Rapper Oruam na chegada à Cidade da Polícia, na Zona Norte do Rio — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Investigação aponta que residência do artista no Rio servia de refúgio para criminosos ligados ao tráfico; ação policial terminou com confronto e feridos.
A Justiça do Rio de Janeiro decretou, nesta terça-feira (22), a prisão preventiva do rapper Oruam, nome artístico de Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, de 24 anos, filho do traficante Marcinho VP, apontado como um dos líderes do Comando Vermelho. A decisão foi motivada por indícios de que a residência do artista, localizada no bairro do Joá, Zona Oeste da capital, servia como esconderijo para criminosos foragidos e integrantes da facção.
Segundo a investigação conduzida pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Oruam teria abrigado em sua casa, em diferentes ocasiões, suspeitos ligados ao tráfico de drogas e a crimes violentos na cidade. Em fevereiro deste ano, a polícia já havia encontrado no local o traficante conhecido como “Batata”, foragido da Justiça e portando armamento restrito. O episódio mais recente ocorreu na noite da última segunda-feira (21), quando agentes da DRE foram até o imóvel para apreender um adolescente acusado de roubo de veículos e atuação como segurança do tráfico. A tentativa de abordagem terminou em confusão.
De acordo com o relato dos policiais, Oruam e pessoas próximas tentaram impedir a ação com agressões verbais e físicas, jogando pedras contra os agentes e causando lesões em pelo menos um deles. O músico também teria usado sua condição de filho de Marcinho VP como forma de intimidação, o que foi considerado um agravante. O caso culminou no indiciamento por crimes como associação para o tráfico, tráfico de drogas, lesão corporal, resistência, desacato, dano ao patrimônio público e ameaça.
Na decisão que determinou a prisão preventiva, a juíza Ane Cristine Scheele Santos destacou que há risco concreto à ordem pública, já que a residência do artista estaria sendo utilizada como espaço de proteção e apoio a criminosos foragidos, além de servir como ponto de articulação para atos contra a lei. A magistrada ainda citou o comportamento hostil de Oruam e seus associados durante a operação policial como evidência da gravidade do caso.
Oruam ganhou projeção nacional no cenário musical nos últimos anos, com músicas que fazem referência a sua trajetória e, indiretamente, ao histórico familiar. Em 2024, se apresentou no Lollapalooza vestindo uma camisa com a palavra “Liberdade” estampada e a foto do pai preso. Mesmo após polêmicas e críticas, o rapper sempre alegou que seu patrimônio foi conquistado exclusivamente por meio da música.
Em suas redes sociais, Oruam costuma afirmar que é alvo de perseguição por parte do Estado e das instituições policiais, que, segundo ele, utilizam seu sobrenome e suas origens como justificativa para reforçar estereótipos racistas e preconceituosos. Para o artista, sua condição de homem negro, periférico e filho de um criminoso famoso o transforma, aos olhos do sistema, em suspeito permanente, mesmo quando constrói sua trajetória de forma independente através da música. A defesa do artista ainda não se manifestou oficialmente sobre a decisão da Justiça. Oruam não foi localizado até o fechamento desta edição.
A prisão preventiva foi fundamentada nos artigos 311 a 313 do Código de Processo Penal, para garantir o andamento das investigações e a integridade da ordem pública, diante do risco de novos episódios semelhantes.
A repercussão do caso reacende o debate sobre a relação entre cultura, música e apologia ao crime, especialmente em um cenário onde artistas oriundos de comunidades marginalizadas frequentemente enfrentam acusações ligadas ao tráfico, mesmo quando buscam se desvincular desse contexto.












