Apesar da presença significativa no ensino fundamental, apenas 15,7% dos autistas concluem o ensino superior no Brasil
Nos últimos anos, o número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) cresceu no Brasil, revelando avanços no diagnóstico e na inclusão de crianças e adolescentes na educação básica. Porém, esse movimento não se repete no ensino superior.
Apenas 15,7% dos autistas com 25 anos ou mais concluíram a graduação, segundo o último Censo do IBGE. A transição entre os níveis de ensino continua sendo marcada por barreiras estruturais, emocionais e sociais que afastam milhares de estudantes da universidade.
Histórico e crescimento dos diagnósticos
O termo “autismo” foi criado em 1908 pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler para descrever a fuga da realidade observada em pacientes com esquizofrenia. Mais de um século depois, em 2022, a condição passou a ser oficialmente reconhecida como Transtorno do Espectro Autista (TEA), um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, o comportamento e a interação social.
Esse reconhecimento, no entanto, foi resultado de um processo lento. Nos anos 1950, a Associação Americana de Psiquiatria ainda classificava o autismo como um subgrupo da esquizofrenia infantil e difundia teorias equivocadas, como a de que o transtorno seria causado por pais emocionalmente distantes, hipótese que, mais tarde, foi descartada por falta de fundamento científico. A partir das décadas de 1960 e 1980, pesquisas começaram a apontar que o autismo tem origem neurológica, está presente desde os primeiros anos de vida e se manifesta em diferentes países, culturas e grupos socioeconômicos.
De acordo com a psicóloga Gessika Gimenez, especialista em atender pacientes com TEA, essa evolução contribuiu para o aumento dos diagnósticos, já que sinais do autismo estão sendo identificados mais rapidamente e as famílias têm buscado atendimento especializado com maior facilidade. “Nos últimos anos, as pessoas têm tido mais acesso a informações qualificadas, o que facilita o reconhecimento precoce de sinais e a busca por atendimento especializado. Paralelamente, os profissionais de saúde contam hoje com instrumentos diagnósticos mais sensíveis e sofisticados, capazes de identificar casos que antes poderiam passar despercebidos”, afirma.
No entanto, esse avanço nem sempre se reflete na educação: se muitos estudantes autistas conseguem ingressar na escola, ainda são poucos os que conseguem permanecer e concluir a universidade.
Mais presentes na escola, mas ainda minoria na universidade
Dados do último Censo do IBGE mostram que pessoas autistas com mais de seis anos têm uma presença significativa na educação básica: quase 37%, contra 24% da população geral. O cenário, no entanto, muda drasticamente no ensino superior: apenas 15,7% dos autistas com 25 anos ou mais concluíram a faculdade. Para a deputada estadual Maria Clara Marra (PSDB), os números apenas confirmam aquilo que já se percebe na prática.
Para a psicóloga Gessika Gimenez, uma das barreiras é que o campo acadêmico exige um alto grau de autonomia e uma estrutura menos organizada do que o ensino médio, gerando estresse para esse indivíduo. “É comum que os alunos autistas tenham dificuldades para se localizar fisicamente dentro do campus, compreender e organizar o ambiente virtual, lidar com a estrutura das aulas e da grade curricular. Esses fatores frequentemente se tornam fonte de ansiedade e sobrecarga emocional”, afirma.

“O que ouvimos de especialistas e famílias é que a evasão escolar no ensino superior tem um impacto direto na dificuldade de encontrar mão de obra qualificada, porque muitos jovens não conseguem concluir a faculdade. Nas agendas que faço pelo interior de Minas, escuto constantemente mães e pais que sonham em ver os filhos na universidade, mas que esbarram em barreiras enormes nessa transição”.
Além das demandas acadêmicas, o jovem autista ainda precisa lidar com o reconhecimento de si como pessoa neurodivergente, desenvolvendo autonomia, autodefesa e aceitação. Quando esse processo não recebe acompanhamento adequado, os riscos para a saúde emocional e social aumentam, especialmente diante de questionamentos sobre o porquê de não serem incluídos da mesma forma que os colegas e a necessidade de suportes diferenciados.
“Embora já existam avanços importantes e um movimento crescente de inclusão nas universidades, muitas vezes esses esforços ainda não são suficientes para garantir que o estudante autista consiga se inserir e permanecer no ambiente acadêmico.” Essa percepção é reforçada por Raquel Vasconcelos, especialista em inclusão no Núcleo de Apoio à Inclusão (NAI) da PUC Minas. Para ela, a conquista de direitos acontece de forma gradual, em passos que ainda são lentos. Por isso, é fundamental que as universidades mantenham núcleos especializados capazes de oferecer suporte contínuo e prático aos estudantes autistas.

“De modo individualizado, o NAI também faz a apresentação do aluno ao curso, contando de suas características principais, dificuldades e facilidades, mostrando que o que define o suporte a ser ofertado é a especificidade da pessoa, não apenas o diagnóstico apresentado”, explica Raquel.
Outro ponto determinante é o aspecto financeiro. Quando o estudante ou sua família não têm condições de custear terapias, acompanhamentos ou recursos que facilitem a adaptação, a permanência na universidade se torna ainda mais difícil.
Esse conjunto de obstáculos revela que, embora a inclusão seja um tema em alta, transformá-la em realidade continua sendo um processo lento e cheio de lacunas. E é justamente nesse ponto que surge a próxima questão: o que é preciso para que estudantes autistas não apenas entrem, mas consigam permanecer na universidade?
A luta pela permanência

Euller Carlos de Arruda Cabral, de 36 anos, é professor de química, consultor educacional e músico. Ele recebeu seu diagnóstico de autismo já na vida adulta, aos 26 anos. Embora tenha apresentado sinais desde cedo, o diagnóstico foi dificultado por crescer em uma cidade pequena, conviver com diabetes e possuir alta capacidade intelectual, que mascararam traços do autismo e tornaram a identificação precoce mais desafiadora.
Durante a escola, enfrentou bullying, dificuldades de socialização e desafios físicos, como coordenação motora limitada para esportes, agravados pela diabetes.
“Toda vez que eu me sentia mal, as pessoas pensavam que era diabetes, mas nem sempre era diabetes. Às vezes era coisa do autismo, só que se refletia, porque alguns sintomas são iguais”. Na universidade, Euller sofria frequentemente shut down, um estado de sobrecarga sensorial ou emocional que leva a pessoa autista a se desconectar do ambiente, permanecendo imóvel ou “desligada”. Para amigos e familiares, os desmaios eram atribuídos à queda de glicose.
Na época da escola, Euller não era como os outros colegas. Não olhava nos olhos, preferia sua própria companhia e levava tudo ao pé da letra. Em relação a relacionamentos amorosos, de forma racional, dizia à mãe: “não é o momento”. E de fato não era. Anos depois, quando chegou o momento certo, casou.
O suporte de uma professora foi decisivo: “Eu tive uma professora que teve uma ideia genial. Me colocou para ser o ajudante dela. E ao fazer isso, ela me colocou para socializar de forma indireta e ajudou também no processo da alfabetização dos colegas. Ela conseguiu unir o útil ao agradável. Uma ideia simples. Então, eu acho que isso me ajudou bastante”.
A mudança para a universidade trouxe novos desafios: alterações na rotina, medo de não fazer amigos e sobrecarga emocional. Euller precisou trancar a matrícula após crises de desmaio e episódios de hiperventilação. A situação evidencia a importância de políticas de permanência para estudantes autistas. No ano passado, a deputada Maria Clara Marra apresentou o Projeto de Lei nº 2.990/2024, que estabelece diretrizes para a criação de salas de acolhimento sensorial em instituições de ensino superior de Minas Gerais. O objetivo é oferecer ambientes adequados às necessidades sensoriais dos estudantes autistas, garantindo não apenas o acesso, mas principalmente a permanência.
A melhora aconteceu após o diagnóstico correto por um psiquiatra em Barbacena, quando Euller finalmente compreendeu sua condição. Hoje, ele incentiva outros jovens autistas a buscar a universidade e aproveitar os núcleos de atendimento e recursos disponíveis. “É essencial acreditar em si mesmo, buscar apoio e se manter nos tratamentos. A melhor condição nunca vai acontecer sozinha; é preciso ir com o que se tem e melhorar com o tempo”, recomenda. Sua trajetória mostra que inclusão não é apenas abrir portas, mas construir caminhos para que todos consigam permanecer.
É preciso pensar em políticas de permanência como bolsas de estudo, apoio psicopedagógico, adaptação curricular e o uso de tecnologias assistivas. Garantir matrícula no ensino superior não é suficiente para promover a inclusão.
Caminhos para inclusão
Relatos de professores e especialistas indicam a necessidade de programas de capacitação contínua para melhor acolher os estudantes autistas. Esse preparo deve começar ainda na formação docente, garantindo que os futuros educadores saem das faculdades com mais segurança e conhecimento para lidar com a diversidade.
Maria Clara Marra reforça que o foco não é apenas o estudante, mas toda a comunidade atípica que o sustenta: “Quando falamos em autismo, não estamos falando apenas da pessoa com TEA, mas de famílias, amigos, profissionais e instituições que caminham juntos nesse processo. É preciso criar políticas que olhem para os dois lados, garantindo apoio ao estudante e à rede que o acompanha, para que a trajetória educacional seja contínua, com menos evasão e mais oportunidades reais de futuro.”

Na universidade, o suporte especializado faz toda a diferença. Raquel Vasconcelos, do NAI da PUC Minas, explica que o atendimento individualizado é essencial: “De modo individualizado, o NAI também faz a apresentação do aluno ao curso, contando suas características principais, dificuldades e facilidades, mostrando que o que define o suporte a ser ofertado é a especificidade da pessoa, não apenas o diagnóstico apresentado.” Hoje, o NAI acompanha cerca de 250 alunos autistas, com diversos acompanhamentos ao longo do semestre e ações para conscientizar professores e colegas.
A psicóloga Gessika Gimenez lembra que adaptações práticas e recursos de apoio são fundamentais para que esses estudantes permaneçam e prosperem: “O trabalho de acompanhantes terapêuticos, adaptações acadêmicas e centros de inclusão com psicólogos e pedagogos são essenciais. Esses profissionais orientam os estudantes, esclarecem dúvidas e funcionam como ponte entre o aluno e a universidade. Apesar de alguns avanços, ainda há muito a ser feito nas políticas públicas para garantir que a diversidade de necessidades seja atendida.”
E é justamente com base nessa experiência prática que o próprio Euller reforça a importância de acreditar em si mesmo e buscar apoio: “Vai com o que tem e tenta melhorar as condições com o tempo mesmo, porque a melhor condição nunca vai acontecer. Saiba que existe uma rede de apoio e acredite em si mesmo.”
A trajetória de estudantes como Euller, somada às iniciativas de políticas públicas e de núcleos de apoio nas universidades, mostra que a inclusão real exige ação coletiva e persistência. Abrir portas é apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio está em criar caminhos para que todos permaneçam.













2 Comentários
Vdd. Abrir portas é importante, mas criar caminhos de continuidade é essencial.
Verdade. Abrir portas é importante, mas criar caminhos de continuidade é essencial.