Primeiro dia da conferência de jornalismo de dados em São Paulo promoveu painéis e workshops para debater as bases informacionais brasileiras
O primeiro dia da Conferência Brasileira de Jornalismo de Dados e Métodos Digitais (Coda.br) lotou o prédio do Insper, instituição de ensino da Zona Sul de São Paulo, com jornalistas e programadores de todo o país. O evento organizado pela Escola de Dados e o Open Knowledge Brasil contou com a participação de atores do mercado e da academia para discutir os principais temas do uso de dados no Brasil e as novas ferramentas disponíveis para os jornalistas.
O Coda.br dividiu suas atividades entre painéis e workshops, no primeiro com a formação de mesas de debate e o segundo com oficinas de apresentação de softwares úteis para o dia a dia do jornalista. O Coda.br aconteceu nesse final de semana (18 e 19).
Manipulação de dados em eleições

O primeiro painel do Coda.br apresentou o tema “Jornalismo em tempos de eleição e automação: o que a IA vai decidir por nós?” e contou com a participação de três especialistas. Com o avanço da comunicação pelas plataformas digitais, as campanhas para cargos públicos estão sendo completamente digitais. Esse movimento pode fragilizar a democracia, já que o conteúdo impulsionado pelos algorítmos pode trazer uma desinformação ou ataque contra algum grupo minoritário.
A partir disso, aparece o jornalismo como uma barreira para conter os danos causados por essas transformações. Segundo o painelista Helton Gomes, colunista de tecnologia para o UOL, “o jornalismo precisa se adaptar a essa linguagem digital para melhorar as análises políticas”. O jornalista complementa que a falta de soberania nacional coloca em cheque a mídia brasileira: “O avanço das plataformas em investimentos com IA colocam um gargalo no jornalismo”, afirma.
Para Raquel Saraiva, do Instituto de Pesquisa em Direito no Recife, o IP.rec, a vanguarda tecnológica brasileira é ponto crucial para o futuro do país. A pesquisadora afirma que, por mais que as discussões em Brasília estejam sempre atrás das novidades em IA, “uma boa regulação impede a necessidade de rediscutir a cada inovação”.
As legislações mais debatidas atualmente são: o PL 2338, que visa criar um marco regulatório sobre o uso de IA, e o PL 2630, o chamado “PL das FakeNews”. Raquel aborda três pontos principais que uma regulação precisa ter para proteção dos dados: 1. Transparência do funcionamento dos algorítmos; 2. Responsabilização das plataformas em casos de impulsionamento de conteúdos danosos; 3. Proteção caso uso dos dados pessoais para discriminação. “O setor privado e as Big Techs não vão agir se não houver cobranças constantes” completa a pesquisadora.
O governo tem buscado ações para regular essa realidade. Jean Campos, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, elencou no palco do Coda.br o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e o PL 1010/2025, que institui a disciplina de educação midiática e digital para todas as escolas a partir do ano que vem. Segundo ele, essas inovações jurídicas apresentam avanços claros para a regulação nacional. “As plataformas moldam os nossos gostos e os nossos interesses como quiserem”, afirma. “A 15 anos, a palavra Desinformação não aparecia em nenhum documento; hoje, esse problema já está na agenda da ciência e da tecnologia brasileira”, completa Jean.
Ciência aberta e reprodutibilidade

O painel da tarde do Coda.br apresentou o movimento Ciência Aberta, que busca maior transparência da produção científica em todo o mundo. Esse movimento é recomendado pela UNESCO como uma forma de “tornar o conhecimento científico multilíngue disponível abertamente, acessível e reutilizável para todos”. Hoje em dia, o mercado das revistas acadêmicas e da premiação por produtividade conduz a ciência moderna. Os cientistas são impulsionados a produzir massivamente e as revisões por pares despertam mais suspeitas.
Olavo Amaral, do Instituto Brasileiro de Reprodutibilidade, afirma que “estamos perdendo os dados da ciência brasileira”, já que parte do processo de criação de uma pesquisa pode ter suas informações sigilosas ou vendidas para grupos do exterior. “Uma forma de viabilizar a Ciência Aberta é estimular com gratificações a transparência dos dados acadêmicos”, afirma.
Sarita Albagli, do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, o IBCIT, elencou seis pontos para que a ciência tenha uma abordagem democratizante: Acesso aberto, Dados abertos, Métricas Alternativas de comprovação, Propriedade Intelectual bem definida, Ferramentas e Softwares acadêmicos abertos e a Ciência Cidadã. Para a pesquisadora, a ciência deve ser um bem comum de toda a humanidade e deve atender e se alimentar do conhecimento da comunidade.
Mas a caminhada para a abertura do conhecimento acadêmico deve ainda passar por questões sociais, políticas e econômicas. Esse pensamento mais crítico sobre a Ciência Aberta partiu da painelista Débora Peres, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq). “Quem tem conhecimento tem o poder”, afirma Débora, ao ressaltar que, em um ambiente geopolítico complexo, não deve ser simples abrir mão dos dados. “A abertura desses dados pode ser usada pelas Big Techs e ampliar sua área de denominação”, completa.
IA e bases de dados no Coda.br

Mais de dez workshops organizados pelo Coda.br trouxeram ferramentas eficazes para jornalistas de todas as áreas. O enfoque trabalhado foi o aprendizado básico de Inteligências Artificiais Generativas (IAGs), como o NotebookLM, linguagens e softwares abertos, como ggplot2 e QGIS, e formas de tratamento de dados que passam por recortes sociais, raciais e de gênero.












