doenças ginecológicas impactam a vida de mulheres no brasil por terem dificuldade no diagnóstico
“Isso impactou a minha vida naquela época mentalmente porque meu sonho era ser mãe, e quando veio esse diagnóstico que eu poderia ter que fazer a histerectomia, eu fiquei muito triste, fiquei muito apavorada. Foi um período meio conturbado nesse sentido porque eu fiquei totalmente refém do mioma.”
Esse foi o relato de Jéssica Souza (29), professora da rede pública que descobriu miomas uterinos em 2019. Dois anos depois, em 2021, ela soube que os tumores haviam dobrado de tamanho, provocando hemorragias e levantando a possibilidade de uma histerectomia (cirurgia de retirada do útero).
Além de Jéssica, muitas brasileiras passam por isso atualmente. De acordo com dados da Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstretícia (Febrasgo), a doença chega a afetar 80% das mulheres durante a vida, principalmente na fase reprodutiva.
Porém, se engana quem pensa que eles são os únicos vilões na vida da saúde íntima feminina. Patologias como endometriose e adenomiose trazem danos à qualidade de vida das mulheres por serem doenças com difícil diagnóstico.Segundo o Ministério da Saúde, a endometriose tem uma taxa de prevalência estimada entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva. Já a Adenomiose foi responsável por cerca de 15 mil procedimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) no ano de 2021.
Em entrevista para o portal Informe, o médico ginecologista Thiers Soares afirma que essas doenças são difíceis de serem diagnosticadas por incompetência profissional. Ele explica que isso se deve pelos médicos muitas vezes não ouvirem as queixas de suas pacientes e de não conhecerem os principais sintomas dessas doenças.
“Dói muito falar isso, mas apesar de terem sintomas bem claros e específicos, alguns profissionais não dão muita atenção a essas queixas, não dão muita importância. Deixam passar quadros claros como dor na menstruação, dor na relação sexual, dor para urinar. No caso do mioma, por exemplo, aumento do volume abdominal, sangramento uterino. Em mioma e adenomiose, por exemplo, são bem comuns.”
Ele também relata a questão da espera do serviço público e da dificuldade de encontrar profissionais competentes no diagnóstico por imagem da endometriose e principalmente da adenomiose.
“O mioma é um pouco mais fácil de ver pelo exame. E acaba também pela espera, principalmente do serviço público, a gente tem um costume infelizmente, de ter uma fila grande e acaba também atrasando o diagnóstico.”
MIOMAS UTERINOS
Segundo o Ministério da Saúde, miomas uterinos são tumores benignos formados por tecido muscular que se desenvolvem dentro do útero. Eles surgem em mulheres principalmente na idade reprodutiva (fase em que elas menstruam e podem engravidar) e não possuem uma causa conhecida. Podem ser únicos ou múltiplos, e seu crescimento depende do hormônio estrogênio, podendo ser bem pequenos, atingir enormes volumes até diminuir na menopausa.

Parte dos miomas são assintomáticos. Porém, quando surgem, alguns dos sintomas são: aumento do fluxo menstrual, com a presença de coágulos, o que pode resultar em anemia; dor pélvica; aumento do abdômen, consequente do crescimento do mioma.
Além disso, outros sintomas que podem surgir são o aumento da frequência urinária, menstruações irregulares, prisão de ventre e compressão dos vasos pélvicos, causando varizes e inchaço nas pernas. Os miomas uterinos também podem causar dificuldade para engravidar, risco de aborto e até infertilidade.
O diagnóstico pode ser realizado pelo exame físico, ultrassom transvaginal ou ressonância magnética.
TRATAMENTO
O tratamento para os miomas deve ser individualizado, dependendo de características da paciente como a idade e incidência de sintomas. O principal objetivo é controlar o crescimento do mioma.
Para as mulheres que se aproximam da menopausa e tem intenção de diminuir ou retirar o mioma, o tratamento mais indicado é com medicamento para bloquear a produção de hormônio estrogênio. Em alguns casos, antes de iniciar a medicação, é recomendado apenas o acompanhamento, pois a redução natural dos níveis hormonais pela menopausa pode levar à diminuição espontânea do mioma.
Quando o mioma provoca sintomas como dor e sangramentos, a miomectomia (retirada do mioma) é mais indicada sugerida. Quando a cirurgia é feita por via vaginal ou laparoscópica a recuperação é rápida. Porém, uma cirurgia com incisão maior no abdômen pode ser necessária dependendo da localização, quantidade e tamanho dos miomas, aumentando assim os dias até a alta médica.
Já em casos mais sérios ou quando uma mulher não deseja engravidar, uma histerectomia (retirada do útero) pode ser a opção. Outra técnica de tratamento é a embolização da artéria uterina. Através da artéria femoral, partículas são introduzidas na circulação para interromper o fluxo sanguíneo que nutre o mioma, o fazendo encolher e morrer.
Após o crescimento dos miomas, Jéssica Souza passou por uma miomectomia. Em 2025, 03 anos depois de sua cirurgia, ela deu à luz sua filha após uma gestação de alto risco, em que a bebê se desenvolveu no mesmo útero que ainda abrigava um mioma de grande proporção. Depois do parto o mioma continua dentro do útero mas sem causar hemorragias.
ENDOMETRIOSE
Já a endometriose consiste no desenvolvimento e crescimento de células do endométrio (mucosa que reveste parede interna do útero) que, em vez de serem expelidas, caem fora da cavidade uterina, nos ovários ou cavidade abdominal.

Entre os sintomas estão a cólica menstrual intensa, dor pélvica crônica, dor durante relação sexual com penetração, queixas intestinais e urinárias com padrões cíclicos.
O processo para o diagnóstico inclui avaliação clínica, ultrassom transvaginal, ressonância magnética e um exame de sangue chamado marcador tumoral CA-125, que é alterado em casos mais sérios da doença.
Para a supervisora financeira Adélia Gonçalves (46), o impacto da doença vai além da dor física. Diagnosticada aos 45 anos, ela relata como a endometriose afeta sua vida pessoal e profissional.
“Os sangramentos são imprevisíveis e constrangedores, e as dores intensas dificultam manter uma rotina de trabalho ou estudos, afetando a concentração e a criatividade.”
TRATAMENTO
Assim como os miomas uterinos, a endometriose regride naturalmente com a menopausa, por causa da queda na produção de hormônios femininos. Mulheres mais jovens podem usar medicamentos que suspendem a menstruação, como a pílula anticoncepcional tomada sem intervalo e os análogos do GnRH, medicamentos que imitam a ação dos hormônios produzidos pela glândula hipófise no corpo.
Quando não há desejo de gravidez, uma alternativa de tratamento é a remoção dos ovários e do útero.
ADENOMIOSE
Adenomiose é uma condição em que o endométrio (tecido que reveste o útero) cresce de forma anormal no miométrio (camada muscular uterina). Com o acúmulo de células do endométrio, podem ser formados tumores benignos conhecidos como adenomiomas.
Existem dois tipos de Adenomiose: a focal, quando essa alteração fica em apenas uma região do miométrio, e a difusa quando a alteração está em todo miométrio.
Entre os fatores relacionados estão idade acima de 40 anos, primeira menstruação precoce, ciclos menstruais curtos, obesidade, historico de aborto, curetagem, pólipos, miomas e endometriose. Segundo o Ministério da Saúde, evidências apontam que a adenomiose pode ser um marcador de endometriose profunda. Ambas as doenças têm sintomas similares mas se diferenciam na localização do tecido endometrial: enquanto na endometriose ele se deslocou para a parte de fora do útero, na adenomiose ele se encontra na parte de dentro.

A Adenomiose pode ser assintomática ou evoluir para sintomas como cólica intensa, sangramento prolongado durante a menstruação, aumento do volume do útero com inchaços abdominais e problemas de fertilidade. O diagnóstico, assim como os miomas uterinos e endometriose, é feito por consulta clínica e exames de imagem.
TRATAMENTO
O tratamento para Adenomiose pode ser com medicamentos ou cirúrgico. Entre os tratamentos está o uso de contraceptivos hormonais, anti inflamatórios não esteróides e retirada do útero para as mulheres que não desejam engravidar.
Para o Dr. Thiers, além das dificuldades para engravidar e dos grandes riscos de aborto, outras consequências dessas doenças impactam diretamente a qualidade de vida das mulheres.
“Essas doenças podem causar dor importante, uma dor incapacitante. A questão do sangramento também é uma queixa bem comum, uma queixa bem frequente. Esse sangramento, claro, pode causar anemia, dificultando a ação do dia a dia, a paciente fica mais fraca, fica com menos disposição no dia a dia. E o sangramento ainda causa uma questão social, algumas pacientes ficam constrangidas porque acabam tendo um sangramento em público e tem todo aquele estigma da menstruação e isso deixa a paciente muito envergonhada. Então, basicamente isso, é um impacto na qualidade de vida.”












