Especialistas declaram estado de emergência para a extinção de jumentos, com queda de 94% da população de jumentos no Brasil
O registro da queda de 94% da população de jumentos no Brasil, entre 1999 e 2025, preocupa cientistas e especialistas brasileiros e internacionais. Profissionais da área divulgaram uma carta aberta ao governo federal pedindo a suspensão imediata do abate desses animais.
Segundo fontes da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), IBGE e de abatedouros, a população do jumento nordestino diminuiu de 1,37 milhão (em 1999) para aproximadamente 78 mil (atualmente). O principal destino de exportação destes animais abatidos é para a China, para a produção de eijao, uma gelatina extraída da pele do jumento muito comum na medicina chinesa utilizada para suplementação.

O grupo é formado por 12 profissionais, dos quais a maioria são doutores nas áreas de medicina veterinária, agronomia, zootecnia, economia, biologia e nutrição animal. Anunciaram que a situação do jumento nordestino no Brasil chegou a um estado de emergência iminente e irreversível de extinção.
O que a declaração pede?
A declaração pede que o abate desta espécie seja suspenso até que o governo federal apresente dados oficiais atualizados sobre um aumento na população de jumentos. Desde suas taxas de reposição e estruturas reprodutivas, sanitárias e de bem-estar para a cadeia animal.
Ao menos 248 mil jumentos foram abatidos, de 2018 a 2024, apenas na Bahia, único estado com três frigoríficos autorizados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) para realizar esse tipo de abate.
A campanha é liderada pela organização internacional The Donkey Sanctuary, do Reino Unido, que atua no Brasil em parceria com universidades, ONGs, veterinários e defensores da causa animal.
Segundo Patricia Tatemoto, coordenadora da campanha da The Donkey Sanctuary no Brasil, o fim do abate é indispensável para evitar a extinção da espécie e procurar a garantia de possibilidades sustentáveis. “Este governo tem uma oportunidade única em uma geração de proteger esses animais preciosos, que podem viver livremente na natureza ou ser reconhecidos como animais de companhia”, afirmou a doutora.
Roberto Arruda de Souza Lima, agrônomo e pesquisador da USP, diz que a ciência já desenvolve alternativas à produção de colágeno animal, logo existe um caminho para proporcionar um fim definitivo ao abate. “Estudos apontam caminhos como a fermentação de precisão, capaz de produzir colágeno em laboratório sem exploração animal. Investir nessas tecnologias é estratégico do ponto de vista econômico, ambiental e sanitário”, comentou o especialista.
Como surgiu a ideia da carta aberta?
A ideia de elaborar uma carta aberta surgiu diante do III Workshop Internacional Jumentos do Brasil: Futuro Sustentável no final de junho, em Maceió, Alagoas. Desde então, os especialistas destacaram dez pontos a fim de justificar a necessidade do fim do abate. São eles:
- A população de jumentos no Brasil caiu 94%, ameaçando o jumento nordestino de extinção.
- O jumento nordestino é um recurso genético único no mundo.
- Esses animais têm papel ecológico essencial em ecossistemas nativos.
- A diversidade genética é vital para a sobrevivência humana.
- O abate de jumentos no Brasil apresenta riscos sanitários comprovados.
- Já houve caso de mormo em humanos ligado a esses animais.
- O abate envolve casos de trabalho infantil e análogo à escravidão.
- A prática prejudica a reputação do agronegócio brasileiro.
- O jumento nordestino é patrimônio histórico e cultural imaterial do Brasil.
- A Constituição obriga o Estado a proteger a fauna e evitar sua extinção.
Adroaldo Zanella, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e doutor pela Universidade de Cambridge, explicou que a espécie possui um forte papel na economia local: “O jumento nordestino é reconhecido em estudos brasileiros e internacionais como um ecótipo exclusivo do nosso semiárido, com um importante papel na economia e cultura local”. Ele ainda acrescentou que devido a gravidade da situação, precisam ser tomadas decisões imediatas. “Estou muito preocupado. Existem soluções, e elas devem ser tomadas com urgência. O abate precisa parar”, contou o doutor.
O professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Pierre Escodro, argumentou que o Brasil não pode continuar sendo o elo frágil de uma cadeia internacional que fatura milhões com a morte de um animal significante, e de forte representação, para a vida de comunidades em situação de vulnerabilidade. “O Brasil precisa alinhar sua legislação às boas práticas já adotadas por outros países do Sul Global”, afirmou o pesquisador.
Medidas que estão sendo tomadas
Há um Projeto de Lei no Congresso Nacional, que visa o fim do abate de animais da espécie equídea, equinos e jumentos, para o comércio de carne proposto à exportação ou ao consumo. O PL 2.387/2022, está no aguardo da votação na Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania da Câmara (CCJC), mas já conta com vantagem nas comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e na de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural.
Na Bahia, existe o PL 24.465/2022, que proíbe o abate do jumento nordestino. Apesar do projeto de lei ter sido aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Estado, teve uma resposta negativa do deputado Paulo Câmara, que alegou que o texto desrespeita a Constituição Estadual em decorrência a um eventual impacto financeiro da atividade para o estado.
No entanto, a Constituição Federal de 1988, em seu capítulo VI, afirma que o Poder Público deve “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.”












