Espetáculo de dança e música resgata personagem das favelas do Rio e convida o público a refletir sobre memória, ancestralidade e resistência cultural
O Gorila de Saco está de volta — desta vez, nos palcos. O experimento cênico idealizado por Luzé Gonçalves estreia no teatro como parte da abertura oficial do Festival Palavra Líquida 2025, um dos eventos mais relevantes para as artes cênicas no Rio de Janeiro. As apresentações acontecem nos dias 5 e 6 de setembro, no Sesc Copacabana, e retornam no dia 14 de setembro no Sesc São João de Meriti, na Baixada Fluminense, com entrada gratuita.
Gorila de Saco e a tradição popular
Resultado de seis anos de pesquisa, o espetáculo mergulha na história do personagem que marcou gerações nas favelas da Zona Norte e da Zona Oeste do Rio. O Gorila de Saco era um mascarado que desfilava pelas ruas à noite, vestido com sacos e causando susto e riso nas crianças. A figura, ao mesmo tempo misteriosa e lúdica, tornou-se parte de uma memória coletiva que mistura medo, brincadeira e cultura popular.
O projeto já foi explorado em filme e folguedo, mas esta é a primeira vez que o Gorila de Saco é levado para o teatro. “É meu desejo, ao fazer o filme, o folguedo e agora essa apresentação, que a gente tire o gorila de saco do lugar da violência e do estigma”, diz Luzé. A artista, que cresceu em Padre Miguel, carrega em sua história familiar a tradição de carnaval e vê o espetáculo como um ato de celebração e ressignificação.
Gorila de Saco como símbolo de resistência cultural
Durante décadas, o personagem foi visto com desconfiança e até proibido em algumas regiões, sendo associado a atos violentos. Para Luzé, no entanto, o Gorila de Saco é um símbolo de resistência e criatividade das periferias. “Queremos que o público veja além do susto e perceba a beleza da mascarada, a festa, o jogo, a memória de quem veio antes”, afirma.
Com direção e dramaturgia de Renata Tavares e Luzé Gonçalves, o espetáculo é encenado por VN Rodrigues e conta com trilha sonora ao vivo de Beà Ayóòla. A instalação de luzes em LED, assinada por Matheus Petrovich, e o figurino de Wanderley Gomes criam um ambiente imersivo, reforçando o caráter ritualístico da montagem. Com duração de 30 minutos e classificação indicativa de 12 anos, o trabalho convida o público a participar de uma experiência sensorial única.
Gorila de Saco abre o Festival Palavra Líquida 2025
Integrando a programação de abertura da 10ª edição do Festival Palavra Líquida, que este ano tem como tema o tempo e a festa, o Gorila de Saco é uma escolha simbólica para celebrar a memória e a cultura popular carioca. A presença do espetáculo no festival reforça a proposta de valorizar manifestações que conectam corpo, território e ancestralidade.
As apresentações em Copacabana e São João de Meriti são uma oportunidade para o público revisitar um personagem que fez parte da infância de muitos. Gratuitas e abertas ao público, elas transformam o Gorila de Saco em um evento de preservação cultural, convidando novas gerações a conhecerem e celebrarem essa tradição que, por muito tempo, foi vista apenas pelo viés do medo.












