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Maternidade Dupla: A Nova Jornada dos Avós como Pais

Entenda os desafios, as transformações e as emoções que surgem quando os avós se tornam responsáveis diretos pela criação dos netos.

Desde muito tempo, vemos que as configurações familiares têm mudado bastante, principalmente quando os avós assumem de pais dos seus netos que deveriam ser função de seus filhos, que por algum motivo não podem cumprir com o seu papel na vida do filho. A adoção dessa função pelos avós vem de muitos fatores, que vão da criação dos netos devido seus filhos serem pais muito novos até mesmo quando os filhos vem a falecer, não podendo dar sequência na criação dos filhos. Para Rabinovich, Moreira e Franco (2012), vem que: 

“as avós sucedem aos pais na importância nos papéis familiares e há mais uma interdependência emocional do que econômica/funcional com relação à criança. As avós costumam fazer-se presentes na vida dos netos pela transmissão de histórias de vida e informações (Rabinovich & Moreira, 2008), na tarefa de cuidar de netos cujas mães estão trabalhando (Coutrim et al, 2007), oferecendo cuidados e apoio à família quando do nascimento de uma criança com problemas de saúde (Simioni & Geib, 2008) ou com necessidades especiais, minimizando a ausência das mães, envolvidas nas intensas demandas de cuidados (Matsukura & Yamashido, 2012).”

Na sociedade em que vivemos, ser criado pelos avós se tornou comum e é uma das novas configurações da família moderna, tornando-se um fenômeno social muito comum, principalmente nas classes sociais mais baixas. Na ordem das coisas, os pais após terem seus filhos e construir suas vidas, querem seguir vivendo uma nova etapa da vida, a de curtir mais os momentos simples e ter novas experiências, como viajar mais, entre outras coisas. Mas a realidade que vemos para muitas famílias não é essa, o que tem acontecido é que na sociedade que vivemos hoje é a de que muitas meninas têm iniciado a vida sexual cada vez mais cedo. Muitas das vezes por serem filhas de mães que também tiveram seus filhos muito cedo.

E isso tem sido uma triste realidade devido a falta de diálogo em casa, seja por falta de conhecimento dos pais, por vergonha e medo de abordar um assunto que para muitos é considerado um tabu, ou até mesmo por questões religiosas e tradicionalistas que fazem com que pais e filhos não tenham um diálogo mais aberto. E a falta disso, faz com que o adolescente aprenda lá fora o que não tem em casa. Também tem a questão que muitos lares são desestruturados e com relações frias.

No entanto, a responsabilidade da criação dos netos vai além disso, tem como questão outros motivos. Como filhos que morrem, e deixa a responsabilidade da criação de seus filhos para os pais ou quando precisam se ausentar para ir trabalhar em um local mais distante. Deste modo a responsabilidade vai recair sobre os avós, que mesmo que não queira mais reviver a rotina maternal, pelo apego afetivo pela criança, assume todas as responsabilidades e voltam ao início com as vivências de todas as etapas do mundo materno. Isso quando assumem a responsabilidade da criança desde o nascimento, mas tem muitos avós que assumem a criação tardia do seu neto. 

A nossa sociedade é marcada por muitas mudanças, e isso tem permitido que cada vez mais o ser humano chegue à longevidade com saúde e mais bem-estar. E possa viver por mais tempo, e acompanhar o desenvolvimento das gerações seguintes, havendo assim, um encontro de gerações. Embora os avós criam seus netos, é sobre a avó que recai a maior parte das responsabilidades, por ter o instituto materno mais aflorado, é com ela que recai a maior se não todo o peso da criação, seja enquanto mães e quando essa função é renovada com a participação na formação dos netos.

O que faz com os avós, se tornem cuidadores em tempo integral e tornem-se responsáveis legais por seus netos. Isso na perspectiva de estudiosos na área é vista de dois modos, Lopes, Neri e Park (2005) veem essa responsabilidade como algo negativo devido à  muitos fatores como a “sobrecarga financeira, os conflitos com os filhos devido à divergências na educação das crianças e também quanto às vezes pela custódia legal dos netos. Além de que, há também uma queda na qualidade de saúde física e emocional das avós, havendo uma incidência de depressão e baixa saúde percebida, como também interferência na vida social e familiar, cansaço e esgotamento emocional.” (Mainetti e Wanderbroocke, 2013).

Entretanto, estes mesmos pesquisadores veem um outro lado dessas relações, a de verem “o sentimento de renovação pessoal, oportunidade de ter companhia e gratificação por estarem provendo uma nova geração com cuidados e ensinamentos.” Ou seja, os avós veem como uma nova forma de criarem os netos e fazerem aquilo que conseguiram com seus filhos, mas de um modo melhor para que sigam bons caminhos. Em um estudo realizado por Araújo e Dias (2010) sobre avôs e avós que criam seus netos, viram que os avós “não medem esforços para cuidar de netos e os querem em sua companhia, pois eles lhes trazem alegrias, amor e um objetivo para viver.”  (Mainetti e Wanderbroocke, 2013). Para estes estudiosos, há um outro fator positivo nessa relação: a de que estas crianças possam se sentir pertencentes a um ambiente e se sintam acolhidos e amados. Gerando deste modo, uma nova configuração familiar. 

No artigo intitulado de “Avós que assumem a criação de netos” das autoras Ana Carolina Mainetti e Ana Claudia Nunes de Souza Wanderbroocke, foi realizado uma pesquisa com avós que assumiram a postura de mães de seus netos, e ficou claro os motivos pelos quais elas tiveram que assumir esse papel, por meio dos relatos dados pelas participantes da pesquisa, filha que trabalha e a criança acabou ficando com a avó, abandono dos netos pelos filhos por envolvimentos amorosos, abandono afetivo e descuido por irresponsabilidade dos filhos e morte do genitor da criança, entre outros motivos elencados pelas entrevistadas, como ter que trabalhar apesar da idade avançada para ter como cuidar deles e também o de terem que faltar ao trabalho por não terem com quem deixá-los.

Podemos também a partir da análise destas entrevistas, a de que ter os netos morando com os avós, eles podem se sentir preenchidos novamente, já que quando os filhos crescem, muitos saem de casa, e muitos avós se sentem solitários, sentindo o ninho vazio. E isso é restaurado quando seus netos passam a conviverem com seus avós.

Sobre a criação de netos por seus avós, Luti Christóforo – Psicólogo vem nos dá a seguinte explicação a partir da sua perspectiva e o que lhe chega no seu consultório:  

“Nos últimos anos, tem crescido o número de avós que assumem, total ou parcialmente, o papel de pais na criação de seus netos. Essa realidade, que pode surgir por diversos motivos, como separações, doenças, dificuldades financeiras ou ausência dos pais, traz à tona questões emocionais e sociais que merecem atenção especial da psicologia.

Para muitos avós, essa fase chega de forma inesperada, alterando planos e exigindo adaptações em diferentes aspectos da vida. Ao mesmo tempo em que oferecem aos netos o afeto, a experiência e a segurança conquistados ao longo dos anos, eles também precisam lidar com novas responsabilidades, demandas escolares, acompanhamento médico e, muitas vezes, com a sobrecarga física e emocional que a rotina de cuidado impõe.

No meu trabalho clínico, tenho acompanhado casos em que os avós se veem diante de um grande dilema emocional. Ao mesmo tempo em que sentem satisfação e orgulho por oferecer estabilidade e amor aos netos, enfrentam o luto silencioso pela perda da fase da vida que imaginaram viver, mais tranquila e voltada para si mesmos. Em algumas situações, percebo que esses avós tentam esconder o cansaço para não preocupar os netos, carregando sozinhos o peso das responsabilidades. Essa tentativa de proteção, embora nasça do afeto, pode gerar sobrecarga emocional e física, e por isso é fundamental que encontrem espaços de acolhimento para compartilhar seus sentimentos.

Do ponto de vista psicológico, essa vivência é marcada por sentimentos ambivalentes. Há, por um lado, o amor incondicional e a alegria de participar ativamente do crescimento dos netos. Por outro, podem surgir preocupações com a saúde, o desgaste físico, o medo de não conseguir acompanhar o ritmo das crianças e a sensação de perda da própria liberdade. Em alguns casos, sentimentos de tristeza ou frustração podem aparecer, especialmente quando a guarda dos netos é consequência de conflitos familiares ou abandono parental.

A presença de assistentes sociais, psicólogos e o apoio escolar são fundamentais para integrar essa rede de cuidado, oferecendo acolhimento e orientação tanto para os avós quanto para os netos. O diálogo aberto entre família e escola ajuda a compreender as necessidades emocionais das crianças, que podem sentir a ausência dos pais e precisar de suporte para lidar com essa situação.

É importante ressaltar que, apesar dos desafios, muitos avós encontram nessa experiência uma oportunidade de ressignificar a vida, fortalecendo vínculos e deixando um legado de afeto, resiliência e valores para as próximas gerações. Com acompanhamento psicológico, é possível desenvolver estratégias para manter o equilíbrio emocional, dividir responsabilidades com outros familiares e preservar a própria saúde física e mental.

A criação de netos pelos avós é um retrato de mudanças sociais profundas e, ao mesmo tempo, uma prova de que o amor familiar pode se reinventar diante das adversidades. Reconhecer e apoiar esses cuidadores é essencial para que tanto eles quanto os netos possam viver essa jornada com mais equilíbrio, segurança e afeto.”

Para trazer um pouco sobre como foi a sua convivência com as famílias compostas por avós e netos, convidamos Maria das Neves (Pedagoga, Assistente Social e Advogada) da cidade de Remígio/PB, para um diálogo ao qual ela discute sobre a sua trajetória e experiências vividas com as famílias.

Fonte: Imagem de Scorpian Reaper por Pixabay

História e contexto pessoal

  • Maria das Neves, o que a motivou a se interessar pelo tema da maternidade dupla e o papel dos avós como pais?

(Maria das Neves) – Boa tarde, sou Maria das Neves André Soares, brasileira, solteira, pessoa com deficiência, sou mãe solo, tenho três filhas, sendo duas adotivas e uma biológica. Conheço, e também já acompanhei algumas famílias, cujos avós assumiram a responsabilidade, na educação e criação na qualidade de família extensa.

  • Durante sua trajetória como pedagoga e assistente social, já presenciou casos em que os avós assumem a criação dos netos? Poderia compartilhar um exemplo marcante?

(Maria das Neves) – A desestruturação sócio familiar, é quase sempre a razão dos avós serem responsáveis pelo cuidado dos netos, muitas vezes, os avós assumem a responsabilidade por serem família extensa conforme previsão do Estatuto da Criança e do Adolescente, em alguns casos tais avós não possui vínculo afetivo com a criança em questão e ficam na maioria das vezes apenas por obrigação. Muitos casos que acompanhei, os avós por não terem convivência com a criança, muitas vezes não sabem como conviver, orientar e educar.

Desafios e impactos e Transformações na dinâmica familiar

  • Quais são, na sua visão, os maiores desafios que os avós enfrentam quando assumem a responsabilidade integral pelos netos?

(Maria das Neves) – Os avós ao receberem um novo membro na família, no um neto(a), tem toda a rotina alterada, pois precisa a partir de então preocupa-se com a educação, as questões de saúde, disciplina, moradia, questões psicológicas e emocionais, as quais muitas vezes, não integram seu cotidiano e também gera preocupação, pois a drogadição e a violência é uma constante.

  • Como essas mudanças impactam a rotina e a saúde emocional desses avós? Quais dificuldades específicas as famílias em situação de vulnerabilidade podem enfrentar nesse cenário? Como essa nova configuração familiar afeta o desenvolvimento emocional e educacional das crianças? Em sua experiência, quais estratégias ajudam a manter o vínculo afetivo saudável entre avós e netos nessa condição?

(Maria das Neves) – As dificuldades são várias, tais como a idade da pessoa idosa (no caso dos avós), a condição de saúde dos mesmos, a capacidade laboral dos avós que são limitadas conforme o avanço da idade, a renda financeira insuficiente para manter as necessidades dos netos e suas. Em alguns casos vejo com preocupação, pois muitas famílias em situações de violência e drogadição, os quais muitas vezes os netos são colocados com os avós, estes netos chegaram na casa dos avós com muitos problemas de ordem emocional, psicológica e afetiva. E os equipamentos públicos deixam a desejar quanto ao acompanhamento sócio assistencial, desta forma, os avós ficam sem saber como lidar com a criança e o adolescente, que muitas vezes traz consigo costumes,  comportamentos, valores que diferentes dos costumes, valores e comportamentos de seus avós, havendo uma grande lacuna a ser preenchida, gerando comportamentos contraditórios, desrespeitosos e agressivos. O caminho, possivelmente, seria constituir vínculos consistentes, entre avós e netos, bem como, ser realizado um acompanhamento de qualidade com profissionais, tais como: psicólogo, psicopedagoga, assistente social e terapeuta ocupacional.

Rede de apoio e políticas públicas

  • Que tipo de apoio social ou institucional você considera essencial para ajudar os avós que assumem essa função? Como o CRAS e outras redes de proteção social podem contribuir para fortalecer essas famílias?

(Maria das Neves) – O CRAS é uma ferramenta importante, através do PAIF (Programa de Atenção Integral da Família), poderia realizar semanalmente encontro com a família inteira, para trabalhar a constituição de vínculos, construir o plano de desenvolvimento sócio família, realizar dinâmicas em grupo com a família, realizar oficinas direcionadas com a família, entre outras atividades que propiciem convivência harmoniosa, respeitosa e colaborativa.

Perspectiva humana e emocional

  • Que sentimentos são mais comuns entre os avós nesse processo — e como eles podem lidar com eles? Há algo que você gostaria que a sociedade entendesse melhor sobre os avós que criam seus netos?

(Maria das Neves) – As famílias as quais eu acompanhei, observei que os avós não se sentem necessariamente responsáveis pelos netos, pois entendem que a qualquer momento deveriam entregá-los aos seus pais, e por causa dessa possibilidade não tem pulso firme para lidar com seus netos. Ademais os netos, em virtude do ambiente de origem, não percebem que deve respeito e obediência aos avós. Desta forma, já presenciei muitos conflitos familiares, que surgiram a partir da desinência, indisciplina, falta de respeito e tolerância. Muitas vezes acho que a diferença de idade, valores, formação, a experiência de vida, separam a geração de avós (quase sempre idosos) e dos netos (quase sempre crianças e adolescentes), que se fosse bem medicado por profissionais não geraria angústia, mágoa, triste, traumas em ambos os envolvidos (avós – netos), no entanto tais questões então distantes de serem sanados porque são muitos os casos e poucos profissionais na rede sócio assistencial que possam dedicar ao trabalho de qualidade

Mensagem final

  • Que conselho ou mensagem você deixaria para avós que estão passando por essa experiência agora?

(Maria das Neves) – Não sou avó ainda, e não sei se um dia serei responsável por um neto(a), mas o posso falar é: cuidar do outro seja ele(a), neto(a), é um ato de amor, de generosidade, é salvar e proteger um vida, e uma vida é imensurável.

Também estendemos o convite para um breve entrevista para nos falar um pouco sobre como foi a experiência de ter convivido com a avó e tê-la como uma referência muito importante em sua vida, convidamos Vinícius Santos, morador da cidade de Areia/PB, que vem falar um pouco sobre a sua relação com sua avó. 

Fonte: Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

História de vida

  1. Como foi a sua infância e em que momento sua avó passou a assumir um papel de mãe na sua vida?

(Vinícius) – Minha infância foi muito feliz. Simples, mas extremamente feliz. Jogando futebol na rua, brincando com meus primos no sítio dos meus avós. Uma criança sendo criança. Desde sempre, minha avó teve o papel de mãe. Minha mãe saía para trabalhar e sempre ficava com minha vó durante o dia.

  1. Você se lembra de alguma conversa ou momento específico em que percebeu que ela era mais que uma avó para você?

(Vinícius) – Não sei se recordo de algum momento em especial, mas sempre tive essa noção. A noção de que, na verdade, eu tinha duas mães. 

  1. Como era a relação com ela no dia a dia, desde cuidados básicos até momentos de lazer?

(Vinícius) – A relação comigo foi de muito amor e cuidado. Ela é de poucas palavras, porém, de grandes ações. Fui tratado com imenso amor e zelo. Em algumas situações, com rigidez. Rigidez necessária e com parcimônia.

Sentimentos e a convivência


4. Que valores ou ensinamentos mais marcaram sua criação com ela?

(Vinícius) – Valores e ensinamentos principais: humildade, simplicidade, vencer pelo estudo e mérito próprio, saber “entrar e sair” dos lugares, respeitar para ser respeitado.


5. Você sente que a presença dela moldou sua visão sobre família e afeto?

(Vinícius) – Com toda certeza moldou. Ela não é minha avó de sangue, é avó de criação. Não temos laços de consanguinidade, mesmo assim, ela me ama incondicionalmente. Amor mais genuíno impossível! 


6. Qual lembrança mais carinhosa ou marcante você guarda dessa relação?

(Vinícius) – Tenho inúmeras lembranças carinhosas. Uma que me marcou demais foi uma noite que acordei de madrugada, do nada, chuva fortíssima, e ela estava no meu quarto colocando proteção para que não caísse água em mim. Nunca me esqueci.

Desafios e aprendizados


7. Quais foram os maiores desafios que vocês enfrentaram juntos nessa jornada?

(Vinícius) – Os maiores desafios foram relacionados à relação conturbada entre meus pais, sempre acaba respingando na criança e no entorno. Ela sempre fez de tudo para me blindar de tudo isso, todavia, não foi fácil. 


8. Como você acha que essa experiência influenciou sua personalidade e escolhas de vida?

(Vinícius) – Essa experiência impactou bastante na minha personalidade e escolhas de vida, nosso presente e futuro é muito condicionado pelo passado. Graças a Deus e à ela, tornei-me um homem de bem, com princípios inegociáveis e caráter distinto.

9. Você já conversou com ela sobre o impacto que teve na sua vida? Como foi?

(Vinícius) – Sobre conversar a respeito com ela, muito pouco ou quase nada. Como falei anteriormente, ela é de poucas palavras e eu respeito o espaço dela.

Reflexões pessoais

10. Se pudesse resumir em uma frase o que ela representa para você, qual seria?

(Vinícius) – Uma frase: obrigado por me escolher, obrigado por me amar tanto, mesmo nas vezes que não merece; te amo!

11. Que mensagem deixaria para outras avós que hoje estão criando seus netos?

(Vinícius) – A mensagem que eu deixo é de admiração extrema por todos os avós que criam seus netos como se fossem filhos. É um gesto grandioso de carinho e amor. Vocês salvam vidas, literalmente. Dão esperança de um futuro promissor a crianças que, por diferentes motivos, não teriam essa perspectiva. Meu carinho, respeito e devoção a todos.

A sociologia como uma ciência que estuda as relações sociais e as estruturas que compõem a sociedade humana, buscamos ir mais além nesta entrevista, trazendo a visão de um sociólogo Dr. em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Campina Grande, Romualdo Sales para nos contar um pouco sobre qual é a perspectiva da sociologia sobre essa configuração familiar. 

Fonte: Imagem de Agata por Pixabay

1. Contexto social e cultural

  • Como as mudanças na estrutura familiar e nos papéis sociais têm contribuído para que cada vez mais avós assumam a função de pais?

(Romualdo Sales) – As mudanças na estrutura familiar, sobretudo os novos arranjos familiares, necessariamente não têm um impacto direto no modo com que os avós vêm assumindo a função de educar os netos ou mesmo ficarem responsáveis pela criação deles. Vejamos que os novos arranjos familiares promovem deslocamentos do modelo nuclear, sendo os núcleos familiares não apenas compostos por pai, mãe e filhos, mas de novos modelos. Famílias formadas apenas por uma pessoa e um pet, pais e mães solos, avós e netos, bem como outras formas de ampliação do modelo. Esse processo, não possui uma ligação direta com o fato dos avós assumirem papeis similares aos dos pais no processo de cuidado com os netos.

  • Historicamente, como o papel dos avós na criação dos netos evoluiu no Brasil e no mundo?

(Romualdo Sales) – Sociologicamente, o papel dos avós é construído pelos contextos sociais e históricos. Precisaríamos fazer uma pesquisa mais profunda para compreender melhor as camadas do papel dos avós na criação dos netos visto que essas questões são atravessadas por dimensões de classe, raça, etnia, geração, território, entre outros. Entretanto, os avós, historicamente, atuam como figuras de suporte, isto é, auxiliam na educação de seus netos. Porém com a transformação do mundo do trabalho, a ampliação do papel da mulher no mercado de trabalho e crescimento profissional, os avós têm ampliado essa função de suporte, assim como assumido, cada vez mais, o protagonismo na educação dos netos.

  • Esse fenômeno é mais frequente em determinados contextos socioeconômicos ou culturais? Por quê?

(Romualdo Sales) – O crescimento do papel dos avós na educação dos netos e, em alguns contextos, a assunção da responsabilidade pela a criação destes, é adensado pelos contextos socioeconômicos e culturais. Vejamos que, a classe trabalhadora é mais afetada por esse processo pois demanda a necessidade de equilibrar trabalho e educação dos filhos. Os avós assumem essa responsabilidade pela criação dos netos até como forma de garantir a sobrevivência da família de seus filhos. Isso implica num movimento de pensar as relações de afetividade, bem como os desdobramentos sociais e históricos e a condição de classe no capitalismo contemporâneo.

2. Desafios e impactos

  • Quais são os principais desafios sociais e emocionais enfrentados pelos avós que assumem o papel de pais?

(Romualdo Sales) – Os avós que assumem a responsabilidade pela criação dos netos, na sociedade contemporânea, enfrentam o desafio de tentar articular papeis muitas vezes complexos. Existem várias camadas que informam o modo de lidar dos avós que assumem a função de responsável pelos netos. Em alguns casos, os seus netos ficaram órfãos, o que demanda lidar com a dor da perda dos seus próprios filhos, ao mesmo tempo em que têm o desafio de confortar seus netos, educá-los e tentar continuar suas vidas. O peso emocional e a responsabilidade social são enormes, nestes casos. A sociedade cobra uma postura carinhosa, mas também firme e comprometida dos avós, algo que coloca sobre eles pressões. Em outros casos, os avós criam seus netos com os filhos vivos, muitas vezes interferindo na educação das crianças, embora não tendo responsabilidade com elas. Quando não se trata de um processo legal no qual os avós têm a guarda dos netos, podemos assistir a tensões constantes entre pais e avós no tocante à criação dos filhos/netos. Isso gera muitos conflitos e compromete o processo de desenvolvimento das crianças e adolescentes. 

  • Como essa responsabilidade pode afetar a saúde física e mental dos avós, considerando que muitos estão em idade avançada?

(Romualdo Sales) – Levando em consideração que estatisticamente a figura dos avós geralmente encontra-se numa faixa etária mais elevada, a responsabilidade pela criação de seus netos gera algum nível de complexidade em relação à saúde física e mental. Seus corpos não apresentam tanto vigor e isso reverbera na necessidade de um cuidado maior com a saúde física, até para lidar com uma forma de vida mais agitada, bem como tentar acompanhar o ritmo das crianças e adolescentes. É preciso intensificar os cuidados com as comorbidades, a exemplo da hipertensão, diabetes, entre outras doenças. O nível de estresse de lidar com educação de crianças e adolescentes nesta fase da vida pode afetar o corpo e ele pode reagir com episódios de colapso. A saúde mental dos avós que criam netos pode ser tensionada por elementos importantes de forma benéfica ou maléfica. A presença dos netos, bem como o carinho recebido pode contribuir para que os avós possam se sentir bem, acolhidos e afetar a saúde mental dos avós de forma direta. Contudo, a responsabilidade pela criação, com todas as implicações que isto representa, pode ser um elemento complexificado. A situação de tensão que a criação de crianças e adolescentes coloca pode funcionar como elemento para desencadear problemas de ordem psicológica, sobretudo síndromes. A estafa mental e física são algumas das consequências que podem atingir os avós que cuidam de netos, além dessas questões afetarem outras esferas da vida desses avós, com a síndrome de burnout que embora seja associada ao trabalho, pode ter fatores externos que influenciam neste processo.

  • De que forma essa inversão de papéis impacta a vida social e profissional dos avós?

(Romualdo Sales) – Ao assumir a criação de seus netos, os avós se veem pressionados para lidar com várias demandas. Caso ainda estejam na ativa no mercado de trabalho, eles terão que ampliar a jornada de atividades, se desdobrando em trabalho e cuidado com seus netos. Isso implica em tentar garantir renda para a família e tentar oferecer suporte emocional, educacional e moral às crianças e adolescentes sob sua responsabilidade. Esse processo impacta diretamente na sua vida social, visto que os avós precisam controlar seu tempo, suas relações sociais de amizade, relacionamentos amorosos, dentre outros. Isso impacta em suas vidas em termos afetivos visto que não conseguem acessar alguns espaços, inclusive de lazer. No trabalho, precisam, muitas vezes, justificar ausências o que impacta no crescimento profissional, por exemplo.

3. Relações familiares e intergeracionais

  • Como a dinâmica entre gerações muda quando os avós assumem a criação dos netos?

(Romualdo Sales) – A geração dos avós e netos tem um espaço aberto e isso implica em toda uma logística para lidar com os interesses, valores e normas de cada geração. Existem choques geracionais, sem dúvidas, mas eles são pautados em negociações. Os vínculos criados entre avós e netos, bem como os sentimentos funcionam como baliza para amenizar os choques geracionais, sobretudo porque os elementos subjetivos tendem a alinhavar as relações. É importante destacar que a educação de netos criados por avós tem elementos mais rígidos em relação a valores sociais e morais de gerações atuais, mas também uma abertura maior para a afetividade. Os avós, em certo sentido, têm formas mais saudáveis de lidar com os netos, inclusive mais sensíveis em relação à educação dos próprios filhos.

  • Quais possíveis impactos essa configuração pode ter no desenvolvimento emocional e social da criança?

(Romualdo Sales) – As crianças criadas por avós, sobretudo sem a presença dos pais, apresentam um formato semelhante em termos de desenvolvimento social e emocional. Contudo esta relação pode reverberar sentimentos de ausência dos pais no processo de desenvolvimento das crianças. A presença dos pais é extremamente importante para que os sujeitos desenvolvam suas potencialidades afetivas e cognitivas. As crianças criadas por avós são, muitas vezes, cercadas de amor, mas nem sempre esse processo se efetiva e isso gera sensação de abandono. Quando se é criança, essas questões podem ganhar uma dimensão muito mais ampla em termos de sentimentos negativos, o que pode comprometer seu desenvolvimento emocional. Quando as crianças convivem com os avós, mas tem os pais presentes, temos um ponto interessante para o desenvolvimento emocional, sobretudo por elas passarem por diferentes experiências afetivas. 

  • Como os vínculos afetivos entre pais, avós e netos se reconfiguram nessa situação?

(Romualdo Sales) – Quando os avós assumem a criação dos netos, temos várias camadas. Vou explorar pelo menos duas camadas que acredito que sejam interessantes para pensar a relação avós, filhos e netos. Quando os avós assumem a criação dos netos para que seus filhos possam trabalhar, mas estes estão presentes também na criação de seus filhos, participantes diretamente do processo, temos uma situação em que é possível um desenvolvimento de vínculos afetivos fortes entre os três segmentos. Por exemplo, quando os pais trabalham o dia todo, mas a noite ficam com seus filhos que passaram o dia com os avós ou mesmo quando trabalham em outra cidade, mas nos finais de semana estão com os filhos, temos uma relação que não seria necessariamente um formato mais participativo, porém consegue funcionar em termos afetivos. É importante notar que, mesmo nessas relações, os vínculos entre pais e filhos não têm tanta aderência como uma convivência contínua. A relação entre netos e avós, que neste caso ficariam responsáveis pelos netos, tende a ser mais fortalecida. Nos casos em que os pais simplesmente abandonam os filhos e delegam a criação destes totalmente aos avós, sem presença no processo, os vínculos entre avós e netos tendem a ser mais fortes. Geralmente os netos projetam, neste caso, a figura dos avós como seus pais e é comum que passem a tratá-los como pais e mães, processo que marca uma readaptação dos sentimentos e afetos.

4. Políticas públicas e suporte social

  • Na sua visão, existem políticas públicas adequadas para apoiar avós que criam netos no Brasil?

(Romualdo Sales) – No Brasil, infelizmente, não existem políticas públicas adequadas para apoiar avós que criam netos. Deveria existir projetos educacionais para a formação da população para lidar com várias dimensões, inclusive a gravidez na adolescência que pode ser um fator importante para o papel de avós responsáveis pela criação de netos. Além disso, seria importante políticas de fortalecimento de vínculos para que as pessoas tivessem a oportunidade de fortalecer parceria com instituições do Estado para conseguir ajudar seus filhos no planejamento familiar.

  • Quais medidas poderiam ser implementadas para oferecer suporte emocional, financeiro e jurídico a essas famílias?

(Romualdo Sales) – Umas das medidas essenciais para beneficiar essas famílias seria o desenvolvimento de projetos educacionais. Não é possível transformar esta realidade sem investimento em educação, bem como projetos de extensão voltados para atender sobretudo às comunidades mais carentes. O suporte das áreas de psicologia e serviço social é essencial para que esses avós consigam oferecer melhor suporte aos seus netos, bem como ter atendimento de suas demandas enquanto direitos assegurados. Seria importante ampliar programas de distribuição de renda para essas famílias com valores que sejam maiores que o bolsa família, até porque alguns avós enfrentam o desafio de criar partes de seus filhos juntamente com os netos. Isto gera despesas gigantescas e impacta nas questões financeiras das famílias.

  • Como a sociedade pode criar redes de apoio mais efetivas para essa realidade?

(Romualdo Sales) – A sociedade poderia criar estratégias de convivência para lidar de forma mais ampla com essas demandas, sobretudo em suas comunidades. É importante também promover movimentos sociais que chamem a atenção do Estado para essas questões. Não se trata apenas de uma responsabilidade social, mas estatal. Essa pauta é pouco tratada no debate público e isso a torna invisível. É importante nos unir enquanto cidadãos para cobrar medidas do Estado. Sabemos que se trata de um fenômeno social azeitado pelo capitalismo contemporâneo. O Estado, como um comitê da burguesia como diria Marx, não vai se movimentar a não ser que nós da classe trabalhadora façamos pressão.

5. Olhar sociológico

  • Como a sociologia interpreta essa “maternidade dupla” no contexto das transformações sociais contemporâneas?

(Romualdo Sales) – A sociologia interpreta a maternidade dupla como desdobramento dos novos modelos de família. Este processo é atravessado por várias camadas, inclusive pelo contexto de crescimento das demandas dos movimentos sociais no tocante às questões de gênero e sexualidade. Os novos arranjos afetivos e sexuais têm imposto novos modelos para pensar a organização familiar, desafiando as normas morais e seus mecanismos de fazer funcionar o dispositivo da sexualidade como pensado pelo filósofo francês Michel Foucault. 

  • Esse fenômeno pode ser visto como um reflexo de crises sociais, econômicas e familiares mais amplas?

(Romualdo Sales) – Esses novos relacionamentos implicam transformações no modo de compreender o papel da família. Casais formados por pessoas de identidade de gênero para além do binário masculino e feminino, bem como orientações sexuais diversas têm fornecido condições para o surgimento da maternidade dupla. Esta maternidade, embora não tenha um modelo, geralmente é exercida por duas mulheres em relacionamentos lésbicos. A sociologia, em certo sentido, interpreta a maternidade dupla como um fenômeno social e histórico dos nossos tempos. Isso representa que se trata de uma construção social a partir de condições objetivas em determinados cenários.

  • Em termos sociológicos, que tendências futuras podemos esperar sobre o papel dos avós nas famílias?

(Romualdo Sales) –  A sociologia, enquanto ciência, não trabalha com previsões, mas é possível tecer algumas considerações sobre a temática. O papel dos avós, no desenvolvimento do capitalismo contemporâneo, tende a ser fortalecido, sobretudo na classe trabalhadora. Enquanto parte da família ampliada, os avós dão suporte na educação dos netos, especificamente a partir de um contexto de ampliação da força de trabalho e do aumento do custo de vida. Os avós, além desse suporte na criação dos netos, muitas vezes, também oferecem suporte econômico para as famílias de baixa renda. Este papel também tende a ser fortalecido levando em consideração o aumento da expectativa de vida, azeitado pelos desdobramentos socioculturais em relação à chamada melhor idade e seus desdobramentos.

Referências 

Araújo, C. P. & Dias, C. M. S. B. (2010). Avós guardiões de baixa renda. Pesquisas e Práticas Psicossociais, 4(2), 229-237.

Coutrim, R. M. E. (2007). O que os avós ensinam aos netos? A influência da relação intergeracional na educação formal e informal. GT12: Gerações – Entre Solidariedades e Conflitos, Recife, XIII Congresso Brasileiro de Sociologia, 29 maio a 1 junho de 2007, acessado em 25/04/2011, disponível em //www.sbsociologia.com.br/congresso_v02/hot_papers.asp

MAINETTI, Ana Carolina; WANDERBROOCKE, Ana Claudia Nunes de Souza. Avós que assumem a criação de netos. Pensando Fam., Porto Alegre, v. 17, n. 1, jul. 2013. ISSN 1679-494X. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-494X2013000100009. SciELO. Acesso em: 10 ago. 2025 

Matsukura, T. S. & Yamashiro, J. A. (2012). Relacionamento intergeracional, práticas de apoio e cotidiano de famílias de crianças com necessidades especiais. Rev. Bras. Educ. Espec.,18(4), 647-660. 

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Créditos

Vinícius Santos – Monitor Escolar/Concurseiro

Romualdo Sales – Dr. em Ciências Sociais

Maria das Neves – Pedagoga, Assistente Social e Advogada

Luti Christóforo

Psicólogo clínico

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