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Espaços em ruínas: A estética do abandono nos centros urbanos.

Como a exclusão, o envelhecimento e a superlotação desenham as ruínas vivas das grandes cidades.

Nos corações pulsantes das cidades entre arranha-céus modernos e avenidas congestionadas, existem silêncios. São edifícios desativados, fábricas desativadas, casarões tombados pelo tempo que são fragmentos urbanos que carregam em suas rachaduras memórias, esquecimentos e uma beleza inesperada. Esses espaços em ruínas, muitas vezes vistos como sinais de decadência, estão ganhando novas leituras: a estética do abandono.

Memória impressa na parede:

Ao andar por bairros centrais de grandes metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre ou Recife, é fácil encontrar prédios vazios, muitos dos quais datam dos séculos XIX e XX. De longe, parecem apenas estruturas desfeitas pelo desgaste e pela negligência. De perto, revelam camadas de histórias: rebocos desgastados que deixam à alvenaria original, janelas de madeira carcomida, grafites que dialogam com os tempos atuais.

“Esses lugares contam a história do crescimento urbano, das transformações urbanas, das políticas de habitação e até mesmo das tensões sociais”, explica a urbanista e professora Helena Gama da Universidade Federal de Minas Gerais. O abandono não é apenas físico, é também simbólico. Reflete escolhas sobre o que a cidade valoriza e o que ela descarta.

A beleza no desgaste:

Nos últimos anos, fotógrafos, cineastas e artistas visuais têm se interessado cada vez mais por essa estética. O que era antes marginalizado ou inviabilizado agora é capturado em imagens poéticas, melancólicas, por muitas vezes arrebatadoras. No Instagram, hashtags como #urbex (urban exploration) e #ruinporn (pornografia das ruinas) réunem milhares de acessos de registros ao redor do mundo.

O fotógrafo André M. Oliveira, que mantém um projeto sobre arquitetura em ruínas no Brasil, comenta: “Existe uma beleza no desgaste, uma verdade crua. As ruínas não mentem. Elas mostram o que somos quando deixamos de cuidar, mas também o que fomos, o que poderíamos ter sido.”

Entre o abandono e a revitalização.

O debate desses espaços abandonados é tema de intensos debates. De um lado, há quem defenda o patrimônio histórico e cultural. De outro, há pressões por requalificações urbanas que transformam essas estruturas em empreendimentos comerciais ou residenciais, muitas vezes deslocando populações vulneráveis.

Um exemplo emblemático é a Estação Ferroviária de João Pessoa, desativada há décadas, alvo de projetos de revitalização que ainda não saíram do papel. “É preciso pensar em usos que dialoguem com a cidade e com a população real, não apenas com o interesse de mercado” alerta a socióloga Clara Nunes, especialista em direito à cidade.

Ruínas vivas:

Apesar do abandono físico, muitos desses espaços seguem vivos. São ocupados por movimentos sociais, transformados em centros culturais autogeridos ou servem de abrigo informal para populações em situação de rua. São, portanto, espaços de resistência, onde o abandono se transforma em reinvenção.

A estética de abandono nos centros urbanos, portanto, não é um olhar só para a decadência. É um convite para repensar o que deixamos para trás, o que escolhemos preservar e para quem. Em cada parede rachada, em cada piso de madeira carcomido, pulsa a cidade que fomos, a cidade que ainda somos, e a cidade que ainda podemos ser.

São Paulo – um retrato e um brinde à desigualdade:

Na capital paulista, o abandono urbano tem raízes profundas: processos de especulação imobiliária, o esvaziamento de áreas centrais, a degradação dos transportes públicos e a ausência de políticas de moradias eficazes. O centro que já foi o coração financeiro e cultural da cidade, hoje abriga centenas de imóveis desocupados, enquanto cerca de 50 mil pessoas vivem em situação de rua (segundo dados de 2024).

“Em São Paulo, o abandono não é falta de uso, mas falta de acesso. É um abandono imposto pela desigualdade e pela lógica do lucro imobiliário”, explica a arquiteta e urbanista Carolina Furtado, da FAU-USP.

Enquanto o setor privado espera a valorização dos imóveis para vendê-los, prédios inteiros ficam ociosos e, muitas vezes, são ocupados por movimentos sociais de moradia como o MSTC (Movimento Sem Teto do Centro). A cidade que cresce verticalmente também deixa suas raízes, sem cuidado.

Tóquio: Um silêncio perturbador em meio a imensidão:

Já em Tóquio, o abandono urbano tem outra causa: o envelhecimento da população e o êxodo rural. Casas são deixadas vazias quando seus donos morrem e os herdeiros, que por muitas vezes são moradores de áreas urbanas mais centrais ou de outras províncias, não têm interesse em manter os imóveis.

Essas casas desabilitadas são conhecidas como “akiya”, e estima-se que o Japão tenha mais de 9 milhões espalhadas pelo país. Em Tóquio, especialmente nos subúrbios e arredores, há bairros inteiros com baixa densidade populacional, mas com infraestrutura de alta qualidade, com ruas limpas, transporte funcional porém sem vida social.

“O Japão vive uma crise silenciosa de abandono, causada por fatores culturais e demográficos. É um abandono ordenado, mas não impactante”, observa o sociólogo Masaki Nakamura, da Universidade de Tóquio.

Kowloon: A cidade sem lei

Até ser demolida em 1993, Kowloon Walled City foi um enclave urbano único. Localizada em Hong Kong, essa cidade murada tinha cerca de 33 mil pessoas vivendo em apenas 2,6 hectares, uma densidade superior a qualquer outro lugar do planeta. Formada por dezenas de blocos de apartamentos construídos de forma desorganizada, quase que empilhados, a favela vertical operava à margem do governo, sem regulamentação de construção, saneamento e segurança.

Ali, dentistas ilegais, fábricas improvisadas, templos e creches coexistem em corredores estreitos que a luz do sol mal entrava. Um caos funcional, fruto do abandono institucional e da necessidade humana de sobreviver onde o sistema falha.

“Kowloon era uma cidade de excesso onde o estado estava ausente e as pessoas criaram a sua própria ordem”., escreveu o escritor Deyan Sudjic.

Três cidades e três reflexos de um mesmo corpo urbano:

Essas três realidades, a favela vertical de Kowloon, os edifícios abandonados de São Paulo e as casas vazias de Tóquio, mostram que o abandono urbano não é apenas ausência de uso. Ele é, antes de tudo, ausência de política, de planejamento justo, de compromisso com a vida urbana como bem coletivo.

  • Kowloon revela o que acontece quando o estado desiste de governar o espaço urbano.
  • São Paulo revela o que acontece quando o mercado dita as regras da cidade.
  • Tóquio revela o que acontece quando o envelhecimento e o formalismo social desativam lentamente a ocupação urbana.

E o Futuro?

Entre a densidade extrema de Kowloon (já extinta), a desigualdade crônica de São Paulo e o vácuo populacional de Tóquio, talvez o maior desafio seja reaprender a ocupar de forma mais justa, equilibrada e humana.

A cidade ideal talvez não exista. Mas, entre os escombros de Kowloon, os edifícios esquecidos de São Paulo e os bairros silenciosos de Tóquio, o que se busca é o mesmo: uma cidade onde todos possam habitar, com dignidade.

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