O Fiontar (Programa de pesquisa da Fiocruz na Antártica) apresentou mais uma importante contribuição para a saúde global e a biodiversidade. Os patógenos do vírus Influenza foram encontrados em duas aves e um leão-marinho-antártico, já identificados sem vida, nas Ilhas Shetland do Sul. Os resultados reforçam a presença do vírus H5N1 na Antártica e ajudam a entender suas rotas de disseminação, ampliando os riscos para a fauna local já ameaçada por fatores como mudanças climáticas e turismo. As autoras destacam a importância da vigilância e da abordagem de saúde única, diante dos impactos do vírus em animais silvestres, na produção agropecuária e em casos humanos esporádicos.
Pesquisa decodificou os genomas de três cepas do vírus influenza A H5N1, causador da gripe aviária, detectadas no continente gelado.
“A análise dos genomas é fundamental para conhecer os caminhos percorridos pelos microrganismos. Observamos que cada um dos três vírus analisados está ligado a uma introdução diferente do H5N1 na Antártica. Isso reforça a necessidade de vigilância, com pesquisas contínuas para monitorar a disseminação e os impactos desse patógeno na região”, declara Maria Ogrzewalska, pesquisadora do Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e integrante da equipe do Fioantar.

As pesquisadoras reforçam, para os profissionais que atuam na região, a atenção para os protocolos de biossegurança que que previnem infecções que podem ocorrer através do contato com animais doentes ou mortos.
“Trabalhamos na perspectiva de ‘uma só saúde’. Um vírus respiratório detectado em animais, em qualquer região do mundo, pode vir a ter impacto na saúde humana global. O monitoramento em diferentes regiões do mundo, incluindo a Antártica, é estratégico para melhor prevenção e enfrentamentos de possíveis pandemias”, salienta Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais do IOC/Fiocruz.
Para agilizar a comunicação com a comunidade científica, as sequências genéticas foram disponibilizadas no GISAID e uma versão preliminar do estudo publicada no Research Square. Um artigo também foi submetido a uma revista científica e está em revisão.
Diferentes introduções do vírus
O estudo, resultado das expedições do projeto Fioantar nos verões de 2023 e 2024, confirmou a presença do vírus H5N1 na Antártica, com o primeiro registro feito em janeiro de 2024 em um gaivotão na Ilha Livingston. Posteriormente, em dezembro do mesmo ano, o vírus foi detectado também em um petrel-pintado e em um leão-marinho-antártico. As análises genéticas revelaram duas linhagens distintas do H5N1: uma associada a mamíferos marinhos da América do Sul, vinda possivelmente da Argentina, e outra de origem aviária, vinda da Geórgia do Sul, importante ponto de disseminação viral. Os achados demonstram múltiplas rotas de entrada do vírus na Antártica, afetando tanto aves quanto mamíferos marinhos e reforçando a necessidade de vigilância constante.
“Algumas variações genéticas indicam que o clado de mamíferos marinhos tem adaptações que facilitam a transmissão entre mamíferos. No entanto, a caracterização de linhagens do H5N1 ainda é inicial. Até o momento, observamos que vírus dos dois clados são capazes de infectar aves e mamíferos, mas existem diferenças na frequência de infecções”, aponta Maria.
Projeto Fiontar
Desde 2019, o projeto Fioantar leva anualmente pesquisadores da Fiocruz à Antártica para monitorar microrganismos com potencial risco à saúde global ou uso em biotecnologia. Em 2019-2020, foi detectado o vírus influenza A (H11N2) em pinguins, indicando sua circulação contínua. Já em 2023, um coronavírus aviário foi identificado em fezes de gaivotões, com genoma semelhante a um Deltacoronavírus já encontrado em pinguins-gentoo. Os estudos reforçam a necessidade de vigilância viral na fauna antártica.
“Através do Fioantar, a Fiocruz vem pesquisando a presença de diversos tipos de patógenos em animais e no ambiente antártico. Os estudos sobre vírus respiratórios contribuem para ampliar a compreensão sobre como essas doenças, incluindo a influenza, se disseminam ao longo do tempo, nas diferentes espécies nessa região”, aponta Marilda.













