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Modelos de IA na Vogue geram revolta e reacendem debate sobre perfeição e humanidade

Em agosto de 2025, a revista Vogue surpreendeu o mercado ao publicar uma campanha publicitária inteiramente estrelada por modelos gerados por inteligência artificial. Criada pela agência Seraphinne Vallora para a marca Guess, a peça traz imagens hiperrealistas de figuras femininas loiras, de olhos azuis, com pele impecável e proporções corporais simétricas. Ainda que a campanha não fizesse parte do conteúdo editorial da revista, a decisão provocou reações intensas e imediatas. Leitores expressaram desconforto, assinaram protestos e, em alguns casos, chegaram a cancelar suas assinaturas. A polêmica não foi apenas sobre estética, mas sobre valores humanos, identidade e ética.

Nas redes sociais, especialmente no X (antigo Twitter), a revolta ficou evidente. “Tive que cancelar a assinatura da Vogue que tenho há anos porque a revista usou modelos de IA??? Na Vogue? Modelos de IA na Vogue?”, escreveu uma usuária indignada. Outro foi mais direto: “A decadência da Vogue. As capas são lixo. Nenhuma criatividade. E agora usam IA.”. Um terceiro usuário resumiu o sentimento geral: “IA em QUALQUER espaço criativo já é algo absurdo pra mim… Isso é uma guerra contra a arte, contra a moda e contra a cultura.”. Para muitos internautas, o uso de IA representa não apenas uma substituição de rostos, mas uma erosão simbólica da criatividade, do trabalho humano e da conexão emocional que a moda constrói com seu público.

A crítica mais recorrente gira em torno da homogeneização dos corpos representados. A inteligência artificial, treinada com padrões históricos e estatísticos, tende a reproduzir uma beleza padronizada: branca, magra, jovem e perfeita. Mesmo quando há tentativas de gerar diversidade, os algoritmos demonstram resultados de engajamento muito menores com corpos fora desses padrões. A própria agência responsável pela campanha reconheceu que, ao gerar modelos mais diversos, as interações caíam drasticamente. O que era para ser uma inovação se mostrou, na verdade, um reforço dos mesmos estigmas que a moda tenta desconstruir há anos.

Além disso, há uma desvalorização clara do trabalho humano. Modelos reais carregam histórias, aprendem com o tempo, enfrentam desafios emocionais, e ajudam a construir a narrativa visual das marcas com sua expressividade e presença. Substituí-los por figuras geradas em segundos não apenas retira deles espaço profissional, como também impacta negativamente toda a cadeia criativa que os envolve: maquiadores, fotógrafos, estilistas, produtores e editores. É um apagamento da colaboração coletiva que sustenta a indústria da moda.

Outro ponto alarmante é o impacto sobre a saúde mental. A imagem de perfeição promovida por modelos digitais reforça padrões inalcançáveis. Diferentemente de um retoque fotográfico ou da produção editorial, essas imagens não são baseadas em corpos humanos. São construídas a partir de uma ideia sintética do “desejável”. Isso alimenta inseguranças, principalmente entre os mais jovens, e contribui para um ambiente tóxico de comparação constante e insatisfação corporal. A perfeição, quando artificial, deixa de ser inspiração e se torna opressão.

Mas a principal razão pela qual ainda precisamos de pessoas reais é mais profunda: seres humanos são únicos. Têm histórias marcadas na pele, expressões incontroláveis, posturas imperfeitas, cicatrizes, risos espontâneos, emoções visíveis. Nenhuma IA, por mais treinada que seja, consegue capturar isso. A beleza verdadeira está nessas particularidades, naquilo que foge da simetria, naquilo que se revela com o tempo e com a presença. A imagem pode ser tecnicamente perfeita, mas sem alma, ela não comunica. Não emociona. Não representa.

A adoção de modelos digitais por um veículo de comunicação como a Vogue levanta uma questão essencial para o futuro da moda e da cultura: será que queremos que o imaginário visual do nosso tempo seja moldado por algoritmos? Ou será que ainda temos coragem de olhar para a imperfeição e reconhecê-la como beleza? Nossa humanidade não precisa idealizar a perfeição. Precisa, sim, de presença, de verdade e de diversidade. Em tempos de imagens geradas, talvez o mais revolucionário seja simplesmente continuar sendo humano.

Imagem: Reprodução / Vogue, edição de agosto de 2025

Reprodução / X (@WEBBYMCGEE)

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