Evento gratuito reúne mais de 40 atrações e propõe reflexão sobre o papel da periferia na economia criativa
Entre os dias 11 e 13 de setembro, o Centro Cultural Santo Amaro será palco da primeira edição do PerifaCria, mostra de economia criativa periférica que vai além do entretenimento. Com mais de 40 atrações gratuitas, o evento propõe um olhar estratégico sobre o papel da periferia na produção cultural, na formação de jovens e no fortalecimento de negócios locais.
Formação e protagonismo: mais que palco, espaço de construção
A programação do PerifaCria inclui debates, oficinas, batalhas de poesia e mentorias voltadas para áreas como jornalismo, moda, produção artística e empreendedorismo. A proposta é clara: fomentar a autonomia de artistas e empreendedores periféricos por meio da troca de saberes e da valorização da experiência local.
Pam Araujo, idealizadora do projeto e produtora cultural do Grupo Baderna, destaca que o evento foi pensado como uma plataforma de convergência:
“A periferia não é só território de carência, é território de potência. O PerifaCria nasce para mostrar que há inovação, arte e negócios sendo gestados nas bordas da cidade.”
Moeda própria e impacto econômico: o experimento do PerifaCoin
Um dos destaques da mostra é a criação da PerifaCoin, moeda exclusiva do evento. Serão distribuídos R$ 50 mil em créditos para mil estudantes da rede pública, que poderão consumir produtos e serviços na feira de empreendedores periféricos. A iniciativa busca educar sobre consumo consciente e gerar retorno direto aos expositores.
Segundo a economista e pesquisadora do Instituto Polis, Ana Paula Souza, a proposta é inovadora:
“A criação de uma moeda local temporária, mesmo que simbólica, é uma estratégia eficaz para estimular o microempreendedorismo e criar vínculos entre juventude e economia solidária. É uma pedagogia econômica aplicada.”
Dados da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo apontam que, em 2025, mais de 38% dos projetos culturais financiados pelo PROAC têm origem em territórios periféricos, um crescimento de 12% em relação a 2023.
Arte como ferramenta de transformação
A programação musical reúne nomes como MC Soffia, Maria Preta, DJ RD e o coletivo Grave, Médios e Agudos. Mas o evento não se limita ao palco: batalhas de poesia, como o Slam do 13, e saraus como o Baobá, ocupam espaços de escuta e expressão.
Mel Duarte, poeta e uma das participantes do debate de abertura, reforça o papel da arte como ferramenta de construção social:
“A palavra é ação. Quando a periferia escreve, ela não só narra sua história, ela reivindica espaço, memória e futuro.”

Escolas como protagonistas: cultura e educação lado a lado
A articulação com escolas públicas é outro diferencial. Estudantes terão transporte gratuito e acesso integral às atividades. Para a educadora e pesquisadora da USP, Joana Jade, que participa do debate “Quem cria: o impacto das mães na cultura e na economia”, essa integração é estratégica:
“A escola precisa ser ponte com o território. Quando o aluno vê sua cultura valorizada fora da sala de aula, ele entende que seu saber tem valor e que sua trajetória pode ser potência.”
Expectativas e projeções
A organização estima que cerca de 5 mil pessoas passem pelo evento ao longo dos três dias, com movimentação de mais de R$ 100 mil em renda direta para empreendedores locais. A feira contará com 20 expositores de moda, gastronomia, literatura e artes visuais.
Segundo levantamento da Rede Brasileira de Economia Criativa, o setor movimentou R$ 230 bilhões em 2024, com crescimento de 6,4% em relação ao ano anterior. A participação de iniciativas periféricas ainda é sub-representada, mas eventos como o PerifaCria apontam caminhos para maior inclusão.
O PerifaCria se soma a uma crescente rede de festivais que, nos últimos anos, têm consolidado a cultura periférica como força criativa, política e econômica no Brasil. Dois dos principais exemplos são o Favela Sounds, em Brasília, e a FLUP (Festa Literária das Periferias), no Rio de Janeiro.
– Favela Sounds: música e formação em escala nacional
Criado em 2016, o Favela Sounds é considerado um dos maiores festivais de cultura periférica do país. Em sua edição de 2023, o evento reuniu cerca de 35 mil pessoas em atividades que incluíram debates, oficinas e shows com artistas como MC Luanna, Tasha & Tracie e Lia Clark. Já em 2022, o festival retomou sua versão presencial após a pandemia, levando 55 mil pessoas à Esplanada dos Ministérios e movimentando ações de formação e inclusão produtiva para jovens em privação de liberdade.
Além do festival, o projeto lançou o Favela Talks, primeiro ambiente de mercado voltado exclusivamente à criatividade periférica no Brasil.
– FLUP: literatura como ferramenta de transformação
A FLUP, que acontece desde 2012 no Rio de Janeiro, já passou por comunidades como Maré, Cidade de Deus, Mangueira e Vidigal. Em 2023, foi declarada patrimônio cultural imaterial pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Ao longo de suas 14 edições, a FLUP já reuniu mais de 200 mil pessoas, publicou 30 livros com autores periféricos e formou 200 roteiristas negros e indígenas para o audiovisual.
A edição de 2025 homenageia Conceição Evaristo e tem como tema “Ideias para Reencantar o Mundo”, celebrando o legado político e poético do Caribe e sua influência na diáspora africana.
Um modelo replicável?
O PerifaCria não é apenas uma mostra cultural, é um laboratório de políticas públicas, práticas pedagógicas e estratégias econômicas. A depender dos resultados, pode se tornar referência para outras cidades que buscam integrar cultura, educação e desenvolvimento local.
Como resume Thiago Peixoto, produtor cultural e um dos curadores do evento:
“A periferia não quer ser incluída. Ela quer ser reconhecida como parte fundamental da engrenagem cultural e econômica do país.”
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