Data convida à reflexão sobre habitação precária no Brasil e celebra o impacto do romance naturalista de Aluísio Azevedo
No dia 23 de outubro, o Brasil celebra o Dia Nacional do Cortiço, data dedicada à reflexão sobre as condições de moradia popular e à valorização da literatura como instrumento de crítica social. Inspirada no romance naturalista “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, publicado em 1890, a data destaca os desafios enfrentados por milhares de brasileiros que vivem em habitações precárias, como cortiços, ainda presentes em grandes centros urbanos em 2025.
Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), cerca de 320 mil brasileiros vivem em cortiços em 2025, concentrados principalmente nas regiões centrais de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Essas moradias são caracterizadas por cômodos pequenos, infraestrutura precária, compartilhamento de banheiros e cozinhas, e ausência de privacidade.
A urbanista e professora da USP, Raquel Rolnik, afirma:
“Os cortiços são uma forma de resistência urbana. Eles mostram que, mesmo diante da exclusão do mercado formal de habitação, as pessoas encontram maneiras de permanecer nas áreas centrais, próximas ao trabalho e aos serviços.”
Origem da data e seu simbolismo
O Dia Nacional do Cortiço foi instituído por iniciativa de coletivos culturais e movimentos de moradia, com apoio de universidades e entidades ligadas à literatura. A escolha do dia 23 de outubro remete ao contexto histórico retratado por Aluísio Azevedo em seu romance publicado em 1890, que se tornou símbolo da crítica social à habitação precária e à desigualdade urbana.
Em 2025, diversas cidades organizaram eventos para marcar a data, como debates públicos, exposições fotográficas e leituras dramáticas da obra. Em São Paulo, o coletivo “Moradia é Cultura” promoveu uma roda de conversa com moradores de cortiços e especialistas em habitação.
O Cortiço: literatura como espelho da sociedade
Aluísio Azevedo, principal nome do Naturalismo brasileiro, escreveu O Cortiço com base em observações da vida urbana no Rio de Janeiro do século XIX.
A obra retrata o cotidiano dos moradores do cortiço São Romão, propriedade do comerciante português João Romão, que enriquece explorando o aluguel de quartos em condições insalubres.
Azevedo descreve:
“O cortiço fervia. Era uma multidão de gente que se acotovelava, que se empurrava, que se atropelava, que se esmagava.” (O Cortiço, capítulo 5)
A narrativa apresenta personagens como Bertoleza, mulher negra escravizada que vive em situação de exploração, e Rita Baiana, figura sensual e vibrante que representa a miscigenação e a cultura popular. O autor utiliza técnicas como zoomorfização e determinismo para mostrar como o meio influencia o comportamento humano.
O professor de literatura da UFRJ, José Castello, comenta:
“Azevedo não apenas denuncia a miséria material, mas também a degradação moral provocada por um ambiente opressor. O cortiço é mais do que cenário: é personagem.”
Em 2025, O Cortiço continua sendo leitura obrigatória em vestibulares como Fuvest, Unicamp e Enem. Educadores destacam que a obra permite discutir temas como urbanização, exclusão social, relações de poder e identidade cultural.
A professora de literatura do Colégio Pedro II, Ana Paula Nogueira, afirma:
“A leitura de O Cortiço é uma oportunidade de conectar os alunos com questões atuais, como racismo estrutural, gentrificação e desigualdade. É impressionante como um romance de 1890 ainda dialoga com o Brasil de hoje.”

Desafios e propostas para moradia popular
Apesar de programas como “Minha Casa, Minha Vida” e “Casa Verde e Amarela”, o déficit habitacional brasileiro ainda ultrapassa 5,8 milhões de moradias em 2025. Especialistas defendem a requalificação de cortiços e a criação de moradias sociais em áreas centrais, evitando a expulsão de moradores para periferias distantes.
Desde sua retomada em 2023, o MCMV passou por uma reformulação significativa. O programa voltou a priorizar famílias de baixa renda e, até o fim de 2024, já havia contratado mais de 1,26 milhão de unidades habitacionais, superando 60% da meta de 2 milhões até 2026.
Em maio de 2025, o governo federal anunciou a seleção de mais 130 mil novas unidades com recursos do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR) e do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS).
O arquiteto e ativista do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), Carlos Marinho, destaca:
“Não basta construir casas. É preciso garantir acesso à cidade, à cultura, ao transporte. Cortiço não é problema: é sintoma de um modelo urbano excludente.”

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