Apropriação de empresa chinesa de chips com sede na Holanda intensifica disputa por semicondutores, ligando o alerta em montadoras europeias e brasileiras.
Nesta quinta-feira (24), a Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores) esclareceu em nota a possibilidade de paralisação operacional das montadoras no Brasil por escassez de insumos. No documento a associação correlaciona a insuficiência do mercado aos conflitos geopolíticos atuais, como a apropriação do governo holandês sobre a Nexperia, subsidiária chinesa com sede na Holanda. A exemplo também das respostas de Pequim, que nos últimos dias, vem dificultando a exportação de terras raras – setor dominado pela China em quase 90% de produção – e a redução de distribuição de componentes eletrônicos mundo afora.
A Nexperia, especializada em chips básicos para funcionamento eletrônico, havia sido proibida de exportar seus chips da sua sede na China, no distrito de Dongguan. Além disso, a matriz com sede na Holanda, enviava à China suas remessas de chips para serem empacotados, algo que foi dificultado após apropriação da matriz pelo governo holandes, retirando seu presidente-executivo Zhang Xuezheng.
Apesar de não ser a única distribuidora desses componentes eletrônicos usados pela indústria, a empresa se destaca pelo fluxo intenso de sua produção. O setor teme que, este evento aliado a redução de exportação de insumos naturais da China para o resto do mundo, impacte negativamente outras desenvolvedoras de chips, sobrecarregando a demanda.
“Veremos paradas e desacelerações na produção em breve no mundo todo porque muitos fornecedores não têm estoque suficiente dos chips”, afirmou um agente de alto escalão do setor automotiva, em situação de anonimato, ao jornal norte-americano, Politico.

Europa x China
Após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, as relações entre a Europa e a China desestabilizaram. Bruxelas mantém, apesar de certa cautela, desenvolvimento de leis e bloqueios a Pequim, como a aprovação em 2022 do ‘Instrumento de Contratação da Internacional da União Europeia’, aumento de tarifas em automóveis e eletrônicos chineses ou denúncias na OMS, na tentativa de minar a presença comercial e política da China na Europa. A cautela, apesar de conflito crescente, representa o conhecimento geral europeu de dependência tecnológica da China.
A Holanda, sede da Nexperia, se tornou nos últimos anos um agente estratégico nesse momento em que o mundo vive um prenuncio de conflito global visando hegemonia tecnológica.
Além da Nexperia, o país detém em seu território a sede da ASML, principal empresa de produção de sistemas litográficos. Sistema primordial para a produção dos chips mais avançados do mundo, utilizado pela TSMC, maior fabricante de chips avançados do mundo, com sede na ilha de Taiwan.
A alegação do governo holandês sobre a apropriação da empresa e expulsão do presidente-executivo, é de que houve suspeitas sobre apropriação intelectual por parte do grupo Wingtech, grupo que controla 100% a Nexperia. De acordo com o governo, o grupo Wingtech estaria, supostamente, desidratando a produção da Nexperia holandesa e transferindo know-how para a unidade chinesa. Isso implica com políticas adotadas pelo governo dos EUA e adotada por aliados em isolar a China na produção de chips, com barreiras comerciais e sanções, na tentativa de impossibilitar que a China continue na briga pela hegemonia tecnológica global.
Em setembro, o governo dos Estados Unidos expandiu a lista de empresas que o país considera como uma ameaça nacional. A Wingtech já havia sido inserida neste documento em 2024, entretanto, a renovação desta lei incluiu subsidiárias, o que acabou tornando a Nexperia alvo.
Apesar de já ser de conhecimento público a cooperação entre os Estados Unidos e a Holanda nas políticas de distribuição de chips e fornecimento de know-how, o governo holandês declarou que foi “apenas coincidência”.
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