronunciaram
Alguns desenvolvedores japoneses acusam a iniciativa de ser uma forma de imperialismo cultural, onde valores morais ocidentais são impostos sobre produções locais.
Yoko Taro, criador de Nier, posicionou-se publicamente contra a censura, chamando a iniciativa de “absurda”.
NoahFuel_Gaming, ex-desenvolvedor e artista, também criticou a nova política da Steam em uma thread na rede social Bluesky, dizendo que ela representa uma “normalização silenciosa da censura financeira”.
Ele destacou que jogos LGBTQIAPN+ estão sendo desproporcionalmente afetados, mesmo quando não possuem conteúdo explícito mas abordam temas sensíveis.
Em entrevista recente, o CEO Emanuel, da Innovators Game Studios, comentou sobre os desafios enfrentados por desenvolvedores independentes de terror, como o jogo The Nightmare Begins.
Mesmo que não tenha citado diretamente Visa ou Mastercard, o estúdio reforçou a importância de manter a liberdade criativa no gênero.
Opinião dos consumidores brasileiros
Pedro Galdino, usuário da Steam desde 2021, afirmou que enfrentou poucos problemas com a loja virtual e demonstrou entusiasmo pelos jogos de terror, destacando a receptividade da comunidade.
Ele acredita que as ações da Steam, embora limitadas, representam a única alternativa diante das restrições impostas por instituições financeiras, que exercem forte influência sobre plataformas de comércio eletrônico.
Já João Pedro Ferreira ressaltou sua insatisfação com a censura nos jogos, considerando-os formas legítimas de expressão cultural. Ele usa a plataforma de jogos há mais de 5 anos, e afirma:
“Estou surpreso com a facilidade que censuram jogos de terror, sendo que existem várias outras problemáticas para se preocupar”.
Clara Maria nunca teve problemas com a Valve, mas observa o preconceito contra jogos durante lives de streamers. Ela nota muitos comentários que costumam associar games à violência ou afirmam que vão contra princípios bíblicos.
Pronunciamento dos criadores de conteúdo
Após o ocorrido, o streamer brasileiro Core, conhecido por seu conteúdo voltado a jogos de terror, denunciou em suas redes sociais o suposto banimento e remoção de diversos títulos do gênero em plataformas internacionais.
Segundo ele, jogos como Mouthwashing, Fear and Hunger e Vile Exumed já teriam sido alvo de exclusão, impulsionada pelo grupo Collective Shout que combate conteúdos classificados como NSFW (Not Safe For Work).
Jacob Seibers, conhecido como Chibi Reviews, criador de conteúdo especializado em anime e cultura otaku, com mais de 470 mil inscritos em seu canal no YouTube, do Tennessee (EUA), destacou-se na última semana ao denunciar ações globais que ameaçam a liberdade na internet.
Ele expôs como a pressão da organização Collective Shout levou Steam e Itch.io a removerem centenas de jogos adultos, e criticou a nova lei britânica Online Safety Act, que está impondo censura e vigilância política.
Chibi também alertou para projetos similares nos EUA, como o Kids Online Safety Act, além da imposição de restrições em mecanismos de busca e exigências de autocensura à Wikipédia.
Seu posicionamento mobilizou a comunidade gamer e otaku em defesa da liberdade digital, com abaixo-assinados e pressão popular dos internautas.
Advogados e leis brasileiras sobre censura digital
Há advogados especializados em direito digital e criminal que têm se manifestado sobre o avanço da censura na internet brasileira.
Um exemplo é o advogado Emerson Grigolletti, que defende dezenas de vítimas de censura e alerta para o atual cenário jurídico, onde decisões judiciais, especialmente do STF, têm imposto restrições à liberdade de expressão sem o devido processo legal.
O principal marco legal é a Lei nº 12.965/2014, conhecida como Marco Civil da Internet, que estabelece:
- Liberdade de expressão como princípio fundamental (Art. 3º, I)
- Vedação à censura prévia (Art. 220 da Constituição Federal)
- Remoção de conteúdo só mediante ordem judicial, exceto em casos gravíssimos (Art. 19 do Marco Civil)
No entanto, decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) têm reinterpretado essas normas, permitindo que plataformas removam conteúdos considerados ilícitos sem ordem judicial, o que tem gerado preocupações principalmente sobre falta de transparência.










