Procissão reuniu comunidade do Pará em São Paulo em homenagem à padroeira e celebrou quatro décadas de devoção
Neste domingo (12), as ruas do bairro do Sumaré foram tomadas pela fé e emoção dos fiéis durante a 40ª Romaria do Círio de Nazaré. A procissão saiu às 10h30 em direção ao Santuário Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em um percurso de cerca de 3 km que reuniu a comunidade paraense residente em São Paulo. Ao fim do trajeto, foi celebrada a tradicional missa em homenagem à padroeira.
O Círio de Nazaré é uma oportunidade para os paraenses que vivem fora de Belém manterem viva a fé e a cultura de suas origens na capital paulista.

Paula Machado, uma das pioneiras na organização do Círio em São Paulo, relembrou que a celebração ocorre desde 1979.
“O nosso grupo era bem maior, mas alguns conterrâneos voltaram para Belém, outros desistiram e outros faleceram”, lamentou.
A organizadora conta que, no passado, a festa chegou a reunir cerca de 5 mil pessoas. Mesmo com a redução no número de fiéis, ela afirma sentir-se grata por participar do evento.
Paula lembrou ainda que o Círio já foi celebrado em diferentes bairros da capital, como o da Bela Vista. “O último Círio realizado no Ipiranga foi em 2015, e depois viemos para o Sumaré”, explicou.
Devoção e histórias com Nossa Senhora de Nazaré
Carinhosamente chamada de “Nazinha” pelos devotos, Nossa Senhora de Nazaré é homenageada pela canção Zouk da Naza, do cantor paraense Almirzinho Gabriel, que retrata a relação de fé entre os fiéis e a santa.
Irmã Elisângela, apóstola do Sagrado Coração e natural de Castanhal (PA), destacou a emoção de participar da celebração mesmo distante de sua terra natal.
“A gente sente essa força, essa energia, essa presença do ser católico, da presença realmente de Nossa Senhora de Nazaré. Onde quer que a gente vá”, disse emocionada.
Responsável pela ornamentação da berlinda, o andor que conduz a imagem da santa, o paraense Adam Costa, que mora em São Paulo há dois anos, falou sobre o significado do trabalho.
“A inspiração veio das berlindas paraenses, foi um olhar de um filho da terra. Eu priorizei que a imagem da Santinha ficasse em destaque”, explicou.
Outro devoto, Washington Freitas, conta que buscou a comunidade paraense logo que chegou à capital paulista. Ele recorda com carinho os pedidos que fazia durante a trasladação, procissão que ocorre na véspera do Círio.
“Eu já pedi para passar no vestibular, inclusive passei”, lembrou, com os olhos marejados.
A psicóloga Ayo Meirelles, natural da Ilha de Marajó, relatou que sua relação com Nossa Senhora de Nazaré vem da tradição familiar. Ayo ressaltou que o Círio é mais do que uma celebração religiosa.
“Minha avó, uma afro-indígena, tinha uma devoção muito grande. Ela viajava para Belém todos os anos. Eu sou uma mulher trans, e para mim é uma vivência cultural, uma identidade de um povo. A imagem peregrina traz o rosto das mulheres paraenses, o Menino Jesus no colo de Maria tem o rosto de um curumim indígena. Isso faz do Círio uma festa de todos”, afirmou.
Moradora da Vila Mariana há 25 anos, Gisele Alcântara participa do Círio anualmente. Além da fé, ela aproveita a data para complementar a renda familiar com a venda dos tradicionais bombons de cupuaçu. “
Todo ano eu venho para o Círio de Nazaré com minha filha, Beatriz. Com a venda dos bombons, consigo ajudar nas despesas da casa”, comentou.
O início da devoção
A história de Nossa Senhora de Nazaré em Belém mistura fé, lenda e registros históricos. Embora os jesuítas já tivessem iniciado a devoção no Pará em 1653, foi na capital paraense que ela se consolidou, após o misterioso achado da imagem por Plácido José de Souza, por volta de 1700.
Segundo relatos, Plácido encontrou a pequena imagem da santa às margens de um igarapé. Ele a levou para casa, mas a escultura desaparecia repetidamente e reaparecia no mesmo local onde fora encontrada — episódio conhecido como o “milagre do retorno”. O fenômeno levou à construção de uma pequena ermida, ponto de origem do atual bairro de Nazaré.
Com o aumento da devoção, o bispo Dom Frei João Evangelista pediu autorização à Igreja para celebrar uma festa em homenagem à santa. O primeiro Círio ocorreu em 8 de setembro de 1793, organizado pelo governador Francisco de Souza Coutinho, em agradecimento por uma cura atribuída à intercessão de Nossa Senhora de Nazaré.
A procissão reuniu milhares de fiéis e marcou o início da tradição que, ao longo dos séculos, se tornaria o maior evento religioso do país.
As sucessivas construções erguidas para abrigar a imagem deram origem à Basílica Santuário de Nazaré, iniciada em 1909 pelos padres barnabitas. O templo foi inspirado na arquitetura italiana e, em 1923, recebeu do Papa Pio XI o título de Basílica Menor, em reconhecimento à importância da devoção mariana na Amazônia.
Desde então, a imagem original permanece guardada no altar principal, enquanto a Imagem Peregrina participa das romarias e procissões do Círio.












