Mais de meio milhão de palestinos enfrentam inanição; Israel contesta relatório e nega crise alimentar
Pela primeira vez, a fome foi oficialmente declarada na Faixa de Gaza. Segundo relatório da Classificação Integrada da Segurança Alimentar (IPC), divulgado nesta sexta-feira (22), mais de 514 mil palestinos, quase um quarto da população do território, estão em situação de fome, marcada por desnutrição aguda, miséria e mortes evitáveis. O número pode chegar a 641 mil até setembro.
A ONU afirma que a crise resulta de quase dois anos de guerra entre Israel e o grupo Hamas, que controla Gaza, somados a restrições severas ao acesso de ajuda humanitária, destruição de terras agrícolas, deslocamentos forçados e colapso dos serviços básicos. Trata-se da primeira vez que o IPC registra fome fora da África, anteriormente a classificação havia sido aplicada apenas em países como Somália, Sudão e Sudão do Sul.
No norte do território, que inclui a Cidade de Gaza, a situação é a mais crítica. O relatório prevê que a fome se espalhe nas próximas semanas para as regiões de Deir al-Balah e Khan Younis. Estimativas apontam que 12 mil crianças sofrem desnutrição extrema, número seis vezes maior que no início do ano. Até meados de 2026, mais de 43 mil podem enfrentar risco grave de morte por desnutrição.
Autoridades da ONU responsabilizam diretamente Israel. O alto comissário de Direitos Humanos, Volker Türk, afirmou que a fome decorre de ações israelenses que restringiram a entrada e distribuição de alimentos e destruíram infraestrutura essencial. Para ele, usar a fome como método de guerra pode configurar crime de guerra.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou a situação como um “desastre causado pelo homem” e pediu cessar-fogo imediato, liberação de reféns ainda em poder do Hamas e acesso humanitário irrestrito.

“As pessoas estão passando fome. As crianças estão morrendo. Não podemos permitir que isso continue impune”, disse.
Israel rejeitou as conclusões do IPC, chamando-as de “falsas e enviesadas”. O governo israelense afirma que não há fome no enclave e que o relatório se baseia em dados fornecidos pelo Hamas, sem levar em conta um recente aumento no envio de alimentos. O Cogat, órgão militar que controla o fluxo de ajuda, acusou o estudo de servir à “propaganda” do grupo palestino.
A ONU e agências internacionais, no entanto, alertam que os meios de sobrevivência em Gaza estão esgotados. “A fome e a desnutrição ceifam vidas todos os dias. O acesso humanitário total e um cessar-fogo imediato são essenciais para salvar vidas”, disse Cindy McCain, diretora do Programa Mundial de Alimentos.
Desde o início da guerra, em outubro de 2023, após ataque do Hamas que deixou 1,2 mil mortos em Israel, mais de 62 mil palestinos foram mortos pela ofensiva israelense, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas.











