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Escritores boicotam The New York Times por cobertura considerada tendenciosa sobre Gaza

New York Times Building | Foto: Ajay Suresh

Autores e figuras públicas acusam o jornal de parcialidade pró-Israel e suspendem colaborações com a seção de Opinião até que mudanças editoriais sejam implementadas

Mais de 300 escritores, acadêmicos e personalidades anunciaram um boicote à seção de Opinião do The New York Times, acusando o jornal de “apologia ao genocídio” e de “branquear os crimes israelenses” cometidos em Gaza.

Mais de 300 escritores boicotam The New York Times por cobertura considerada tendenciosa sobre Gaza
The New York Times | Foto: Wally Gobetz via Flickr

Nomes de peso da cultura e academia aderem ao protesto

Entre os signatários estão nomes de grande projeção, como a deputada norte-americana Rashida Tlaib, as autoras Sally Rooney e Rupi Kaur, a ativista Greta Thunberg, a atriz Hannah Einbinder, além de artistas e intelectuais como Nan Goldin, Mona Chalabi, Mosab Abu Toha e Gabor Maté. Todos já tiveram relação direta com o jornal — seja como colaboradores, personagens de reportagens ou convidados para escrever artigos.

O movimento é articulado por entidades pró-Palestina, como o Writers Against the War on Gaza (WAWOG), o Democratic Socialists of America (DSA) e o Palestinian Youth Movement (PYM). O grupo exige que o jornal norte-americano revise suas práticas editoriais em relação à cobertura do conflito na Palestina.

Os participantes condicionam o fim do boicote a três medidas:

  • A redação deve realizar uma revisão sobre o viés anti-palestino e elaborar novos padrões editoriais para a cobertura da Palestina. O Times precisa corrigir décadas de reportagens tendenciosas e racistas sobre o tema, revisando e atualizando seu manual de estilo, seus métodos de apuração e citação, além de suas práticas de contratação. O jornal deve proibir que jornalistas que serviram nas Forças de Ocupação de Israel cubram as guerras do país e encerrar a prática de publicar informações obtidas por meio de jornalistas incorporados ao exército israelense.
  • A redação deve retirar a investigação amplamente desmentida “Screams Without Words”. Em 2004, o ombudsman do Times reconheceu os erros do jornal ao noticiar, de forma incorreta, a existência de supostas “armas de destruição em massa” no Iraque — uma cobertura que ajudou a impulsionar a desastrosa invasão norte-americana. “Screams Without Words”, com suas alegações sem evidências de “agressões sexuais usadas como arma” em 7 de outubro, foi igualmente nociva. Sua principal pesquisadora foi demitida por ter curtido postagens abertamente genocidas nas redes sociais; suas principais testemunhas foram desacreditadas; e os próprios entrevistados vieram a público negar as alegações. A reportagem não atendeu nem mesmo aos padrões de checagem de fatos do próprio Times.
  • O Conselho Editorial deve defender um embargo de armas dos Estados Unidos a Israel. Desde que o conselho finalmente apoiou um cessar-fogo, em janeiro de 2025 — após mais de um ano de genocídio —, essa posição foi adotada por vários parlamentares e, por fim, implementada em outubro. No entanto, Israel demonstrou que um acordo de cessar-fogo não é suficiente para interromper a destruição de Gaza. Apenas um embargo de armas pode garantir uma trégua duradoura. Os EUA precisam interromper o envio de armamentos que tornam possíveis os crimes de Israel, e o conselho editorial do Times deve usar sua influência para pedir o fim da transferência de armas norte-americanas ao país.

Segundo os organizadores, o boicote nasce da crescente insatisfação com a postura do New York Times na cobertura da guerra. “O jornal não é apenas cúmplice, mas um facilitador ativo do genocídio do povo palestino”, afirma a carta aberta assinada pelos participantes.

Mais de 300 escritores boicotam The New York Times por cobertura considerada tendenciosa sobre Gaza
A escritora irlandesa Sally Rooney é uma das signatárias da carta | Foto: Erik Voake via AFP

A mobilização surge três meses após o grupo WAWOG divulgar um dossiê apontando supostos vínculos ideológicos e profissionais entre o Times e instituições israelenses. O documento alega que parte dos jornalistas e executivos responsáveis pela cobertura do Oriente Médio teria servido no Exército israelense ou manteria relações próximas com grupos de lobby sionistas.

Os signatários também acusam o jornal de replicar informações não verificadas de autoridades israelenses e de censurar expressões como “limpeza étnica” e “território ocupado”. Segundo eles, a redação trataria as declarações oficiais de Israel como fatos, enquanto reduziria as denúncias de genocídio à categoria de opinião. “Assim como um fabricante de armas, o New York Times faz parte da engrenagem da guerra, ajudando a criar a impunidade que sustenta o massacre”, afirma o texto.

Carta aberta classifica jornal como ‘facilitador do genocídio’

Mesmo após o anúncio de um cessar-fogo, Israel continua realizando bombardeios na Faixa de Gaza. Para os organizadores, a postura do jornal e de outros grandes meios de comunicação ajuda a normalizar a violência contra os palestinos.

“Antes, escrever para o Times seria um sonho; hoje me recuso a colaborar com uma instituição que se comporta como uma nova ‘Rádio Ruanda’”, declarou a escritora Sophie Lewis, ex-colaboradora.

O poeta palestino Mohammed El-Kurd, também signatário, afirmou que a seção de Opinião serve para “dar aparência de neutralidade ao racismo anti-árabe do jornal”. Segundo ele, enquanto as reportagens tratam as versões oficiais de Israel como verdades, o genocídio em Gaza é apresentado como um simples debate de ideias.

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