O uso de plataformas digitais de edição e inteligência artificial intensificam a busca pela “beleza idealizada”; cirurgiões alertam para os limites éticos e biológicos e reforçam a importância do atendimento humanizado
A busca pela perfeição estética deixou de ser apenas inspirada em celebridades e modelos. Hoje, a referência vem das telas do celular, através dos filtros de redes sociais. Estudos revelam que o uso constante de filtros digitais e aplicativos de edição de imagem está associado ao aumento da procura por procedimentos estéticos e até cirurgias plásticas no Brasil. O especialista Dr. Vinícius Julio Camargo, médico cirurgião plástico e diretor técnico do Alda Instituto de Saúde, explica esse fenômeno e reforça a importância do papel do cirurgião plástico nesse momento decisivo na vida dos pacientes.
Uma pesquisa publicada em 2024 pela revista científica Cosmetics mostrou que mais de 53% dos pacientes interessados em cirurgias faciais utilizam filtros e aplicativos de edição, e muitos admitem que essas ferramentas influenciaram sua decisão. Além disso, segundo estudo publicado pela PubMed em 2024, pacientes mencionam filtros digitais durante as consultas e chegam a levar imagens editadas com o resultado desejado.
Dr. Vinícius confirma e explica que, embora não sejam casos muito recorrentes, há pacientes que fazem uso de imagens editadas para mostrar o resultado esperado e o profissional precisa agir com clareza nesse momento.
“Sim, já aconteceu inclusive de algumas pacientes chegarem ao consultório com uma foto delas mesmas, já com uma simulação do resultado que esperavam para a cirurgia. Numa situação como essa, é claro que eu também tenho que interpretar a possibilidade de melhora, o que realmente posso entregar em termos de resultado do procedimento e trazer clareza para essa paciente de que o resultado da cirurgia não é tão objetivo ou tão simples quanto uma imagem produzida através de recursos digitais”, comenta.
Padrões de beleza e inteligência artificial
Há casos em que, mesmo que o resultado seja possível através de edições no celular ou em filtros, na vida real ele pode ser inalcançável. O cirurgião plástico relata que já recusou pacientes que chegaram ao consultório com referências geradas por inteligência artificial. “Uma paciente trouxe uma imagem de como ela ‘deveria’ ficar. Expliquei, com respeito, que aquele padrão era inalcançável e que as mudanças promovidas pela cirurgia plástica devem, antes de tudo, respeitar a individualidade de cada pessoa”, conta.
Entre os procedimentos mais afetados, especialista destaca a alta procura pela rinoplastia, uma das cirurgias mais solicitadas devido à facilidade dos filtros que transformam essa área do rosto no famoso “nariz mais fino e arrebitado”. Contudo, a influência dos filtros e edições não se restringe apenas ao rosto: a exposição de corpos “perfeitos”, sem gordura localizada e com curvas acentuadas, também impulsiona a busca por procedimentos estéticos.
“O mais fácil e o mais frequente realmente é a rinoplastia. Até pela facilidade, como comentei anteriormente, de acesso a aplicativos que realizam esse tipo de simulação. Para outras cirurgias, como a inclusão de prótese de silicone mamário, é comum as pacientes trazerem fotos de outras pessoas, captadas nas redes sociais ou até mesmo de amigas. O detalhe é que cada pessoa apresenta características individuais de pele: o grau de flacidez, a espessura, a tonicidade, o volume mamário. É muito comum também que as pacientes apresentem alterações anatômicas na região do tórax, por exemplo, no planejamento de uma cirurgia mamária”, explica Dr. Vinícius.
Importância do atendimento humanizado
Em tempos de facilidade de acesso a mudanças de imagem através de plataformas digitais, o atendimento em consultório torna-se fator determinante e crucial para o paciente. Dr. Vinícius destaca a importância de um atendimento humanizado e personalizado.
“Nesse aspecto, é importantíssimo que o cirurgião avalie de que maneira a realização da cirurgia pode realmente trazer benefícios para a paciente. Quando existe uma boa indicação técnica, ou seja, quando a paciente terá um benefício grande em relação ao procedimento, e o profissional entende a expectativa da paciente e coloca sua prática profissional em execução de maneira ética e responsável, buscando o melhor para a paciente, a possibilidade da conquista do resultado tão desejado é muito evidente. Isso é o que desperta tanta atenção para a cirurgia plástica”, afirma.
Por fim, para ele, a cirurgia plástica não deve ser uma “fábrica de padrões”, mas uma prática voltada ao cuidado, à autoestima e ao bem-estar. “Nosso papel é promover mudanças que resultem em harmonia, respeitando o que cada paciente tem de mais precioso: sua individualidade”, conclui.

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