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O Casamento do Meu Melhor Amigo e O Noivo da Minha Melhor Amiga: quando a traição vira romance e a empatia desaparece

Por que ainda romantizamos traições e chamamos de amor o que é pura deslealdade nas comédias românticas?

As comédias românticas têm uma longa tradição de nos convencer a torcer por relacionamentos que, na vida real, provavelmente consideraríamos imperdoáveis. Em nome do “amor verdadeiro”, personagens tomam decisões egoístas, ferem pessoas próximas e destroem relações estáveis sem que isso seja, de fato, problematizado. Ao contrário: são aplaudidos, recompensados e chamados de corajosos por “seguirem o coração”.

Um exemplo emblemático é “O Casamento do Meu Melhor Amigo” (1997), filme estrelado por Julia Roberts, que ainda é lembrado com carinho por muitos fãs do gênero. O que passa quase despercebido, porém, é que o enredo gira em torno de uma mulher adulta tentando sabotar o casamento do melhor amigo porque só agora percebe que o ama. Isso, por si só, já seria moralmente questionável, mas o filme, como tantos outros, apresenta essa trajetória como algo romântico, até heróico.

A rival, Kimmy (Cameron Diaz), é retratada como jovem, ingênua e “certinha demais”, quase como um convite para que o público torça por sua derrota. O curioso é que, mesmo fracassando no plano, a protagonista recebe empatia, aplausos e uma espécie de redenção final, como se todo seu comportamento pudesse ser resumido a um lapso emocional inofensivo.

Esse padrão se repete em “O Noivo da Minha Melhor Amiga” (2011), ainda mais direto na sua desonestidade emocional. Aqui, a protagonista Rachel (Ginnifer Goodwin) mantém um caso com o noivo de sua melhor amiga, Darcy (Kate Hudson). A história tenta justificar o adultério com a narrativa de que Rachel e Dex “sempre se amaram” e que Darcy seria superficial demais para merecê-lo. A justificativa é clássica: desumanizar a terceira pessoa para aliviar a culpa dos traidores. O público é levado a torcer para que Rachel “consiga” o homem que sempre foi dela, mesmo que isso custe a destruição de uma amizade de décadas. E o mais preocupante: tudo isso é vendido com trilha sonora suave, cenas ensolaradas e diálogos que tentam nos convencer de que aquilo é amor e não uma traição disfarçada de destino.

O que esses dois filmes têm em comum é a romantização da quebra de confiança. As protagonistas não são vilãs; são apenas “pessoas apaixonadas”, como se esse sentimento bastasse para justificar atitudes antiéticas. E os homens dessas histórias, que raramente resistem à tentação, quase nunca são responsabilizados. A culpa (ou a narrativa) recai sobre o amor, esse ente abstrato que tudo perdoa. Mas amar alguém não deveria ser desculpa para machucar outro alguém. Ainda assim, essas narrativas seguem populares, com finais felizes garantidos e lições rasas, quando muito. No final, o que fica é a ideia de que “se for amor verdadeiro, vale tudo”.

Mas não vale. Essas histórias ignoram o peso da traição emocional e o impacto que têm sobre pessoas que não têm sequer espaço para se defender no roteiro. Kimmy e Darcy são obstáculos, não pessoas. E o público é constantemente ensinado a torcer contra elas, como se o sofrimento delas fosse necessário para que o “casal certo” finalmente se una. O problema não está em contar histórias complexas, em que sentimentos se misturam e decisões são difíceis, mas sim em tratar como romântico o que, na vida real, seria profundamente injusto.

Quando o entretenimento valida comportamentos destrutivos em nome do amor, reforça a ideia de que ferir alguém é aceitável se for “por uma boa causa”. Que trair é nobre. Que amizades são descartáveis diante de uma paixão mal resolvida. É um tipo de romantismo que não resiste à vida real, mas que insiste em se repetir nas telas, disfarçado de final feliz.

Imagens: Reprodução| Pinterest; Cinematologia

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