Psicólogos e terapeutas discutem como o autocuidado, a empatia e novas práticas terapêuticas podem transformar a relação entre vida profissional e emocional
Na próxima quinta-feira, 10 de outubro, o mundo volta suas atenções para um tema que se torna cada vez mais urgente: a saúde mental. Criado pela Federação Mundial de Saúde Mental (WFMH) em 1992, o Dia Mundial da Saúde Mental tem como objetivo promover a conscientização, reduzir o estigma em torno dos transtornos mentais e incentivar a criação de políticas públicas eficazes voltadas ao bem-estar psicológico.
Neste ano, a discussão ganha um novo contorno no Brasil com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece diretrizes de segurança e saúde no trabalho. A nova versão da norma amplia a responsabilidade das empresas, que agora devem cuidar não apenas da saúde física, mas também do bem-estar psicológico de seus colaboradores — um marco importante na consolidação de ambientes corporativos mais seguros, saudáveis e humanizados.
Nesta série especial, esta matéria aborda o tema sob dois ângulos complementares. A primeira matéria apresenta uma análise sobre os desafios emocionais da atualidade, destacando a importância do autoconhecimento, da empatia e do equilíbrio mental. Já a segunda parte mergulha no contexto corporativo, mostrando como as novas exigências legais reforçam a necessidade de programas estruturados de saúde mental nas empresas e de políticas de prevenção e acolhimento.
Com olhares distintos, mas convergentes, ambas as abordagens reforçam uma mensagem essencial: investir em saúde mental é investir em pessoas — e, consequentemente, em um futuro mais produtivo, humano e sustentável.
Saúde mental em números

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 970 milhões de pessoas em todo o mundo convivem com algum tipo de transtorno mental — sendo ansiedade e depressão os mais comuns. No Brasil, estima-se que 5,8% da população sofra com depressão e ansiedade, o que equivale a mais de 11 milhões de pessoas.
O Sistema Único de Saúde (SUS) também registrou aumento expressivo de casos de suicídio e adoecimento psicológico nos últimos anos, o que evidencia a necessidade de ampliar a rede de apoio, fortalecer as políticas públicas e incentivar o diálogo sobre o tema.
Um marco para reflexão e mudança

Mais do que uma data simbólica, o Dia Mundial da Saúde Mental representa uma oportunidade de escuta, cuidado e transformação. É um convite à reflexão sobre a importância de cultivar hábitos saudáveis, buscar apoio emocional e romper o silêncio que ainda cerca o sofrimento psíquico.
“Priorizar a saúde mental é um ato de amor-próprio e de responsabilidade coletiva”, reforçam os especialistas.
Vozes da escuta: diferentes caminhos para o bem-estar

O psicólogo Luti Christóforo (@luti.psicologo) destaca os desafios emocionais contemporâneos e a urgência de políticas de bem-estar dentro das empresas.
“Mais do que nunca, precisamos integrar o cuidado psicológico às rotinas de trabalho, prevenindo problemas antes que se tornem crises”, afirma.
Já o hipnoterapeuta Renês Skaraboto (clinicahipnoseparatodos.com.br) ressalta o papel de técnicas complementares, como a hipnose, no processo de autoconhecimento e equilíbrio.
“Métodos alternativos podem ajudar a aliviar a ansiedade, melhorar a concentração e fortalecer a resiliência emocional”, explica.
O psicoterapeuta Beto Alves (linkedin.com/in/bettoalves) traz à tona o conceito da “criança adormecida no adulto”, destacando como experiências da infância moldam comportamentos e emoções na vida adulta.
“A expressão ‘criança adormecida no adulto’ é uma metáfora que se alinha ao conceito psicanalítico de ‘criança interior’.Esse conceito nos convida a refletir sobre as experiências da infância que moldaram nossa visão de mundo, muitas vezes de forma inconsciente. Essa criança interior representa não apenas nossos medos, traumas e inseguranças, mas também nossa criatividade, curiosidade e a capacidade de nos maravilharmos com a vida. Necessidades não atendidas ou vivências traumáticas na infância podem se manifestar, na vida adulta, como ansiedade, depressão, compulsões ou dificuldades em criar relações saudáveis. Reconhecer, acolher e cuidar dessa criança interior é um passo essencial para quebrarmos esses ciclos e seguirmos um caminho de cura. Reconectar-se com essa parte de nós nos ensina a dar espaço às emoções reprimidas, compreender nossos gatilhos emocionais e transformar padrões antigos em respostas mais saudáveis. Além disso, ao acolher essa vulnerabilidade, fortalecemos a autocompaixão e reduzimos a autocrítica, elementos cruciais para equilibrar a saúde mental. No trabalho e nos vínculos pessoais, nossa relação com a criança interior se traduz diretamente em como nos conectamos com os outros. Um adulto desconectado dessa parte de si tende a ser mais rígido, insensível ou reativo, enquanto aquele que aprende a escutar essa criança desenvolve empatia, comunica-se melhor e rompe ciclos tóxicos, cultivando relações mais autênticas.”, observa.
A especialista em autoconhecimento Déborah Fischer (www.dfischernumerologia.com) propõe uma visão integrada entre fé, numerologia e psicologia, como caminhos de reconexão com o propósito de vida.
“Vivemos um tempo em que o corpo fala, mas a alma grita. A saúde mental não é apenas um tema de cuidado, é um chamado ao reencontro com a própria essência. Tenho visto, no meu trabalho com a Numerologia e a Reprogramação Quântica, o quanto as pessoas adoecem quando se desconectam da sua missão, dos seus valores e da fé. A falta de propósito gera ansiedade, o excesso de comparação alimenta a insegurança, e o distanciamento espiritual cria um vazio que nenhuma conquista externa preenche. A saúde mental precisa ser tratada de forma integral — corpo, mente e espírito — porque somos seres inteiros, e quando um desses pilares adoece, todos sofrem. A fé e o autoconhecimento são caminhos complementares de cura e consciência. Quando a pessoa entende seus números, suas potências e desafios, ela passa a lidar com as emoções com mais clareza e responsabilidade. E quando ela reconecta isso à fé, encontra um alicerce inabalável: a certeza de que há um propósito maior guiando cada fase da vida. Acredito que cuidar da mente é também nutrir o espírito — porque é no silêncio da alma que Deus fala, e é nesse espaço que a verdadeira saúde começa.”, afirma.
Saúde mental em pauta: o desafio de cuidar da mente em tempos acelerados

No Dia Mundial da Saúde Mental, a psicóloga Bárbara Torres Silva reflete sobre as transformações na forma como a sociedade enxerga o equilíbrio emocional, os impactos da pandemia e o papel do autoconhecimento como ferramenta de prevenção e bem-estar. Em uma conversa franca, ela destaca avanços, desafios e caminhos possíveis para uma vida mais saudável emocionalmente.
Contextualização e importância do tema
O Dia Mundial da Saúde Mental vem ganhando destaque nos últimos anos. Na sua visão, o que mudou na forma como a sociedade enxerga o tema?
“O Dia Mundial da Saúde Mental vem, de fato, ganhando cada vez mais visibilidade — e isso representa um avanço significativo na forma como a sociedade compreende o tema. Durante muito tempo, falar sobre saúde mental era visto como sinal de fraqueza ou algo restrito a quem ‘tinha um problema psicológico grave’. Hoje, percebemos uma mudança importante nesse olhar: falar sobre emoções, autocuidado e equilíbrio psicológico passou a ser um ato de coragem, prevenção e conscientização.”
Nos últimos anos, o tema deixou de ser tabu e passou a ocupar espaços de debate em escolas, empresas e até nas redes sociais. Essa abertura, porém, também trouxe novos desafios, especialmente após a pandemia da COVID-19.
O cenário pós-pandemia no Brasil
Depois da pandemia, notamos um aumento nos casos de ansiedade, depressão e burnout. Como você avalia o cenário atual da saúde mental no Brasil?
“A pandemia da COVID-19 também foi um marco nesse processo, pois escancarou a necessidade de cuidar não apenas do corpo, mas também da mente. As pessoas começaram a reconhecer que ansiedade, depressão, estresse e burnout não são ‘frescura’, mas condições que merecem atenção e tratamento adequado.”
Você acredita que estamos vivendo uma “epidemia” de sofrimento emocional, especialmente entre jovens e profissionais sobrecarregados?
“Após a pandemia, o Brasil enfrenta um cenário preocupante, mas também revelador no que se refere à saúde mental. Os índices de ansiedade, depressão e burnout cresceram de forma expressiva, refletindo o impacto das mudanças sociais, econômicas e emocionais vividas nos últimos anos.”
O aumento dos casos é alarmante, mas também revela algo positivo: as pessoas estão buscando mais ajuda e reconhecendo a importância do cuidado psicológico. Ainda assim, o acesso aos serviços e a sobrecarga dos profissionais mostram que o país tem um longo caminho pela frente.
Principais desafios emocionais da atualidade
Quais são os principais desafios emocionais enfrentados pelas pessoas hoje — e o que está por trás deles?
“Atualmente, os principais desafios emocionais envolvem ansiedade, depressão, esgotamento emocional (burnout) e dificuldades nos relacionamentos — tanto pessoais quanto profissionais. Por trás desses sintomas, encontramos uma sociedade cada vez mais acelerada, competitiva e exigente, em que o ‘fazer’ tem sido mais valorizado do que o ‘sentir’.”
Cobranças excessivas, busca pela perfeição e comparações nas redes sociais alimentam sentimentos de inadequação e baixa autoestima. Nesse contexto, o autocuidado e o autoconhecimento se tornam não apenas recomendações, mas necessidades urgentes.
Que conselhos você daria para quem está sentindo sinais de exaustão mental, mas ainda tem medo de buscar ajuda?
“É fundamental entender que pedir ajuda não é fraqueza. Reconhecer seus limites é o primeiro passo para se reconectar consigo mesmo. Autocompaixão, descanso e escuta emocional são práticas que precisam ser resgatadas no cotidiano.”
O papel do psicólogo na promoção da saúde mental
E, por fim, qual mensagem você deixaria neste Dia Mundial da Saúde Mental para quem sente que está lutando em silêncio?
“O papel do psicólogo é fundamental: ajudar o indivíduo a reconhecer suas emoções, desenvolver autocompaixão, estabelecer limites saudáveis e reconstruir o sentido de bem-estar de forma mais humana e realista. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza — é um ato de coragem, autoconhecimento e amor-próprio.”
A fala da psicóloga Bárbara Torres Silva reforça uma mensagem essencial: cuidar da mente é um gesto de força e maturidade emocional. Em um mundo acelerado e exigente, desacelerar, olhar para dentro e pedir ajuda quando necessário são passos fundamentais para uma vida mais equilibrada e saudável.
Fonte:
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Relatório Mundial de Saúde Mental: Transformar a saúde mental para todos. Genebra, 2022.
- Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico de Saúde Mental, 2024.
- Ministério do Trabalho e Emprego. NR-1 – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, atualizada em 2024.
- Federação Mundial de Saúde Mental (WFMH). World Mental Health Day – History and Objectives, 2023.












