Inspirada na Lavagem do Bonfim, celebração chega à 24ª edição em Paris, reunindo música, religiosidade e discussões sobre diversidade cultural.
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A Igreja de Madeleine, no coração de Paris, se prepara para receber em setembro a 24ª edição da Lavagem da Madeleine, evento que se tornou um dos principais símbolos da presença cultural brasileira na Europa. Inspirada na tradicional Lavagem do Bonfim, em Salvador, a celebração mistura religiosidade, música e dança em um cortejo que sai da Place de la République e segue até as escadarias do templo católico, que são lavadas em um ritual simbólico.
Embora carregue o espírito festivo, o evento também é palco de reflexões sobre identidade, resistência cultural e o lugar das tradições afro-brasileiras em uma Europa que, nos últimos anos, tem revisitado seu passado colonial.
Entre festa e resistência
O idealizador da Lavagem de Madeleine, o multiartista baiano Robertinho Chaves, destaca que a iniciativa não se restringe ao folclore. “A Lavagem é um evento que inclui todos os povos, raças e religiões. É uma vitrine que apresenta o Brasil de forma digna e plural, mas também é uma forma de enfrentar a discriminação e afirmar a diversidade”, afirma.
Para pesquisadores de cultura afro-brasileira, a festa cumpre um papel ambíguo: ao mesmo tempo que exalta símbolos conhecidos, como as baianas de branco e os tambores do samba-reggae, ela também chama atenção para temas como racismo estrutural, migração e pertencimento.

foto: Frank Lavage de Madelaine
Programação cultural
Em 2025, a Lavagem contará com apresentações de nomes consagrados da música brasileira, como Olodum, Armandinho Macedo e o cantor Jau, além de rodas de capoeira, maracatu e oficinas de dança. Também estão previstos debates acadêmicos na Universidade Sorbonne sobre a herança afro-transatlântica e encontros literários que reforçam a diversidade de vozes brasileiras no exterior.
No ano passado, mais de 60 mil pessoas acompanharam a festa. A expectativa é que o público cresça em 2025, especialmente porque o evento integra a agenda do Ano do Brasil na França, promovido pelo governo francês em parceria com o Itamaraty.

Foto: Magali Moraes
Herança baiana, palco parisiense
A Lavagem de Madeleine nasceu em 2002, inspirada diretamente na Lavagem do Bonfim, festa religiosa que acontece em Salvador desde o século 18. Lá, baianas vestidas de branco lavam as escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim em um gesto de fé e sincretismo religioso, que une catolicismo e candomblé.
A transposição desse ritual para Paris, uma das capitais culturais mais cosmopolitas do mundo, traz novos significados. Para o antropólogo francês Jean-Paul Morel, que estuda manifestações culturais da diáspora africana, “a festa simboliza não apenas a saudade dos imigrantes brasileiros, mas também a capacidade da cultura afrodescendente de dialogar com diferentes contextos sociais e históricos”.
Para além da celebração
A Lavagem da Madeleine também é reconhecida pela UNESCO como parte da Rota dos Escravizados, projeto internacional que busca preservar a memória da escravidão e de seus impactos. Ao longo dos anos, já atraiu nomes como Caetano Veloso, Daniela Mercury e Margareth Menezes, reforçando seu prestígio cultural.
Mas críticos lembram que, apesar do alcance, o evento ainda enfrenta o risco de ser absorvido apenas como espetáculo turístico. “Existe sempre a tensão entre o que é festa para os visitantes e o que é resistência para as comunidades afrodescendentes. É importante não perder esse eixo político”, alerta a pesquisadora baiana Ana Paula Barreto, especialista em cultura popular.
Significado atual
Com a Europa vivendo intensos debates sobre racismo, imigração e inclusão social, a Lavagem da Madeleine ganha um peso adicional. Para os organizadores, a festa não é apenas sobre mostrar o Brasil, mas sobre afirmar que a cultura afro-brasileira é um patrimônio vivo e em constante diálogo com o mundo.
Saiba mais: Site do Evento












