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“Por uma matemática para todos”: como contornar os desafios educacionais no Brasil

Sala de aula vazia com mesas verdes

Foto: Caco Argemi / CPERS – Sindicato

Baixo desempenho nacional em matemática nos principais rankings internacionais é tópico de discussões em congresso de jornalismo de educação

Nesta manhã (25), o 9º Congresso de Jornalismo de Educação – organizado pelo grupo Jeduca – trouxe o debate sobre os desafios do ensino na matemática. Questões como infraestrutura e metodologia de ensino foram levantadas pelos congressistas para explicar essa realidade. Últimos dados dos principais avaliadores de ensino internacional, como Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) e o Estudo Internacional de Tendências em Matemática e Ciências (Timss), mostram o Brasil com um atraso significativo na disciplina. 

Dados do ranking Pisa 2022 demonstram que 73% dos alunos avaliados tiveram baixo desempenho em matemática, enquanto a média dos países da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi de 31%. Kátia Smole, do ex-secretária de educação básica no Ministério da Educação, destacou também a ansiedade com matemática, também observado pelo Pisa. Cerca de 74,2% dos alunos de 15 anos sofrem com essa sensação sobre a disciplina. “É comum sentirmos ansiedade daquilo que temos dificuldade em entender”, afirma Kátia.

Gráfico sobre o crescimento de pontuação no Saeb em matemática
Um dos principais medidores nacionais é o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), aplicado pelo Inep; o gráfico acima demonstra a melhora do ensino na matemática no quinto ano do Ensino Fundamental desde o início da série [Reprodução/Inep]

A pesquisa Tmiss, divulgada em dezembro do ano passado, intensifica a piora das estatísticas. O Brasil figurou nas partes de baixo da tabela: para alunos entre o 4º e o 8º ano, os resultados em matemática foram melhores somente que o Marrocos. Países como Irã e África do Sul estiveram mais acima na pontuação. Sobre esses estudos, Kátia acrescenta que essas pesquisas não podem ser observadas sem considerar as diferentes realidades enfrentadas pelas escolas brasileiras. 

Ensinando na prática

Antônio de Souza Silva, professor e educador de Bacabal (MA), detalhou sobre as resistências que enfrentou. Em uma escola pública no interior rural do Maranhão, Antônio afirma que, ao observar a resistência dos alunos à apreensão da matemática na passagem do 5º ao 6º ano, o professor decidiu implementar o ensino de robótica. A ideia era apresentar uma aplicação prática daquilo que era visto em sala de aula. Com o apoio dos moradores da cidade, o projeto coletou materiais recicláveis, locais adequados ao ensino e formação técnica em robótica. O professor completa que o projeto apresentou uma melhora significativa no interesse na matemática.

Projeto de ensino de robótica em Bacabal (MA), feito de papelão e materiais reciclaveis.
Projeto de aplicação da matemática em robótica em Bacabal (MA), feito de papelão e materiais reciclaveis. [Reprodução/Fundação Itaú]

A experiência de Antônio demonstra o poder do estímulo dos jovens para além da educação tradicional. A pesquisadora em ensino de matemática da Universidade de Stanford, na Inglaterra, Jo Boaler, abordou essa temática no congresso. Apoiada em estudos pedagógicos e análises de neurociência, estudantes estimulados desde cedo apresentam resultados melhores em matemática. Segundo Boaler, é importante aproximar a disciplina para o mundo real, desenvolver ações práticas e apresentar questões numéricas relevantes. “O estudo de dados e raciocínio é fundamental para uma equidade de direitos; ninguém nasce com cérebro preparado para a matemática”, afirma a pesquisadora.

A realidade brasileira passa por questões sociais complexas, como reforça Kátia. A desigualdade social e a rigidez da Base Nacional Comum Curricular para o ensino da disciplina foram elencados como alguns dos principais desafios para a equidade na matemática. “Precisamos fugir da responsabilização unicamente do professor e pensar a matemática como política pública”, afirma. Jo Boaler apresenta que a promoção de uma maior diversidade de métodos matemáticos pode ser a chave para a aceitação da disciplina: “devemos construir uma matemática plural, que olhe para todos”, completa a pesquisadora.

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