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O Porão da Rua do Grito, conheça um pouco da mente por trás desse novo longa de terror brasileiro 

O Porão da Rua do Grito

Uma conversa com Sabrina Greve sobre memórias, medo e o poder simbólico do horror no novo cinema brasileiro.

O cinema brasileiro está em uma das suas fases mais diferentes. O gênero terror e suspense está cada dia mais em alta. Este ano, longas como A Herança de Narcisa, Virtuosas e A Própria Carne foram produzidos. Isso se deve ao grande apelo do público em relação ao tema.

Nessa mesma pegada, outro longa está previsto para estrear. O filme O Porão da Rua do Grito conta a história dos irmãos Jonas (Giovanni De Lorenz) e Rebeca (Carol Marques da Costa), que vivem em um antigo casarão na Rua do Grito com sua avó debilitada (Eliana Guttman) e uma misteriosa criança escondida no porão (Nycolas França).

O filme foi dirigido pela cineasta Sabrina Greve. Sabrina é uma artista brasileira multifacetada, atuando como atriz, cineasta, pesquisadora e professora. Como diretora, ela já produziu vários curtas-metragens, o telefilme Irina (2012) e co-dirigiu a série Além do Guarda-Roupa.

Entrevistamos a diretora para conhecer um pouco mais sobre suas inspirações e sobre o filme. Acompanhe abaixo essa entrevista.

O Porão da Rua do Grito

Como nasceu a ideia do filme O Porão da Rua do Grito ? Houve algum momento específico ou inspiração pessoal que deu origem à história?

Eu cresci no bairro do Ipiranga, perto da Rua do Grito, entrando em contato com a história do nosso país antes mesmo de entender o seu significado. Então, para mim, a Rua do Grito se associava ao testemunho de situações de violência doméstica, aos gritos de mulheres oprimidas naquele bairro, na nossa sociedade. Meu projeto inicial não era estritamente de terror, mas percebi, ao longo do desenvolvimento, que os temas, como a violência, o feminicídio e a forma como o passado nos assombra, ganhavam muito mais ressonância se fossem abordados sob a roupagem do horror.
A inspiração mais pessoal vem de uma profunda reflexão sobre a memória. Eu me pergunto como ela é sempre recriada na linha do tempo e como se torna emocionalmente real, mesmo que às vezes não seja totalmente verdadeira. Gosto muito da frase de Mário Quintana: “A imaginação é a memória que enlouqueceu.” O filme é um pouco sobre essa ideia, sobre o que é reprimido, aquilo que fica escondido no porão e, um belo dia, aparece na sala de estar.

Houve alguma obra ou diretor(a) que serviu de inspiração estética ou narrativa para você neste projeto?

Minha aproximação com o gênero se deu com obras mais recentes, que resgatam o potencial alegórico do horror, como Os Outros, Hereditário e The Babadook. No entanto, na construção estética de O Porão: Rua do Grito, há elementos de investigação visual que dialogam mais com clássicos do subgênero de casa mal-assombrada, como Horror em Amityville, Invocação do Mal e a franquia Sobrenatural, mirando um público jovem que é fã do gênero. Então, a ideia era tentar unir entretenimento com algo a mais.

O terror nacional vem ganhando cada vez mais espaço e reconhecimento. Na sua visão, o que tem impulsionado esse crescimento: o público, as novas produções independentes ou uma mudança na forma de fazer cinema no país?

Acredito que é uma conjunção de fatores, mas a mudança na forma de fazer cinema é crucial. Vários filmes de terror brasileiros dos últimos anos demonstram que estamos alcançando um alto padrão de produção, que não deve nada às produções mundiais. Essa busca por qualidade técnica, somada a narrativas que usam o gênero para falar de temas urgentes da nossa sociedade, como violência doméstica e feminicídio, no meu caso, é o que nos impulsiona.
Quando o público vê um filme nacional que entrega sustos e brutalidade com essa qualidade, e ainda traz uma profundidade alegórica, ele abraça o projeto.

O Porão da Rua do Grito

Como foi a experiência de dirigir esse longa?

Foi intenso e cheio de desafios. Tivemos que filmar dentro dos parâmetros da pandemia [as filmagens terminaram em outubro de 2020], o que exigiu que a equipe trabalhasse com máscaras, face shields e com transmissão ao vivo para profissionais que não podiam estar no set. Apesar das dificuldades do protocolo, isso uniu muito a equipe e nos fez focar na história.
Eu queria muito que os atores tivessem liberdade no processo criativo e, para mim, o diálogo com eles foi realmente especial, porque partilhamos diversos medos, tanto os imaginários do filme quanto os reais da situação pandêmica. Tentando levar para um lado positivo, o protocolo de filmagem funcionou bem na atmosfera do filme, potencializando o ambiente claustrofóbico do casarão.
Olhando para trás, não sei como consegui dirigir um primeiro longa, ainda por cima de terror e no auge da pandemia! Mas o filme está aí; o contexto de execução não importa mais, e o que fica é o resultado dessa ousadia, juntamente com a entrega dos atores e da equipe.

Qual foi a cena mais marcante de dirigir e por quê?

Acho que todas. Foi um grande desafio construir o drama e o medo dentro daquele casarão histórico no contexto da pandemia. O imóvel se tornou um personagem. Houve um trabalho consciente de direção para que a relação espacial da casa criasse um comportamento corporal nos atores que resvalasse nos códigos do teatro, dando aquela sensação de “palco assombrado” que amarra a narrativa.
Além disso, coloquei-me o desafio de acertar um bom jumpscare, que estivesse a serviço da nossa história e que não fosse gratuito. Construir o momento perfeito para os sustos, somados à atmosfera fabular do filme, foi um grande aprendizado de direção para mim.

Como você enxerga o papel das mulheres na direção de filmes de terror no Brasil?

Vejo as mulheres sendo fundamentais e liderando uma renovação no gênero. As diretoras estão trazendo novas perspectivas, explorando o potencial alegórico próprio do gênero, sem perder de vista questões dolorosas da nossa sociedade patriarcal. O mais interessante é que cada diretora contribui com várias facetas do horror, imprimindo riqueza e diversidade, cada uma em seu estilo.

O Porão da Rua do Grito

Que mensagem ou sensação você gostaria que o público levasse ao sair da sessão?

Gostaria que o público saísse da sessão impactado pelos sustos, mas também pensativo sobre os segredos de família e sobre como a violência se perpetua. E, claro, prestigiar uma produção brasileira feita por profissionais que possuem qualidade para competir com o que há de melhor no cinema de gênero.

O Porão da Rua do Grito, está previsto para estrear no dia 30 de outubro, na semana do Halloween.

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